domingo, 30 de dezembro de 2012

Ensaio - O futebol português em 2020

Foram precisos quase 20 anos para que a hegemonia bicéfala entre Benfica e FC Porto fosse quebrada. Depois de uma Taça de Portugal e de duas Taças da Liga conquistadas nos sete anos anteriores, o Sp. Braga de António Salvador chega, finalmente, ao tão almejado título de campeão nacional, juntando-se ao restrito lote onde só figuravam Benfica, FC Porto, Sporting, Belenenses e Boavista. "Há dez anos que somos presença assídua no pódio do futebol português. Se fôssemos tratados como os nossos rivais, este não tinha sido o primeiro campeonato do historial do Sporting Clube de Braga. Talvez agora nos passem a tratar com o respeito que merecemos", atirou o presidente dos Guerreiros do Minho desde 2003.
O feito do Sp. Braga não constituía a única mudança no panorama do futebol em Portugal nos últimos anos. A nível internacional, a selecção A, agora comandada por Paulo Sousa, falhara três das últimas quatro fases de apuramento para Europeus e Mundiais. Às ausências no Brasil e na Rússia juntou-se o fracasso na campanha para o Euro 2020, o primeiro disputado em vários países do velho continente. "Há anos que alertamos para as consequências da fraca aposta no jogador português. Com o definhar da capacidade de recrutamento, acabaram-se os Cristianos Ronaldos, os Figos e os Ruis Costas", desabafa um antigo internacional num programa televisivo.
A descida do patamar competitivo da equipa das quinas coincidiu com a saída de cena do Sporting da ribalta do futebol nacional. Depois de vários anos a lutar pela permanência na I Liga, a descida de divisão há muito profetizada pela opinião especializada cumpriu-se em 2015. Sob a égide de Bruno de Carvalho, o clube leonino passou duas épocas mergulhado no escalão secundário para regressar, em 2017, ao grupo dos melhores, ainda que a distância considerável dos primeiros. Com bases mais sólidas, em 2019 classificou-se em quarto lugar, o último que deu acesso às competições europeias.
Nesse ano, o Benfica sagrou-se tetracampeão nacional pela primeira vez na sua história. O título foi selado na penúltima jornada, na cidade Invicta, em pleno Estádio do Dragão. Desde 2015, ano em que Pinto da Costa abandonou a presidência do FC Porto depois de mais o título, que os azuis e brancos não conquistavam qualquer campeonato, registando-se já o maior jejum em quatro décadas. A rivalidade entre adeptos mantinha-se quente, embora as relações entre os presidentes dos dois clubes fossem, agora, cordiais. Após o fim do jogo, que terminou com um empate suficiente para as "águias", Antero Henrique endereçou méritos ao seu homólogo lisboeta, Rui Costa. O presidente dos encarnados, eleito no Verão do ano anterior, dedicou, lavado em lágrimas, o "tetra" a Eusébio da Silva Ferreira, falecido três semanas antes, aos 77 anos.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Se ao menos fosse governante...

É o homem do momento em Portugal. Dizia-se coordenador de um inexistente Programa para o Desenvolvimento das Nações Unidas e, com essa tanga, enganou dinossauros do jornalismo, instituições prestigiadas com interesse em escutá-lo, bem como a maioria dos portugueses. Apresentou-se como economista formado no ISCTE, consultor do Banco Mundial e professor numa universidade norte-americana que, afinal, não existe.
Depois de enganar tudo e todos, alguém descobriu que Artur Baptista da Silva é, afinal, um charlatão. E dos grandes. Hoje sabe-se que foi presidente do Conselho de Fiscalização do Sporting na Era Jorge Gonçalves - o homem que serviu de inspiração a patifes como Vale e Azevedo -, que esteve preso até há bem pouco tempo e que é bem conhecido nos corredores da PJ, que tem o seu nome em 18 processos-crime.
Baptista da Silva está metido em sarilhos grandes (e não é na localidade da margem sul do Tejo) e em breve deverá gozar de umas férias forçadas numa choldra algures em Portugal. Se ao menos gozasse de imunidade perante a lei ainda se safava. Como o Miguel que comprou uma licenciatura, o José que se tornou engenheiro a um domingo, o Aníbal que promulga documentos inconstitucionais e o Vítor, o rei mago, que assina portarias com base em leis inexistentes. Se ao menos fosse governante...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Obras de arte

Num dia de nevoeiro procurava-se Dom Sebastião, mas foi esta a nossa sorte. Uma obra capaz de fazer corar Souto Moura ou Siza Vieira. Numa espécie de ZIL desactivada em Setúbal.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Retrospectiva de um ano

O fim do ano é época de balanços. Na imprensa fala-se dos que deixaram este Mundo, lembram-se os acontecimentos políticos mais importantes e, entre muitas outras coisas, enfatizam-se aqueles que mais se destacaram nos 12 meses anteriores.
Nós, de forma muito ou pouco profunda, fazemos exercícios retrospectivos não muito diferentes. Lembramos os que partiram e os que chegaram às nossas vidas, aqueles que nos ajudaram e os que nos deixaram ficar mal, as portas que se abriram e as que se fecharam.
O ano que está prestes a terminar não figura no lote dos melhores da minha existência. Mas, porque estará umbilicalmente ligado a mim para sempre, não vou deixar de usar as coisas más como ensinamentos para a vida. Quanto às coisas boas, tentarei conservá-las.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Leitores compulsivos

Há coisa de três ou quatro anos um colega disse-me quantos livros tinha em casa. Não me recordo concretamente de quantos eram - sei que várias centenas -, mas lembro de lhe perguntar qual o livro que estava a ler. Disse-me que não sabia ao certo, o que me fez uma certa confusão. Começar a ler um livro, parar, começar outro, parar, começar ainda outro, parar, e depois retomar, quase aleatoriamente, a leitura de um desses livros que tinha deixado a meio era, para mim, um tremendo caos.
Esse amigo figura no lote daqueles que eu considero serem leitores compulsivos (selectivo, porém), daqueles que devoram livros de 500 páginas num fim-de-semana sem procederem à técnica da leitura diagonal. Conheço algumas pessoas assim e tiro-lhes o chapéu por terem a capacidade de fechar-se num mundo quase metafísico durante horas a fio, sem que nada as perturbe. Para essas pessoas, o único inconveniente do dia é ser tão curto. Se o planeta demorasse mais tempo a girar sobre si próprio, mais horas passariam a ler.
Não sou assim. Gosto de ler, mas distraio-me com facilidade. Ora é a televisão, ora são os carros que passam pela rua, ora é a mosca irritante que de minuto a minuto me testa a paciência. É isso: não consigo fechar-me nesse tal mundo durante horas a fio, mas já vou percebendo esse meu amigo que numa aparente desordem lê vários livros ao mesmo tempo.
Do local onde me encontro a redigir este texto à minha estante de livros dista cerca de um braço e meio. Posso, portanto, contemplar os que não terminei - denunciados pelos marcadores -, não por os considerar maus, mas por entender que outros seriam mais interessantes naquela altura. Porquê? Não sei bem. É tudo uma questão de espírito.
Em 2012 não terminei muitos livros, talvez por ter adoptado esta espécie de leitura que muitos consideram anárquica, mas todos eles valeram a pena. Até os que ficaram por acabar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A vida é assim. Para mim

Primeiro a voz, o acne e depois os pêlos que denunciam que o puto imberbe está a transformar-se num homem hirsuto. Depois, a balança cruel, as dores crónicas em zonas nevrálgicas do corpo, a pele flácida, o cabelo que cai. O definhar do amontoado de ossos que nos compõe, a uns mais bonitos do que a outros, prossegue. Até chegarmos ao fim da linha.
Estamos em constante mutação. Se o tentarmos negar, há sempre alguém que nos lembra: "Há quanto tempo que eu não te via! Estás diferente, pá!" E, a partir de uma certa fase da nossa passagem, dificilmente mudamos para melhor. Pelo menos fisicamente.
Se é verdade que o Homem se vai tornando fisicamente desinteressante - há quem diga que é quando chega às idades dos "entas" - também não é mentira que dispõe de mais ferramentas à medida que os anos passam. Torna-se mais astuto, calculista, atento. Mais inteligente. Torna-se, em rigor, melhor e nem são precisos anos de vida para o transformarem.
E eu, do alto da pouca sabedoria que os meus 24 anos me conferem, reconheço-o.
Experiências más, livros que lemos, histórias que ouvimos, conselhos que recebemos. Os caminhos que seguimos, as decisões que tomamos têm como base decisória as nossas experiências passadas.
Se em tempos apanhaste em flagrante duas namoradas (ambas loiras) em plena cópula com um fulano qualquer, é normal que nutras uma certa repugnância por mulheres loiras; se não percebeste um corno do primeiro livro que leste do António Lobo Antunes, não terás muito interesse em ler um segundo ainda que este já repouse na tua estante de livros; se um dos teus bons amigos se mete constantemente em alhadas nas saídas à noite, é crível que comeces a recusar alguns dos seus convites; e por aí fora.
Porém, quem sabe se um dia não estarás interessado em reler o tal livro do Lobo Antunes ou voltar a comer sushi depois de uma má experiência? Quem sabe se a mulher da tua vida não é mesmo uma loira de seios protuberantes, olhar arrebatador e, ainda por cima (!), fiel?
A vida é assim mesmo, volúvel: por mais experiências que se vivam, livros que se leiam e histórias que se oiçam.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A doença americana

