quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O dia em que o Mundo perdeu um futuro hoquista

Não tinha mais do que seis anos. Se a memória não me atraiçoa, tinha cinco. O Carlos da funerária, que sempre tratei como "O Carlos das mobílias", era um sportinguista inveterado. Sempre que me via, talvez para picar os meus entes próximos, lançava várias tentativas para me converter à equipa leonina. As tentativas de lavagem cerebral consistiam na oferta de adereços alusivos ao clube verde e branco: lembro-me de ter recebido um porta-chaves, mas acredito que o suborno não se tenha ficado por aí. Se passasse a pente fino as catacumbas cá de casa, talvez encontrasse uma caneta, um pisa-papéis com um leão lá dentro ou galhardete.
Empolgado pelos sucessos do hóquei juvenil de Grândola, certo dia pedi à minha mãe que me levasse a treinar com os putos da equipa de hóquei cá da terra, orientada pelo Carlos. Os treinos ainda eram num pavilhão do Parque de Feiras e Exposições e quando lá cheguei a criançada já patinava, de stick em riste, às voltas do rinque. Rapidamente, calcei os patins. Ardiloso, o Carlos das mobílias atirou-me com um par de joelheiras e cotoveleiras... verdes. O cachopo entendeu aquilo como uma provocação grotesca, fez birra e resolveu desistir antes sequer de ter começado.
Perdeu-se um potencial Panchito Velasquez.

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