| Era bonito, não era? |
Corria o ano de 1998. Maio, mais concretamente, e o Benfica recebia o Leça no último jogo de uma época sem grande história. O FC Porto tinha festejado o título (o tetra) algumas jornadas antes e o Benfica, então presidido por aquele cujo nome não deve ser pronunciado, garantia o segundo posto, à frente do Guimarães e do Sporting. Quer isto dizer que aquele jogo servia apenas para cumprir calendário.
E lá fui, naquele soalheiro final de manhã, para o Estádio da Luz, na primeira de muitas excursões que integrei pela Casa do Benfica de Grândola, inaugurada dois anos antes pelas mãos de Manuel Damásio e de um tal Donizete.
Não me recordo daquele dia como se fosse ontem, mas, ou não fosse uma primeira vez, consigo descrever quase pormenorizadamente aquelas horas, desde a ansiedade e excitação iniciais, ao êxtase dos golos. E posso prová-lo!
Daquele dia guardo as lembranças de ter andado todo o dia na companhia do meu colega de turma Luís. Naturalmente que não estávamos sozinhos. A Guida, filha do Zé Carlos, dono de um stand automóvel e então presidente da Casa do Benfica, ficou incumbida da hercúlea tarefa de garantir que chegaríamos sãos e salvos a Grândola.
Para Lisboa, julgo ter levado duas notas de dois contos. Não tenho a certeza se levei comida, mas, tendo em conta o comportamento padrão da minha progenitora, é quase certo que sim. Portanto, o objectivo era aplicar aquela massa toda numa camisola do glorioso. Comecei por procurar as verdadeiras, de marca. Semelhantes àquelas que eram envergadas por Nuno Gomes, João Vieira Pinto e Poborsky. Menino fino, eu. Mas fiquei-me pela procura: já naqueles tempos, as camisolas eram vendidas a um preço pornográfico. E a pasta que eu tinha no bolso também não chegava para adquirir uma no mercado da contrafacção, pelo que resolvi investir dois contos numa do Ronaldo. Esse mesmo, o fenómeno, na altura o melhor jogar do Mundo, a léguas de todos os outros (Zidane ainda iria explodir no Mundial de França).
A camisola, com o número 10, ficava-me pelos joelhos e não a levei para a catedral. Era um crime entrar de camisola azul dentro daquele monumento, ainda para mais tratando-se da primeira vez, pelo que aconselhou a prudência que a deixasse no autocarro.
Acabei por entrar no estádio com uma t-shirt amarela da Benetton. Sete foi o número de vezes em que celebrei os golos do Benfica. Cinco (5!) do Nuno Gomes, um do João Pinto e outro do Brian Deane, todos eles festejados ao som de "Vermelho", da Fafá de Belém.
Eram tempos diferentes. Tempos em que Nuno Gomes era um voraz goleador, em que João Pinto brilhava de encarnado, tempos em que a estátua do Eusébio era orgulhosamente exibida na entrada principal do estádio, e tempos em que os jogadores limpavam o rabo aos cotovelos, conforme afirmou recentemente uma testemunha de acusação no julgamento de Vale e Azevedo.
Eram também tempos em que os jogadores seguiam directamente das suas casas para o estádio em dias de jogo. Foi assim que encontrámos, quase por acaso, o Preud'Homme e o Sanchez. Enquanto saíam de um Citroën Xsara (Porsches e Ferraris eram só para quem recebia todos os meses), pedimos-lhes autógrafos. Todos tínhamos papel. Mas ninguém tinha a porra de uma caneta.
Esta foi a minha primeira vez no estádio da Luz. Desastrosa e especial.
1 comentário:
Ahahahahahah muito bom!!!
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