O atirador em 2005
A América - a auto-intitulada nação perfeita, o Éden da Terra - está em choque. Um maluco qualquer resolveu entrar a matar numa escola primária. Tirou a vida a 27 pessoas, 20 delas crianças. Adam Lanza, de 20 anos, matou ainda a mãe - professora na escola - e a namorada foi dada como desaparecida.
Uma vez mais, o tema do fácil acesso a armas de fogo por parte da população americana vem à baila. Ao longo dos anos já nos habituaram a estes massacres, de maiores ou menores proporções mas sempre chocantes.
Quer-me parecer que os americanos, sempre na linha da frente quando se trata de mudar o Mundo (para melhor, dizem), ainda têm muito para fazer dentro de portas.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Somos todos iguais

De tempos a tempos, todos nós encontramos pessoas que nos fazem sentir uma merda. Pessoas que nos sugam a auto-estima, que nos fazem sentir miseráveis, um monte de esterco, ou apenas inferiores.
Pode ser o chefe através do seu constante circunlóquio de insultos, o professor que nunca está contente com nada, o sogro que passa a vida a dizer que a filha devia ter casado com o filho dos melhores amigos, ou simplesmente alguém que consideramos ter um ascendente psicológico sobre nós por uma qualquer razão que nem sabemos especificar.
Essas pessoas, por mais diferentes que sejam entre si - e por mais distintos que sejam os motivos do nosso desconforto - causam em nós sensações não muito distintas.
Tentamos lutar contra elas. E contra nós próprios. Contra as palavras que não saem, os pensamentos que não conseguimos reproduzir e contra as imprecações que aflitivamente queremos soltar mas que ficam, tudo porque um estupor filho da mãe nos interrompeu momentaneamente o canal que liga o cérebro ao nosso aparelho emissor e que nos toldou parte do raciocínio.
Há pessoas que têm este efeito em nós. Fazem-nos sentir a derradeira presa da caçada. Impotentes. Encurralados no fundo de um poço fétido. Frustrados. Sim, frustrado será o adjectivo mais adequado.
Talvez numa tentativa de garantirmos o equilíbrio emocional do pequeno ecossistema que habita dentro de nós, tendemos a adoptar a estratégia, inconsciente e errada, de descarregar as nossas frustrações nas pessoas que nos são mais próximas.
No fundo, não somos assim tão diferentes dos outros.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A amiga do Moretto

Num centro comercial, dois indivíduos passam por uma banca de promoção a um recém-lançado produto da Martini. Uma das senhoras é brasileira e oferece os seus préstimos - leia-se, dar a provar a referida bebida.
Conversa puxa conversa e, ou não fosse dia de dérbi, acaba-se a falar de futebol. Para além disso, a rapariga nutre uma certa simpatia pelo Benfica.

- Çeis sábem umá coisá? Eu conhêço um antchigo jogádorr do Benfica.
- Ai sim? Quem é?
- O Moretto!
- Iiiiiiihhhh, o Moretto. Grande guarda-redes! - mente cordialmente um dos rapazes.
- Qui nádá! Elhi é frangueeeeeiiiiroooooooo. Àis vezis lhi mando vídeos dêlhi, a gozárr.
- Estava a tentar ser simpático, mas você tem razão. É mauzinho, sim...
Nisto, o outro rapaz interrompe.
- Pior do que ele só mesmo o Roberto. É possível fazer um best of com os dez maiores frangos dele numa só época.
É verdade. Não é à toa que ele ficou conhecido no futebol português como Franguetto. E só de pensar que ele esteve a uma unha negra do FC Porto até fico com urticária.



Tesourinhos

"Não gosto do Sporting. No meu bairro, era o clube da elite, da polícia e dos racistas." As declarações de Eusébio há pouco mais de um ano, na Revista Única do Expresso, não caíram bem no seio da comunidade sportinguista. Muitos disseram que o antigo jogador do Benfica estava senil e houve quem levantasse a hipótese da entrevista ter sido realizada depois de almoço.
Poucas semanas depois, estava eu na Hemeroteca e encontrei uma entrevista de Dinis, extremo leonino na década de 70 e que tanta falta faria hoje a Vercauteren. O jogador angolano não confirmou a versão de Eusébio, mas assegurou que havia racismo no Sporting. E não era no de Lourenço Marques.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

"Dizem que são loucos da cabeça"

"Quer ir ver o jogo? Então, se quer, abstenha-se desses comentários", atirou o agente da PSP. Pouco faltava para as 18 horas quando integrei, com mais dois amigos, o cortejo perto da entrada do Estádio da Luz pelo Alto dos Moinhos e a coisa já prometia. Contra as minhas reservadas expectativas, a viagem - ora a trote, ora a galope, ora com algumas paragens pelo meio - fez-se bem.
Não que toda a gente se tenha portado bem. Há animais em qualquer grande grupo, seja qual for a sua génese, mas convém dizer que, nas claques de futebol, a amostra é relativamente elevada. Sucedem-se os rebentamentos de petardos e acumulam-se as picardias entre adeptos e agentes da PSP, num ambiente que chega até a ser crispado entre os apoiantes do Benfica.
A imprensa de hoje noticia que houve vários feridos durante os festejos do primeiro golo, que uma das casas de banhos do Estádio de Alvalade foi destruída e que alguns adeptos foram identificados pelas autoridades. Um novo cântico dos NN pinta bem - ainda que de forma não propositada - a natureza de alguns indivíduos, embora eu acredite que sejam uma minoria: "Dizem que somos loucos da cabeça", ouve-se a certa altura.
Tirando isso, e porque o Benfica ganhou, gostei da experiência.

Ontem foi assim:
















quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O dia em que o Mundo perdeu um futuro hoquista

Não tinha mais do que seis anos. Se a memória não me atraiçoa, tinha cinco. O Carlos da funerária, que sempre tratei como "O Carlos das mobílias", era um sportinguista inveterado. Sempre que me via, talvez para picar os meus entes próximos, lançava várias tentativas para me converter à equipa leonina. As tentativas de lavagem cerebral consistiam na oferta de adereços alusivos ao clube verde e branco: lembro-me de ter recebido um porta-chaves, mas acredito que o suborno não se tenha ficado por aí. Se passasse a pente fino as catacumbas cá de casa, talvez encontrasse uma caneta, um pisa-papéis com um leão lá dentro ou galhardete.
Empolgado pelos sucessos do hóquei juvenil de Grândola, certo dia pedi à minha mãe que me levasse a treinar com os putos da equipa de hóquei cá da terra, orientada pelo Carlos. Os treinos ainda eram num pavilhão do Parque de Feiras e Exposições e quando lá cheguei a criançada já patinava, de stick em riste, às voltas do rinque. Rapidamente, calcei os patins. Ardiloso, o Carlos das mobílias atirou-me com um par de joelheiras e cotoveleiras... verdes. O cachopo entendeu aquilo como uma provocação grotesca, fez birra e resolveu desistir antes sequer de ter começado.
Perdeu-se um potencial Panchito Velasquez.

Onde é que eu já vi isto?


Não é líquido que o Benfica perdesse o jogo de Barcelona caso Tito Vilanova não tivesse poupado dez dos seus habituais titulares. Para comprovar que não sofro de qualquer transtorno mental, convém ainda acrescentar que, caso Messi, Xavi, Iniesta, Fàbregas, Dani Alves e Busquets tivessem entrado em cena, as probabilidades de sucesso para a equipa de Jorge Jesus seriam residuais.
A verdade é que o Benfica esteve a um passo de se tornar na primeira equipa a sair vitoriosa de Camp Nou para a Champions desde que os catalães foram surpreendidos em 2009 pelos russos do Rubin Kazan, e de se juntar, assim, ao FC Porto nos oitavos de final da Liga milionária.
Faltou acerto. Da desinspirada dupla de ataque – ficou mais uma vez patente que Lima e Rodrigo não são compatíveis – e de Jorge Jesus, que terá depositado mais esperanças no Spartak de Moscovo do que na sua própria equipa, ao abdicar dos dois jogadores mais adiantados do terreno.
Acontece que Jesus pagou caro pela sua falta de audácia. O Celtic colocou-se novamente em vantagem e então, sem Lima nem Rodrigo e com Cardozo sozinho na frente e encaixado entre Piqué e Puyol, só um deslize pouco habitual – até mesmo para um Barcelona “pouco sério”, parafraseando Cervan – daria a vitória à equipa lisboeta.
Do mal, o menos, o Benfica segue para a Liga Europa, não deixando o FC Porto precocemente órfão nas lides europeias, como de resto tem acontecido em tantas ocasiões. E Jesus, qual profeta, já assumiu que a sua equipa é candidata a vencer a competição, assim como – acrescento eu – as três frentes a nível interno. Onde é que eu já vi esta história?

