quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A vida é assim. Para mim

Primeiro a voz, o acne e depois os pêlos que denunciam que o puto imberbe está a transformar-se num homem hirsuto. Depois, a balança cruel, as dores crónicas em zonas nevrálgicas do corpo, a pele flácida, o cabelo que cai. O definhar do amontoado de ossos que nos compõe, a uns mais bonitos do que a outros, prossegue. Até chegarmos ao fim da linha.
Estamos em constante mutação. Se o tentarmos negar, há sempre alguém que nos lembra: "Há quanto tempo que eu não te via! Estás diferente, pá!" E, a partir de uma certa fase da nossa passagem, dificilmente mudamos para melhor. Pelo menos fisicamente.
Se é verdade que o Homem se vai tornando fisicamente desinteressante - há quem diga que é quando chega às idades dos "entas" - também não é mentira que dispõe de mais ferramentas à medida que os anos passam. Torna-se mais astuto, calculista, atento. Mais inteligente. Torna-se, em rigor, melhor e nem são precisos anos de vida para o transformarem.
E eu, do alto da pouca sabedoria que os meus 24 anos me conferem, reconheço-o.
Experiências más, livros que lemos, histórias que ouvimos, conselhos que recebemos. Os caminhos que seguimos, as decisões que tomamos têm como base decisória as nossas experiências passadas.
Se em tempos apanhaste em flagrante duas namoradas (ambas loiras) em plena cópula com um fulano qualquer, é normal que nutras uma certa repugnância por mulheres loiras; se não percebeste um corno do primeiro livro que leste do António Lobo Antunes, não terás muito interesse em ler um segundo ainda que este já repouse na tua estante de livros; se um dos teus bons amigos se mete constantemente em alhadas nas saídas à noite, é crível que comeces a recusar alguns dos seus convites; e por aí fora.
Porém, quem sabe se um dia não estarás interessado em reler o tal livro do Lobo Antunes ou voltar a comer sushi depois de uma má experiência? Quem sabe se a mulher da tua vida não é mesmo uma loira de seios protuberantes, olhar arrebatador e, ainda por cima (!), fiel?
A vida é assim mesmo, volúvel: por mais experiências que se vivam, livros que se leiam e histórias que se oiçam.

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