segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Space Cake

Não deviam ser mais do que quatro da tarde. Depois de eu e mais dois amigos andarmos às voltas pelas ruas de Amesterdão e de termos visitado a casa da Anne Frank, resolvemos fazer uma paragem numa das 200 coffeeshops espalhadas pela cidade. Numa das vitrinas encontravam-se os famosos Spaces Cakes. Uns assemelhavam-se a bolos de mármore e outros a brownies de chocolate. Optámos pelos segundos, a oito euros cada.
Quem me conhece sabe que não sou dado a substâncias alucinogénas, mas, estando eu em Amesterdão, não podia perder a oportunidade de experimentar uma ou outra coisa. Alguns segundos após concluir o lanche - o tal Space Cake e uma lata de Dr Pepper - manifestei o meu desagrado. Não estava à espera de que o que tinha acabado de ingerir fosse altamente alucinogéno, mas aquilo soube-me a bolo da avó.
Depois disso, demos mais uma volta pela cidade, seguindo à posteriori para o hotel, onde iríamos descansar cerca de duas horas para sairmos, frescos, à noite. Pouco depois de cair na cama, o D já ressonava. Eu tentava dormir e o R estava sentado na cama, encostado à parede. Alguns minutos depois, nervoso, disse-me que tinha de sair do hotel e andar um pouco: tinha o coração acelerado. Voltei a vestir-me e acompanhei-o numa volta ao quarteirão e regressei ao quarto sozinho - o R. continuava a não se sentir bem e continuou na rua. Quando ao D, encontrava-se impávido e sereno, imerso no seu sono pesado.
Alguns minutos depois, o R entrou no quarto. Estava cada vez pior e queria ir ao hospital. Tirei o D da cama e galgámos, estrada acima, os três, em passo acelerado. Durante mais de um quilómetro, o D seguiu alguns metros atrás: julguei tratar-se de uma reacção ao facto de ter acordado há pouco tempo (já veremos como estava enganado), mas, uns minutos depois, perdemo-lo.
Esperámos durante alguns instantes, mas não havia sinais dele. Senti-me entre dois pratos da balança: seguia com o R ao hospital, num arrabalde qualquer de Amesterdão, ou voltava para trás à procura do D? Não tive dúvidas de qual seria o caminho a seguir quando o R me disse não sentir a parte esquerda do corpo.
Metemos a quinta e chegámos ao hospital alguns minutos depois. Na recepção, o R fez a sua ficha, falou dos seus sintomas e da substância que tinha ingerido: o Space Cake.
Pretendia apenas acompanhá-lo, mas constatei que também eu tinha os batimentos cardíacos acelerados. Por via das dúvidas, pedi também para ser visto por um médico.
Na sala de triagem mediram-nos a pulsação. Não sei a quanto estava a minha, mas o R disse-me que os seus batimentos cardíacos estavam a 120 ou 130 por minuto.
Depois da triagem, fomos encaminhados para um corredor onde teríamos de aguardar até sermos vistos por um médico. Ensonados, ligámos um sem número de vezes para o D, que continuava incontactável. Ter-se-ia deixado dormir numa das ruas de Amesterdão enquanto seguia atrás de nós para o hospital?
Não sei quanto tempo estivemos à espera de ser vistos por um médico. Sei que, depois do R ser encaminhado para uma sala, ainda fiquei sozinho durante uma meia-hora, até que o meu nome foi chamado por uma enfermeira que me entregou aos cuidados de uma médica, com quem conversei durante uns cinco minutos. Numa sala onde estavam outros pacientes, explicou-me que todas as reacções do meu organismo eram normais - batimentos cardíacos acelerados, sonolência, etc. - e avisou-me de que os efeitos do Space Cake poderiam durar até 12 horas, pelo que recomendou descanso. Deixei a sala e encaminhei-me para a saída do hospital, onde, cogitei, o R. já estaria à minha espera.
Mas não estava. Dirigi-me a um funcionário e perguntei-lhe onde o poderia encontrar. Atencioso, encaminhou-me para uma outra sala onde o encontrei, sozinho, sentado numa cadeira. Aparentemente, o seu caso clínico era um tanto ou quanto mais delicado do que o meu. Estava à espera do resultado de um electrocardiograma a que se tinha submetido. Aguardámos enquanto escutávamos um espanhol a ter uma acesa discussão com um médico que o aconselhava a procurar um psiquiatra.
Quando o médico chegou, procedeu a uma breve dissertação sobre a história recente dos Space Cakes. Ora, parece que há quatro ou cinco anos o consumo deste bolo alucinogéno registou uma queda abrupta. Mas desde a há dois anos para cá que se tem vindo a registar uma recuperação. Porquê? Pela simples razão de que os Space Cakes de hoje contêm mais droga do que há uns anos.
Depois de alguns minutos à conversa com o médico, abandonámos o hospital. À saída, já restabelecido, contei ao R tudo o que tinha sentido durante aquela "bad trip", para além dos batimentos cardíacos acelerados e do sono. Conseguia escutar conversas a 20 metros de distância como se tivessem lugar dentro do meu cérebro e, melhor do que isso, traduzia todos os diálogos - em holandês, em ucraniano ou em chinês - para português. Escusado será dizer que a tradução era pobrezinha, nada literal e recheada de delírios. No meio de tudo isto, o engraçado é que o mesmo se tinha verificado com o R.
Agora, só faltava encontrarmos o D. Em vão, continuámos a telefonar-lhe e regressámos ao hotel. Não estava no quarto e optámos por ir a um bar, onde esperaríamos até ele dar sinais de vida, o que deve ter acontecido por volta das 11 da noite. O problema é que ele não sabia onde estava. Tinha andado às voltas pela cidade, a pé e de eléctrico. Disse que me voltaria a ligar quando soubesse onde estava ou quando encontrasse o hotel. Demorou umas horas.

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