Também aqui:

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Como a cannabis está a ajudar Mykayla Comstock

Esta é a história de uma criança que há poucos meses descobriu que tinha leucemia. Para mitigar os efeitos da quimioterapia, Mykayla Comstock, de sete anos, consome diariamente um grama de óleo de cannabis por aconselhamento médico.
Uma onda de polémica tem-se gerado em torno deste caso. O primeiro oncologista encarregado de seguir a criança criticou os pais depois de descobrir que, paralelamente à quimioterapia, ela estava a ser tratada com cannabis e, segundo algumas investigações, o uso regular desta substância antes dos 18 anos pode dar origem a problemas neurológicos irreversíveis.
A verdade é que a criança não só tem resistido melhor aos efeitos da quimioterapia - gosta da forma como a cannabis a faz rir -, como a doença já se encontra em fase de remissão.

A história completa está aqui

Memórias de Faro I

Dois amigos vêm da noite. Da baixa passam pela Lisbonense, pelo Estádio de São Luís, rotunda do hospital... Ainda faltam umas centenas de metros para chegarem ao aconchego das suas casas e, depois de uma noite regada a cerveja, um deles decide que é imperativo aliviar a bexiga. Na esquina de um prédio em frente a uma escola primária, desaperta o cinto e desabotoa as calças. Enquanto corre o fecho para baixo, chega um carro da PSP com dois agentes lá dentro. O que está à pendura abre o vidro e inicia um diálogo que não dura mais do que breves segundos, mas que é interessante.

- O que é que o senhor estava a fazer? - indaga o agente.
- Nada - responde o artista.
- Nada?
Sentindo-se entalado, o rapaz resolve abrir o jogo. Escolhe cautelosamente as palavras.
- Eu ia urinar.
- Ai ia urinar? Então e porque é que não urinou?
- Porque vi os senhores agentes e achei que era melhor aguentar.
Prontamente surgiu a resposta do PSP.
- É que ia dizer-lhe para que não se esquecesse de puxar o autoclismo.

E foram à vida deles.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O fascista Álvaro Cunhal

Henrique Raposo escreveu na sua crónica do Expresso - ver aqui - que Álvaro Cunhal não era um opositor da ditadura e sim um fascista. Tendo em conta que este senhor conta com 30 e poucos anos, as suas opiniões - ainda que seja licenciado em História e mestre em Ciência Política - sobre o período vigente da outra senhora valem o que valem.
Não sou comunista, e bem sei que o Expresso não é um jornal de esquerda, mas é chocante ver absurdos destes escritos num meio de referência.
Recorde-se que Cunhal, entre outras detenções, esteve preso entre 1949 e 1960. Ora, seguindo a linha de raciocínio deste ilustre comentador, o antigo líder do PCP, um fascista ostracizado por fascistas, era, na verdade, masoquista.
É nestas alturas que o mecanismo do lápis azul devia ser reactivado.

Se achas o CR7 rápido, então ainda não viste tudo!

O jogo contra o Atlético de Madrid, no Santiago Bernabéu, marcou os regressos do Real às vitórias e de Cristiano Ronaldo às grandes exibições.
Parece que, para além do golo e da assistência, o rapaz ainda alcançou a proeza de percorrer quase cem metros em dez segundos, numa altura em que o jogo já estava perto do fim.
Duas horas e meia antes do jogo começar, vi alguém que julgava ser um dos seus sósias numa loja de calçado do Forum Montijo. E disse "alguém que julgava" porque, depois de ver o CR7 correr tão depressa, acredito piamente que tenha sido o próprio, e não um sósia, a estar no local. Afinal de contas, ainda ia a tempo de se pôr em Madrid à hora do jogo.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Alergia a shoppings?

É um caso estranho.
Não sei se é uma reacção alérgica ao reboliço de pessoas, à roupa, ao ar condicionado ou simplesmente ao consumismo que grassa por lá, mas a verdade é que, na maior parte das vezes em que vou a centros comerciais, saio de lá com os dedos das mãos inchados. Ontem, os meus dedos, particularmente os da mão direita, estavam com o dobro da sua espessura habitual. Parecia que tinham tomado esteróides.
Os shoppings constituem um terreno hostil para muitos homens. Vão para lá puxados pelas mulheres, que insistem em entrar em todas as lojas (eles que aguentem - ver foto), não obstante a possibilidade de chegarem a casa de mãos a abanar.
Os homens gostam de passar o tempo no café, a corricar com os amigos entre cerveja e amendoins, a ver um jogo de futebol ou simplesmente sentados num banco de jardim, a comentar as mulheres que passam. Para elas, um dia no shopping a experimentar roupas é uma espécie de Éden, de lifting da auto-estima.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pagar mais para viver

Não me considero um gajo de esquerda. Nem de centro. Nem de direita. Raios!
Mas tenho de reconhecer que Portugal evoluiu muito nos últimos dez anos. Muuuuuuuuuuiiiito mesmo... Particularmente no que ao aumento do preço dos bens de consumo diz respeito.
Em 2001, a vida já não estava fácil. Escusado será dizer que nunca o esteve para a grande maioria dos portugueses, mas parece que depois da introdução da moeda única, que fez disparar o custo de vida, tudo se tornou um bocadinho pior.

Ora vejamos:
Nesse ano, o preço de um jornal generalista como o Correio da Manhã era de 100 escudos (50 cêntimos); hoje custa 90 cêntimos. *
O cornetto, gelado da Olá, custava 165 escudos contra os 250 (1,25 €) de hoje. **
Com 80 escudos bebia-se um café; agora, o preço habitual da bica ronda os 60, 70 cêntimos. ***
O preço anual médio do litro de gasolina foi de 91 cêntimos (182 escudos) e o do gasóleo 0,68 € (136 escudos); agora, o litro de gasolina custa 1,65 € e gasóleo está a 1,50 €. ****
O maço de Marlboro era vendido a 2,05 euros (410 escudos); agora custa o dobro. *****
O valor cobrado nas Universidades portuguesas pelas propinas era de 67 mil escudos, segundos despacho do Ministério do Equipamento Social; hoje, a propina máxima no Ensino Superior Público é de 1037 euros. ******

Será que estes valores correspondem à taxa de inflação?
Segundo a Pordata, Base de Dados Portugal Contemporâneo, não.
* 100 escudos em 2001 equivalem hoje a 0,60 €.
** 165 escudos são hoje 0,99 €.
*** 80 escudos equivalem a 0,48 €.
**** 182 escudos a 1,10 €; e 136 escudos a 0,82 €.
***** 410 escudos equivalem hoje a 2,47 €.
****** E 403 € seria o valor ajustado a pagar pelas propinas no Ensino Superior Público face a 2001

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A minha primeira vez

Era bonito, não era?
Agora que captei a tua atenção, vou falar da primeira vez em que entrei no estádio da Luz.
Corria o ano de 1998. Maio, mais concretamente, e o Benfica recebia o Leça no último jogo de uma época sem grande história. O FC Porto tinha festejado o título (o tetra) algumas jornadas antes e o Benfica, então presidido por aquele cujo nome não deve ser pronunciado, garantia o segundo posto, à frente do Guimarães e do Sporting. Quer isto dizer que aquele jogo servia apenas para cumprir calendário.
E lá fui, naquele soalheiro final de manhã, para o Estádio da Luz, na primeira de muitas excursões que integrei pela Casa do Benfica de Grândola, inaugurada dois anos antes pelas mãos de Manuel Damásio e de um tal Donizete.
Não me recordo daquele dia como se fosse ontem, mas, ou não fosse uma primeira vez, consigo descrever quase pormenorizadamente aquelas horas, desde a ansiedade e excitação iniciais, ao êxtase dos golos. E posso prová-lo!
Daquele dia guardo as lembranças de ter andado todo o dia na companhia do meu colega de turma Luís. Naturalmente que não estávamos sozinhos. A Guida, filha do Zé Carlos, dono de um stand automóvel e então presidente da Casa do Benfica, ficou incumbida da hercúlea tarefa de garantir que chegaríamos sãos e salvos a Grândola.
Para Lisboa, julgo ter levado duas notas de dois contos. Não tenho a certeza se levei comida, mas, tendo em conta o comportamento padrão da minha progenitora, é quase certo que sim. Portanto, o objectivo era aplicar aquela massa toda numa camisola do glorioso. Comecei por procurar as verdadeiras, de marca. Semelhantes àquelas que eram envergadas por Nuno Gomes, João Vieira Pinto e Poborsky. Menino fino, eu. Mas fiquei-me pela procura: já naqueles tempos, as camisolas eram vendidas a um preço pornográfico. E a pasta que eu tinha no bolso também não chegava para adquirir uma no mercado da contrafacção, pelo que resolvi investir dois contos numa do Ronaldo. Esse mesmo, o fenómeno, na altura o melhor jogar do Mundo, a léguas de todos os outros (Zidane ainda iria explodir no Mundial de França).
A camisola, com o número 10, ficava-me pelos joelhos e não a levei para a catedral. Era um crime entrar de camisola azul dentro daquele monumento, ainda para mais tratando-se da primeira vez, pelo que aconselhou a prudência que a deixasse no autocarro.
Acabei por entrar no estádio com uma t-shirt amarela da Benetton. Sete foi o número de vezes em que celebrei os golos do Benfica. Cinco (5!) do Nuno Gomes, um do João Pinto e outro do Brian Deane, todos eles festejados ao som de "Vermelho", da Fafá de Belém.
Eram tempos diferentes. Tempos em que Nuno Gomes era um voraz goleador, em que João Pinto brilhava de encarnado, tempos em que a estátua do Eusébio era orgulhosamente exibida na entrada principal do estádio, e tempos em que os jogadores limpavam o rabo aos cotovelos, conforme afirmou recentemente uma testemunha de acusação no julgamento de Vale e Azevedo.
Eram também tempos em que os jogadores seguiam directamente das suas casas para o estádio em dias de jogo. Foi assim que encontrámos, quase por acaso, o Preud'Homme e o Sanchez. Enquanto saíam de um Citroën Xsara (Porsches e Ferraris eram só para quem recebia todos os meses), pedimos-lhes autógrafos. Todos tínhamos papel. Mas ninguém tinha a porra de uma caneta.
Esta foi a minha primeira vez no estádio da Luz. Desastrosa e especial.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"Estes gajos vão-se safando"

Por uma questão de solidariedade não tenho por hábito criticar o trabalho de jornalistas. Até prova em contrário, acredito que um mau trabalho pode ser fruto de um dia menos bom ou da falta de recursos para se fazer melhor. Acrescento ainda que, do alto da minha comiseração por um jornalista que despejou - por incompetência, inexperiência ou infelicidade - uma certa verborreia nas linhas de um jornal, na frequência de uma rádio ou num canal de televisão, chego ao ponto de o defender - eu que, por inexperiência, incompetência e infelicidade, cometi erros quase imperdoáveis - acerrimamente quando é enxovalhado por outros profissionais da classe. E, infelizmente, o grupo dos jornalistas no Facebook, é uma montra cheia de "pseudo-camaradas".
Acontece que, tendo em conta a excelência profissional que é exigida pelos paladinos do bom jornalismo que habitam nesse grupo, estranha-me que não tenha havido qualquer reparo aos desempenhos de António Carneiro Jacinto no programa Bola ao Centro, da SIC Notícias, emitido aos sábados, e que vai na segunda emissão.
Não está em causa o percurso deste senhor no jornalismo português. A minha avó, que tem 80 anos, nem pestanejou na hora de o identificar. Não conheço ao detalhe as suas proezas jornalísticas, mas sei que se trata de alguém com um vasto currículo: entre muitas outras coisas, foi jornalista da TSF, ajudou a fundar a SIC, assessorou ministros e, foi conselheiro para a imprensa, na Embaixada Portuguesa em Washington. Além disso, é licenciado em Direito, mas parece que ninguém sabe muito bem onde (VER AQUI ONDE RELVAS APRENDEU A FORJAR O CURSO).
Não tenho a ousadia de chamar incompetente a António Carneiro Jacinto, mas a sua falta de jeito para conduzir um programa televisivo é demasiado evidente. Má dicção, lê o teleponto como se fosse uma criança de seis anos a ler um texto na aula de português e não conclui os seus raciocínios. Enfim, maior programa de autor do que este não pode haver: tem mesmo o seu cunho pessoal. "Já estava enterrado, mas estes gajos vão-se safando", disse-me um amigo, que percebe infinitamente mais disto do que eu, ao comentar o seu regresso à antena.
No fim do primeiro Bola ao Centro apoderou-se de mim uma certa compaixão pelo senhor, que se despediu dos telespectadores pedindo desculpas pelas suas imprecisões, considerando-as normais em quem não fazia televisão há tanto tempo. Achei bonito e dei-lhe o benefício da dúvida, mas uma semana depois verifiquei que a máquina continua enferrujada. E de que maneira! A prestação manteve-se, para ser simpático, abaixo das expectativas e atingiu o seu clímax quando o vimos a fazer uma reportagem no campo de futebol de Silves, parcialmente destruído pelo tornado de há duas semanas.
Ora, se o programa fosse para a RTP já estava a levar uma ensaboadela. Com que então, vai de Lisboa a Silves só para entrevistar duas pessoas quando tem uma delegação no Algarve que o podia fazer? Isto é gozar com o dinheiro dos contribuintes! Mas não: suspeito que o senhor se tenha deslocado a Silves para rever alguns familiares, o que já é uma justificação plausível. Afinal de contas, Silves é a sua terra natal, tendo inclusive tentado concorrer à liderança do município em 2009.
Hoje deu-me para isto.

sábado, 24 de novembro de 2012

O que farias se o Mundo acabasse daqui a um mês?

Segundo o calendário da civilização maia, o Mundo acaba a 21 de Dezembro. Portanto, dentro de menos de um mês.

Uma conversa num café sobre essa possibilidade:

- O que farias se o Mundo tivesse os dias contados?

- Juntava as pessoas que me são mais próximas e tentava passar o máximo de tempo com elas. Também gostava de ter um filho. Queria ver se era parecido comigo.

- Isso não era egoísta? Meteres um puto no Mundo só para isso, mesmo sabendo que ele nem ia ter tempo de saber quem era?

- [Risos] E tu? O que é que fazias?

- Ao contrário de ti, não passava os meus últimos tempos perto da família.

- Então?

- Ia para o pior sítio do Mundo. Um sítio tão mau, tão mau, onde quem lá habita anseia pelo fim dos seus dias. Aí, o fim do Mundo deve ser uma bênção de Deus.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Escapar do revisor no intercidades

Tem sido notório o desinvestimento do Governo nas regiões rurais. Fecham-se escolas, centros de saúde, serviços de urgência, bem como muitos outros serviços de atendimento ao público. Suprimem-se milhares de postos de trabalho com o argumento de que é imperativo cortar-se nas gorduras.
Nesta linha, também em tempos cada estação ferroviária dispunha de funcionários que procediam à venda de bilhetes. Ninguém entrava num intercidades ou regional sem antes adquirir bilhete. Tentar passar despercebido ao revisor era demasiado arriscado.
Há uns anos a CP - operadora do Estado - suprimiu os vendedores de bilhetes em algumas estações que não as de origem e de chegada. Quer isto dizer que em cada viagem podem entrar numa composição dezenas de pessoas não portadoras de lugar.
Quem anda neste meio de transporte, com maior ou menor regularidade, sabe disso e são muitos os que tentam capitalizar o facto de lá entrarem (note-se, legalmente) sem pagar. E eu não sou excepção. Confesso que também eu tenho contribuído para o défice monstruoso das contas da CP. E com muito agrado!
No meio primeiro ano de Universidade, em Lisboa, apurei a minha arte nesta matéria. Aproveitava-me da falibilidade da memória visual de alguns revisores. Num ano, devo ter poupado perto de uma centena de euros, o que, tendo em conta que as viagens com cartão jovem entre Grândola e a capital custavam 8,5 euros, perfaz mais de dez viagens à pala.
Nos últimos anos tenho andado menos de comboio. No entanto, com o preço pornográfico da gasolina, voltei a recorrer a este meio de transporte para deslocações maiores. Porque é mais barato e porque podemos beneficiar de descontos entre os 20 (cartão jovem ou de estudante) e os 100 por cento, no caso passarmos despercebidos.
Nas duas últimas viagens que fiz até Faro e Lisboa, ambas desde Grândola, consegui safar-me. Não quero com isto dizer que sou portador de um truque infalível para escapar à dolorosa cobrança do revisor, no entanto acredito que é possível não se depender da mera sorte.

Deixo algumas sugestões, inclusive as mais paranóicas:
- Casa de banho? Não! Fechares-te na casa de banho não me parece boa ideia. É uma táctica antiga, gasta e que, julgo, já não trás grandes resultados;
- Tenta escolher uma carruagem que não esteja perto do bar. Por norma, é onde o revisor se encontra quando o comboio pára numa estação. Se não te cruzares com ele à entrada, as probabilidades de poupares uns bons euros sobem consideravelmente;
- Opta por um lugar que fique de costas para o bar, de onde o revisor possivelmente virá, de modo a que ele não estabeleça contacto visual contigo durante muito tempo. É certo que ele retomará o caminho contrário, mas aí já não serás uma cara totalmente estranha para ele;
- Não olhes fixamente para o revisor, embora não devas esforçar-te por evitá-lo ao máximo. Pode denotar nervosismo;
- Abre um livro ou uma revista e teatraliza algum desconforto fruto da "longa viagem". O calor é comum quando estamos dentro de espaços fechados durante muito tempo, pelo que não será de todo descabido ficares em t-shirt;
- Leva roupa ocasional e com cores comuns, nunca berrantes;
- Se fores rapariga, convém que não sejas muito vistosa. Por norma os revisores são homens, logo, por natureza apreciadores do sexo oposto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Space Cake

Não deviam ser mais do que quatro da tarde. Depois de eu e mais dois amigos andarmos às voltas pelas ruas de Amesterdão e de termos visitado a casa da Anne Frank, resolvemos fazer uma paragem numa das 200 coffeeshops espalhadas pela cidade. Numa das vitrinas encontravam-se os famosos Spaces Cakes. Uns assemelhavam-se a bolos de mármore e outros a brownies de chocolate. Optámos pelos segundos, a oito euros cada.
Quem me conhece sabe que não sou dado a substâncias alucinogénas, mas, estando eu em Amesterdão, não podia perder a oportunidade de experimentar uma ou outra coisa. Alguns segundos após concluir o lanche - o tal Space Cake e uma lata de Dr Pepper - manifestei o meu desagrado. Não estava à espera de que o que tinha acabado de ingerir fosse altamente alucinogéno, mas aquilo soube-me a bolo da avó.
Depois disso, demos mais uma volta pela cidade, seguindo à posteriori para o hotel, onde iríamos descansar cerca de duas horas para sairmos, frescos, à noite. Pouco depois de cair na cama, o D já ressonava. Eu tentava dormir e o R estava sentado na cama, encostado à parede. Alguns minutos depois, nervoso, disse-me que tinha de sair do hotel e andar um pouco: tinha o coração acelerado. Voltei a vestir-me e acompanhei-o numa volta ao quarteirão e regressei ao quarto sozinho - o R. continuava a não se sentir bem e continuou na rua. Quando ao D, encontrava-se impávido e sereno, imerso no seu sono pesado.
Alguns minutos depois, o R entrou no quarto. Estava cada vez pior e queria ir ao hospital. Tirei o D da cama e galgámos, estrada acima, os três, em passo acelerado. Durante mais de um quilómetro, o D seguiu alguns metros atrás: julguei tratar-se de uma reacção ao facto de ter acordado há pouco tempo (já veremos como estava enganado), mas, uns minutos depois, perdemo-lo.
Esperámos durante alguns instantes, mas não havia sinais dele. Senti-me entre dois pratos da balança: seguia com o R ao hospital, num arrabalde qualquer de Amesterdão, ou voltava para trás à procura do D? Não tive dúvidas de qual seria o caminho a seguir quando o R me disse não sentir a parte esquerda do corpo.
Metemos a quinta e chegámos ao hospital alguns minutos depois. Na recepção, o R fez a sua ficha, falou dos seus sintomas e da substância que tinha ingerido: o Space Cake.
Pretendia apenas acompanhá-lo, mas constatei que também eu tinha os batimentos cardíacos acelerados. Por via das dúvidas, pedi também para ser visto por um médico.
Na sala de triagem mediram-nos a pulsação. Não sei a quanto estava a minha, mas o R disse-me que os seus batimentos cardíacos estavam a 120 ou 130 por minuto.
Depois da triagem, fomos encaminhados para um corredor onde teríamos de aguardar até sermos vistos por um médico. Ensonados, ligámos um sem número de vezes para o D, que continuava incontactável. Ter-se-ia deixado dormir numa das ruas de Amesterdão enquanto seguia atrás de nós para o hospital?
Não sei quanto tempo estivemos à espera de ser vistos por um médico. Sei que, depois do R ser encaminhado para uma sala, ainda fiquei sozinho durante uma meia-hora, até que o meu nome foi chamado por uma enfermeira que me entregou aos cuidados de uma médica, com quem conversei durante uns cinco minutos. Numa sala onde estavam outros pacientes, explicou-me que todas as reacções do meu organismo eram normais - batimentos cardíacos acelerados, sonolência, etc. - e avisou-me de que os efeitos do Space Cake poderiam durar até 12 horas, pelo que recomendou descanso. Deixei a sala e encaminhei-me para a saída do hospital, onde, cogitei, o R. já estaria à minha espera.
Mas não estava. Dirigi-me a um funcionário e perguntei-lhe onde o poderia encontrar. Atencioso, encaminhou-me para uma outra sala onde o encontrei, sozinho, sentado numa cadeira. Aparentemente, o seu caso clínico era um tanto ou quanto mais delicado do que o meu. Estava à espera do resultado de um electrocardiograma a que se tinha submetido. Aguardámos enquanto escutávamos um espanhol a ter uma acesa discussão com um médico que o aconselhava a procurar um psiquiatra.
Quando o médico chegou, procedeu a uma breve dissertação sobre a história recente dos Space Cakes. Ora, parece que há quatro ou cinco anos o consumo deste bolo alucinogéno registou uma queda abrupta. Mas desde a há dois anos para cá que se tem vindo a registar uma recuperação. Porquê? Pela simples razão de que os Space Cakes de hoje contêm mais droga do que há uns anos.
Depois de alguns minutos à conversa com o médico, abandonámos o hospital. À saída, já restabelecido, contei ao R tudo o que tinha sentido durante aquela "bad trip", para além dos batimentos cardíacos acelerados e do sono. Conseguia escutar conversas a 20 metros de distância como se tivessem lugar dentro do meu cérebro e, melhor do que isso, traduzia todos os diálogos - em holandês, em ucraniano ou em chinês - para português. Escusado será dizer que a tradução era pobrezinha, nada literal e recheada de delírios. No meio de tudo isto, o engraçado é que o mesmo se tinha verificado com o R.
Agora, só faltava encontrarmos o D. Em vão, continuámos a telefonar-lhe e regressámos ao hotel. Não estava no quarto e optámos por ir a um bar, onde esperaríamos até ele dar sinais de vida, o que deve ter acontecido por volta das 11 da noite. O problema é que ele não sabia onde estava. Tinha andado às voltas pela cidade, a pé e de eléctrico. Disse que me voltaria a ligar quando soubesse onde estava ou quando encontrasse o hotel. Demorou umas horas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hefner aplaude

Toda a gente se lembra da primeira edição da regressada Playboy portuguesa. E não propriamente pelas melhores razões. Em Maio passado, alguns meses depois de ter sido fotografada em topless para a capa da TV Guia, Rita Pereira aparecia mais vestida do que muitas mulheres que saem à rua na Sibéria durante o Inverno e, naturalmente, choveram críticas.
Fazendo de advogada do diabo, a direcção da publicação apressou-se a dizer que estava interessada em mudar o conceito da revista, criando um estilo que a diferenciasse das suas semelhantes. Esqueceram-se de um pormenor: tratando-se de um franchise, deviam respeitar o conceito norte-americano.
Se alguém achava que a explicação para a falta de ousadia da Ritinha residia num desacordo de verbas entre ambas as partes, a edição do mês seguinte da revista (com Dânia Neto) tratou de mostrar que o novo estilo editorial tinha vindo para ficar: a nova Playboy concorria agora com catálogos da Intimissimi e da Calzedonia.
À data, das 40 mil revistas que foram imprimidas, menos de metade chegou às mãos dos leitores. E não se pense que assistimos imediatamente a uma reconfiguração drástica da estratégia. Primeiro, cortou-se nas tiragens. O resultado: maior percentagem de publicações escoadas, mas menos vendas em banca.
Seguiram-se bons nomes na capa da Playboy. De mulheres que todos os homens (bem, a maioria deles) gostariam de ver despidas de preconceitos. E de roupa. Primeiro, a apresentadora Liliana Campos; depois, a actriz Joana Duarte. Mas o desperdício de recursos manteve-se até Outubro.
Não sei se os responsáveis da edição portuguesa entenderam finalmente qual deve ser o conceito da revista que têm em mãos, ou se Hugh Hefner ou algum dos seus assessores lhes apertou os tomates. A verdade é que no mês passado a populaça tuga foi, finalmente, brindada com uma verdadeira Playboy. A cota Marta Pereira foi a primeira capa digna de ser apresentada a amigos estrangeiros, ou não ficassem eles a pensar, pelo registo das anteriores, que somos mais pudicos que o papa Bento XVI. E a tendência manteve-se com a Raquel Henriques.
Confesso que tive um certo receio quando soube que era ela a capa deste mês. Afinal de contas, há uns meses andava a concorrer a um concurso de culturismo feminino com um corpo semelhante ao do Arnold Swarzenegger nas décadas de 70 e 80. Não sei se largou as bombas e as gemadas, mas está de parabéns. Voltou a ter um corpo feminino - e que corpo! - e é capaz de ter garantido a sustentabilidade da nossa Playboy. Que mais há a dizer?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Crónica de um regresso a Faro

Durante os três anos que passei na Universidade do Algarve conheci muita gente. Gente espectacular, gente boa, gente assim-assim e gente que Deus coloca no nosso apenas como forma de pagamento pela dádiva que Ele nos concedeu: viver.
Sexta-feira meti-me no comboio para Faro. Os planos? Passar uma noite com duas das pessoas que mais me marcaram até hoje. A I., uma rapariga cheia de garra. Estudiosa e determinada, já foi convidada para dar aulas na universidade, acaba de completar um mestrado, já ganhou prémios literários, editou livros e ajudou uma ou outra pessoa a acabarem os seus cursos. Tudo isto com 23 anos.
Nunca conheci ninguém que considerasse muito parecido comigo. Aliás, se conhecesse, acredito que não seria um dos seus grandes amigos. Gosto de pessoas diferentes: que me completam, de quem bebo as virtudes, e os defeitos. Todos esses ingredientes vão construindo um bolo. Um bolo que ainda está a ser concebido e cuja única certeza é a de que nunca agradará a todos: e esse bolo sou eu.
O A. é outro bolo. É daquelas pessoas de quem é impossível não se gostar. Toda a gente tem defeitos. Ora, ele também os tem, mas menos. Está no top das pessoas que conheci até hoje, talvez por o considerar tão diferente de mim. Não partilhamos os gostos pelo desporto, pela nicotina ou poesia e não lemos o mesmo tipo de livros. Mas sempre nos entendemos. Fomos ouvintes um do outro e vivemos grandes momentos naqueles três anos em Faro. Uma vez, uma colega nossa tentou, num jantar de curso, resumir a nossa relação de cumplicidade: parecíamos namorados, disse ela. Nada disso: ambos estávamos (e estamos) bem comprometidos e somos muito machos. 
Foi com satisfação que o vi quando desci do inter-cidades na estação de Faro e por confirmar que, apesar do pouco contacto que temos tido nos últimos tempos, a confiança que sempre tivemos um no outro mantém-se.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

F*** you, maquinistas!

Hoje, os maquinistas da CP avançaram para a 125.ª greve do ano. Devo dizer que nada tenho contra as greves. Sou, naturalmente, a favor delas quando estão em causa direitos fundamentais dos trabalhadores.
Mas estas paralisações já irritam. Primeiro, porque são sempre os mesmos (CP, METRO, CARRIS, etc), depois porque está mais do que visto que, seja lá o que andam a reivindicar estes senhores, a entidade patronal não cede e, enquanto isso, centenas de milhares de portugueses vêem as suas vidas serem afectadas (hoje fui eu e foi muito chato).
Acontece que o vencimento médio de um maquinista da CP rondará os 2200 euros mensais - o Sindicato do Maquinistas (SMAQ) nega. Acreditando ser verdade, em média um profissional dos carris da CP aufere mais 400 euros do que o vencimento médio praticado em Portugal, de acordo com dados do INE referentes ao Verão de 2011. Valores que atingem outra dimensão (arrisco-me a dizer, quase pornográfica) se tivermos em conta que dez por cento dos trabalhadores portugueses não ganham mais do que o salário mínimo e que a taxa de desemprego no país já supera os 15 por cento. Vão apanhar sabonetes, maquinistas!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Coisas que me irritam no Facebook

Pensando bem, é melhor não dizer, não vá eu perder uma série de amigos.

Mandem-me à merda

Há muito que faz parte da minha rotina diária consultar o meu endereço de e-mail. Faço-o vezes sem conta por dia desde que fiquei desempregado, na esperança de ver uma resposta aos CVs que vou enviando. Já tentei que me contratassem, que me aceitassem para um estágio profissional ou até para um estágio não-remunerado. Obtenho poucas respostas, a maioria pré-formatadas, mas agradeço a quem o faz, quanto mais não seja por ter perdido alguns segundos a enviar a resposta. A quem não passa cartão aos mails desde pobre desempregado, gostaria de pedir encarecidamente que perdessem também alguns segundos do seu precioso tempo, nem que fosse para me mandarem à merda (sempre era a prova de que a minha mensagem tinha chegado ao destinatário).
Hoje, depois de mais um périplo de envio de CVs, desliguei o pc. Umas horas depois, voltei a ligá-lo e cumpri o ritual. Abri o mail - um que criei recentemente para efeitos de procura de emprego e onde não estou a ser constantemente importunado por newsletters, anúncios chatos ou notificações do Facebook - e, antes de aceder à caixa de entrada, reparei no alerta de mensagens novas. Optimista, pensei: "Talvez tenha sorte desta vez." O tanas. Era um anúncio de uma promoção da Head & Shoulders. É f...rustrante...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Rangidos e gemidos

Estamos num dos 3,5 milhões de prédios em Portugal. São quatro da manhã e o rangir da cama e os gemidos protagonizados pelos vizinhos do andar de cima estão a tornar-se insuportáveis. Afinal, amanhã é dia de trabalho que, por sinal, começa bem cedo com uma reunião importante. A história é fictícia, mas o tema é comum a toda a população mundial. Se, por uma noite, a incúria é desculpável, quando o episódio se torna recorrente é impossível disfarçar o mal-estar de quem anda sem dormir por razões alheias.
Portanto, há que resolver o problema, mas como não queremos entrar em conflito com os vizinhos prevaricadores, está fora de questão chamar a polícia.
No Reddit, um dos fóruns mais conhecidos da internet, há vários tópicos dedicados ao assunto e onde os utilizadores sugerem como solucionar o problema. E algumas dicas são bem originais:

"Rapares, consigo ouvir-vos a fazer sexo. Querem ajudar-me a investir numas paredes à prova de som?"

"Bate com a tua cama contra a parede. Combate o fogo com fogo."

"Da próxima vez que os gemidos acabarem, grita em voz alta: '3 minutos e 19 segundos! Novo recorde!'"

"Pede-lhes para baixarem o volume do filme porno antes que o resto dos vizinhos oiça."

"Pergunta ao teu vizinho se está a decorar a casa. Se ele perguntar porquê, diz-lhe que tens ouvido barulhos de móveis."




sábado, 27 de outubro de 2012

O que é que te irrita ao volante?

Já vai para quatro anos e meio que tirei a carta de condução. Ao contrário de muitos, que já conhecem os processos de condução de trás para a frente logo na primeira aula (geralmente esses são os piores), a minha experiência resumia-se aos jogos de Fórmula 1 no computador e de Sega Rally nas máquinas de arcada. Portanto, nada de relevante.
Após a terceira aula de condução achei que já era um ás ao volante. Um prodígio daqueles que assim que aprende a fazer uma coisa é capaz de a desempenhar com a astúcia de um profissional. Para o mostrar, pedi à minha mãe para me deixar pôr o Saxo no quintal de casa. A experiência não foi bonita. É certo que não acertei no portão, mas esqueci-me de uma das regras primordiais neste tipo de manobras: olhar pelo espelho retrovisor. O resultado? Um carro a um metro da traseira do Citroën e um cheiro intenso a borracha queimada.
Depois disso, deixei de me armar em Schumacher e foquei-me na carta. Fiz tudo à primeira e, não sendo um condutor exímio, acho que o instrutor nunca teve razões de queixa.
Ora, desde o dia 13 de Maio de 2008 e hoje, calculo que já tenha feito qualquer coisa como 100 mil quilómetros, o equivalente a duas voltas e meia ao Mundo pela linha do equador. E, ao volante, o sangue ferve-me como em poucas ocasiões. Resigno-me com o trânsito (faz parte), mas não posso com alguns comportamentos, por mais insignificantes que possam parecer, de quem circula na estrada. Eis uma lista de mandamentos que gostaria de sugerir aos milhares de parolos que andam pelas vias nacionais:

- Não ligarás os máximos uma fracção de segundo antes do cruzamento com o outro veículo estar terminado;
- Não te aproximarás demasiado do carro da frente... ou qualquer dia sai-te a sorte grande;
- Não circularás com as luzes de nevoeiro ligadas mesmo quando a noite é propícia à contemplação de constelações. Ninguém quer saber se tens ou não luzes de nevoeiro;
- Não aumentarás a velocidade numa zona de sinais luminosos cujo vermelho seja accionada através do excesso de velocidade. Quem vem atrás de ti pode tratar-se de um psicopata e não quererás vê-lo zangado;
- Não torturarás outros automobilistas com a tua música no engarrafamento para a ponte. É de evitar todo e qualquer tipo de música a decibéis elevados, mas deverás ser mais cuidadoso se fores apreciador de trance, dubsted ou lixo auditivo similar.

Nota do autor: não há perdão para qualquer um destes comportamentos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Saudades de ser cachopo

Tenho 24 anos. Quando era um cachopinho, sonhava ser grande. Não, não fazia planos sobre o que seria ou faria no futuro. Só queria ser grande. Depois? Depois, logo se via.
Hoje sou grande e tenho umas saudades tremendas desses tempos. Dos tempos em que jogava ao pião, das tardes passadas na ludoteca, das aventuras na barreira enlameada da escola, de me atirar do topo de um baloiço e cair desamparado no chão e, até, das sessões de arremeço de pedras que eu e os meus colegas de turma protagonizávamos contra uma das outras turmas do mesmo ano, apenas com uma parede de buracos triangulares a separar-nos. Quando atingíamos alguém, era o delírio, mais um passo rumo à conquista da batalha. (Há quem diga que as crianças conseguem transformar-se em seres cruéis e eu corroboro a tese. Por experiência própria.)
Apesar da vontade que tinha em voltar, por um dia que fosse, a esses tempos, há também acontecimentos que dispensava. Chegar a casa da minha avó com cinco dedos de uma professora vincados na cara (segundo ano) ou esmagar um dedo mindinho na porta da sala (terceiro ano) são, definitivamente, experiências que não faria questão de repetir. Tirando isso, quem não gostaria de - repito - por um só dia que fosse, regressar àqueles tempos em que não tinha outras preocupações que não ir para a escola, comer e brincar? De trocar arrelias sobre o emprego, o desemprego e o estado de sítio do país por uma vida, quase canina, de despreocupações?

domingo, 21 de outubro de 2012

O filme vinha riscado

Sem nada para fazer, ontem apoderou-se de mim um espírito um tanto ou quanto cinéfilo. Logo de mim, que não sou de andar com um P3, do Público, ou com a Actual, do Expresso, debaixo do braço. À noite, já depois de recolhido no quarto, resolvi ir à sala ver o que estava a dar na televisão. Pus-me a fazer zapping e parei no Hollywood. O filme chamava-se O Atirador e, como o próprio nome indica, envolve armas. Armas, sangue, corrupção, vingança e justiça pela próprias mãos.
Não se tratando de uma obra-prima, a película prendeu-me ao sofá. Não que tivesse ficado fascinado com o argumento do filme em si (é um igual a tantos outros), antes com os da Kate Mara ou da Rhona Mitra, sempre sublimes ainda que a interpretarem papéis menores - que desperdício. Como é apanágio de qualquer filme de acção que se preze, este acaba com o herói a dar cabo do vilões, limpando-lhes o sebo um a um.
Não satisfeito com aquela ligeira carga hollywoodesca, peguei no portátil e fui a um daqueles sites para s... vender filmes (isso!) e optei por um que me pareceu interessante: Touchback, que conta a história de um agricultor cujo sonho de se tornar profissional de futebol americano lhe foi cortado por uma lesão sofrida num jogo. Basicamente, depois de umas horas o filme estaria disponível. 1,7 gigas, dizia nas propriedades: "Mais um Titanic", pensei.
Ora, durante a tarde, lá contei à namorada que tinha em minha posse um filme do caraças, bom para ver em companhia. "Mas não é triste, pois não? É que eu não gosto desses." Tretas. Gosta pois, e a prova foi a sua reacção de frustração quando o filme empancou a meio por uma qualquer razão que ainda desconheço, embora já esteja a tratar de resolver o assunto. É o que dá comprar filmes na net. Só por causa desta, o próximo que vir é sacado. Legítimo, não?

sábado, 13 de outubro de 2012

A queda da lenda

Tinha uns 11 anos quando comecei a vê-lo. Ele, que dois ou três anos antes tinha vencido um cancro com metástases por quase todo o corpo, galgava montanhas e arrebatava contra-relógios. Não havia Zulle, Ullrich, Beloki, ou Pantani que lhe fizesse frente. Depois da primeira, em 1999, seguiram-se seis: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005. Ficou-se pelas sete (7!) Voltas a França consecutivas e, aos 33 anos, resolveu sair pela porta grande, para dedicar-se à sua fundação criada com o intuito de apoiar pessoas com cancro.
Lance Armstrong foi um exemplo para milhões de pessoas. Uma fonte de inspiração. Para jovens como eu, para quem lutava contra a mesma doença que ele havia vencido e para com quem ele pedalava pelas estradas gaulesas. Ele, um milagre, impressionou o mundo com a sua história de vida. Lançou livros, ganhou milhões e granjeou da admiração de todos. Até Eddy Merckx, considerado o melhor de todos os tempos, chegou a dizer-se impressionado com os feitos do norte-americano. Foi ele, aliás, um dos grandes defensores de Armstrong, quando a USADA (agência norte-americana de antidopagem) lhe retirou, no Verão, os sete triunfos no Tour, baseando-se para isso em testemunhos de antigos companheiros. ´Merckx chegou mesmo a mostrar-se revoltado com a "perseguição" movida a Armstrong: "Foi controlado mais de 500 vezes desde 2000 e nunca acusou positivo. Todo o processo é baseado em depoimentos de testemunhas. É totalmente injusto", disse antes da USADA divulgar o teor de um dossiê com mais de mil páginas onde é denunciado o esquema que Armstrong terá montado para dominar Alpes e Pirinéus durante sete anos a fio. Ele, com a ajuda de médicos, farmacêuticos, directores e colegas, desenvolveu aquele que se acredita ser o mais sofisticado e bem sucedido programa de doping da história do desporto profissional, e que lhe permitiu nunca acusar positivo nas centenas de controlos a que foi sujeito.
Para já, Armstrong remete-se ao silêncio. Desconhece-se se estará a preparar a sua defesa ou se, por outro lado, já terá desistido de contrariar a acusação.
Aconteça o que acontecer, Armstrong não deixará de ser um exemplo. Mas, de agora em diante, deixará de ser o homem que sobreviveu a um cancro com metástases no cérebro para, depois disso, vencer o Tour entre 1999 e 2005. Passará, sim, a ser um ser humano que venceu o cancro e que, depois disso, perdeu a dignidade.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Havia necessidade?

Era um tema há muito falado. Agora é oficial: a Sonaecom anunciou hoje que pretende despedir 48 funcionários do jornal Público. Destes, incluem-se 36 jornalistas.
Por fazer, há vários meses, parte deste barco, manifesto a mais profunda solidariedade para com quem está a passar por esta situação delicada.
O desmembramento do jornal - que representa cerca de 25 por cento da equipa de redacção - foi comunicado um dia após o Grupo Prisa ter anunciado aquilo que apelidou de "plano de recuperação do El País", que detém, prevendo a dispensa de 128 trabalhadores (mais 21 que irão para a reforma antecipada) e uma redução salarial de 15 por cento para quem permaneça no jornal.
Recorde-se que o El País é o jornal espanhol pago, e não pago, com maior tiragem (cerca de 462 mil em 2011).
Quanto ao Público, estes despedimentos provam a insensibilidade social que vigora na empresa da família Azevedo. Sim, porque não se trata de falta de lucro. É que, só na primeira metade do ano, a Sonaecom viu os seus lucros crescerem em 20 por cento (38,1 milhões de euros). Havia necessidade?

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Comentários às notícias do dia

Zenit não sabe a quem pagar pelos direitos de formação de Hulk
Paguem a mim! É só indicarem a quem devo fazer chegar o meu NIB

"Povo português revelou-se o melhor do Mundo", Vítor Gaspar
Devemos acreditar nestas declarações ainda que tenham sido proferidas pelo pior ministro das Finanças do Mundo?

Carlos (o ex da princesa Diana e sogro da Kate Middleton) recebeu, em 2011/12, cerca de 688 800 euros referentes a pessoas que morreram no seu ducado da Cornualha sem redigir testamento.
Venho por este meio declarar-me herdeiro de todos aqueles que morrerem sem deixarem testamento. A medida terá efeitos imediatos. Garanto que as casas, os carros e o dinheiro ficarão em boas mãos e que farei com tudo isso...o que bem entender. Era bom, não era?

Com este Governo é evidente que não há luz ao fundo do túnel", Jerónimo de Sousa
Ao preço a que está a electricidade, não há outro remédio que não andar às escuras.

Michael Schumacher retira-se da Fórmula 1 no final da época.
Se na Fórmula 1 também se aplicar a regra do "quem bate por trás é quem paga", deve estar perto da bancarrota só pelo que fez nas últimas três épocas. Boa reforma. Outra vez.

BCE diz que Portugal tem feito progressos significativos
Em que sentido?


O vieirismo está aí. Para durar

Uma semana depois de justificar as vendas de Javi García e Witsel com as exigências de um novo panorama financeiro global, eis que Luís Filipe Vieira viu, talvez pela primeira vez em mais de dez anos, ameaçadas as sólidas estruturas da sua liderança à frente do Benfica. Até quinta-feira à noite, as manifestações de desagrado para com a sua presidência pouco tinham passado de graffitis nos muros do Estádio da Luz com citações do próprio. Agora os sócios não perdoaram novo ano com as contas da SAD no vermelho e fizeram questão de o demonstrar a menos de um mês das eleições no clube. 
Um cartão amarelo para o líder dos encarnados que, ainda assim, sairá vencedor de novo sufrágio por margem esmagadora. Afinal de contas, falta-lhe uma oposição forte, capaz de chegar às massas e de convencer a grande maioria dos associados de que LFV já nada acrescenta ao clube da Luz. 
Acontece que entre o benfiquismo ainda paira – e de que maneira – a sombra de uma gestão ruinosa que quase conduziu o clube ao fim na viragem do milénio e, apesar do Relatório e Contas do exercício 2011/12 coincidir com os avisos de Bruno Carvalho (candidato derrotado em 2009 e que agora não poderá candidatar-se devido à alteração dos estatutos), poucos estarão dispostos a trocar a actual liderança por uma outra cujos verdadeiros propósitos serão sempre uma incógnita. Mesmo que os números – dois campeonatos em dez anos e subida galopante do passivo – indiquem que o rumo a seguir é outro, Vieira reúne crédito para mais três anos que, atrevo-me a dizer, serão os mais duros do seu já longo pontificado.


Também aqui

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O tempo voa

Já vai para nove meses que a Focus foi fechada. Foram 22 meses de muito prazer, algumas chatices e de muitos erros. Mas, acima de tudo, foram quase dois anos de muita aprendizagem. 
Obrigado a todos. Porque aprendi com todos.










sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Será verdade?

Acabo de ler na edição de hoje do Correio da Manhã que o filho do patrão do Grupo Impala foi suspenso durante dez dias por não ter comprado pilhas para um comando de uma qualquer televisão. A ser verdade, é uma notícia triste para uma empresa que de há um ano para cá se debate com problemas para pagar, a tempo e horas, aos seus funcionários e cujo número de trabalhadores e publicações tem minguado a olhos vistos. Será a porra das pilhas do comando de uma televisão problema que exija maior celeridade do que todos os outros?
E, informa ainda o CM, em breve serão despedidas mais 40 pessoas. Tão fácil como desligar uma televisão. Com ou sem comando.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Desgovernados

Nota prévia: pouco percebo de economia e, como tal, atiro a toalha ao chão e limito-me a escutar quando os temas galgam para uma matéria que chega até mim numa língua próxima do mandarim. [...]

[...] Ainda assim, considero-me capacitado o suficiente para entender o bê-à-bá desta matéria aplicada ao (des)governo de nações. Não pelo que aprendi na universidade - tive uma cadeira relacionada com economia e já nem me recordo de qual era a sua designação - mas por ter dois palmos de testa.
Ora, ainda há dias, o nosso ilustre primeiro-ministro concedeu a RTP uma entrevista onde falou da Troika e do que nos aconteceria se o Governo não fosse um bom aluno, do aumento da TSU para os trabalhadores providos de fortunas brutas mensais acima dos 700 euros, entre outros assuntos.
Basicamente, andou por ali uma hora e tal a tentar escapar entre os pingos da chuva a perguntas inconvenientes: "Eu já lhe respondo a isso, mas deixe-me, em primeiro lugar, realçar a importância de uma outra medida na qual estamos já a trabalhar", dizia quando era confrontado com a subida do desemprego, a diminuição das receitas fiscais, ou o aumento da despesa pública - enfim tudo aquilo que o nosso Governo se propunha a travar.
Como disse, não percebo muito de economia - de finanças vou tentando, se me deixarem, cuidar das minhas - mas já vi que a competência profissional é um dos últimos requisitos na lista de nomeações para cargos de secretários de Estado ou de ministros.


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Big Brother

Bastaram umas minis e uns copos de tinto para o rapaz começar a desbobinar. Para outro canto da mesa, falou-lhe de um trauma que o apoquentava há quatro ou cinco anos. Uma resposta para o torto que dizia que ele lhe tinha dado um dia. Devia querer um pedido de desculpas, mas o outro disse-lhe que não fazia sentido lamentar-se por um acontecimento que tinha desaparecido da sua memória. Um acontecimento irrelevante, portanto.
Enquanto emborcava o tinto, ele - estudante de mentes humanas - lá foi debitando aquilo que aprendera nas aulas. Não o conhecia, ainda não o conhece e nem vai ter o prazer de o conhecer - isso é garantido -, mas arriscou em apontar-lhe aquilo que considerava serem os seus defeitos. Disse-lhe que era demasiado exigente consigo, e com o outros, e que era demasiado frontal. Enfim, tudo defeitos comuns às pessoas mais reles que habitam no nosso planeta.
Como resposta, recebia sorrisos. Por se esforçar por manter um discurso polido ao mesmo tempo em que dava tiros nos pés.
Talvez por cortesia, o mau da fita disse-lhe que gostava daquele tipo de conversas. De pessoas sinceras. Directas, coisa que não abundava muito por aquelas bandas e cuja imagem ele, definitivamente, não personificava. Disso teve o mau da fita provas poucos dias depois. Porque não é preciso estar alguém a ouvir atrás das paredes para que estas tenham ouvidos, tampouco gravadores escondidos em tectos falsos (se o mundo é um Big Brother, aquele quadrado não será excepção). Basta que as pessoas sejam descuidadas, ingénuas. Ou tontas. E há lá dessas espécies endémicas aos pontapés.

Vou regá-las com todo o cuidado do Mundo. É que, sem elas, a minha vida não era a mesma coisa.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Temos jeito para a bola!

Por sugestão de um amigo, acabo de ler um artigo (http://www.sbnation.com/soccer/2012/6/28/3122471/portugal-vs-spain-euro-2012-cristiano-ronaldo-history) sobre os êxitos da selecção portuguesa desde o ano 2000. Afirma o jornalista que é notável um país com 10 milhões de habitantes ser tão incómodo para nações com 50, 60 ou 80 milhões de almas. Diz ainda que é habitual falar-se do caso holandês, mas que eles são mais cinco milhões do que nós o que lhes dá, por isso, uma vantagem considerável de recrutamento.
Acontece que, avaliando as coisas por esse prisma, os Estados Unidos, com uma população de 300 milhões deviam ser, ainda que a alguma distância da Índia ou China, uma das maiores potências futebolísticas do planeta. A diferença está na importância que o desporto-rei tem em cada país e, por arrasto, na metodologia de trabalho adoptada em busca do sucesso, e é isto que me conduz a outro artigo que li também hoje, mas na edição portuguesa do Courrier Internacional.
De acordo com os últimos números da FIFA, em 2006 Portugal tinha 133 mil jogadores federados. Selecções como as da Finlândia (149 mil), Irlanda (253 mil), Eslováquia (429 mil), Bélgica (443 mil), Áustria (596 mil) ou a Polónia, com 657 mil federados, deviam, pela lógica deste americano, ganhar, com maior ou menor dificuldade, a Portugal. Acontece que umas não jogam nada, enquanto que outras são meros figurantes nas raras vezes em que atingem fases finais. Enfim, cepos por lá é como coelhos a multiplicarem-se.
A Alemanha, líder nesta matéria e única selecção que foi capaz de nos derrotar neste Europeu, tem 6,3 milhões de jogadores federados, ou seja, o número de federados em Portugal mas a multiplicar por 47 (!), enquanto que a Espanha tem 653 mil.

Só a título de curiosidade, aqui fica o número de jogadores nos países que caíram aos nossos pés durante o EURO 2012:
  • Dinamarca: 301 mil
  • Holanda: 1,1 milhões
  • República Checa: 686 mil

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O cancro

Chamemos-lhe J. Conheço-o há vários anos. Ele e a mulher sempre foram o casal mais animado daquele sítio. Quem não os conhecesse pensaria que eram ordinários. Há uns meses foi diagnosticado um cancro à sua mulher. Vê-la assim é um choque. É a antítese daquilo que era há uns anos. De mulher forte foi definhando até à magreza extrema e ausência de cabelo.
Por diversas vezes tenho-me cruzado com ela naquelas ruas, quase sempre acompanhada pelo senhor J. As conversas de outrora são agora quase monossílabos. "Bom dia", "boa tarde", fico-me por aí. Embora sem a exuberância de outros tempos, ele cumprimenta-me. Ela baixa a cabeça. Acredito que é ele quem lhe dá o alento e a coragem que é necessária para enfrentar os olhares de compaixão e de pena das pessoas.
Anteontem, ao início da noite, encontrei-o a regar o quintal de um vizinho que estava fora. Sem a mulher por perto, meti conversa. Defensivamente, perguntei se estava tudo bem. Senti-me um idiota enquanto fazia aquela pergunta, mas foi a única forma que encontrei na altura para tentar saber alguma coisa sobre a doença. A resposta: "Está tudo bem, pela fresquinha."
Percebi que aquilo que me estava a querer dizer é que não estava interessado em falar sobre o cancro da mulher pela enésima vez e deixei-me ficar por ali.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ainda se lembram dele?

Acabo de ter notícias do rapaz eslovaco da flauta com quem me cruzei na Galé. Por e-mail, disse-me que já está em Odemira. Parece que anda depressa e, muito em breve, chegará ao Algarve.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre ele - e ver a sua obra (fotográfica e não só) - segue o link no final.

Hey David!

We met on the beach, cannot remember which one (there were a lot of
them). I'm the guy with the backpack who walked there and asked for
coffee and cigarettes. I still do that, but now in Odemira :)

Promised, here [1] you can see the pictures I took.

Stay cool!

Mate

[1] https://picasaweb.google.com/113510281213688342689