Chamemos-lhe J. Conheço-o há vários anos. Ele e a mulher sempre foram o casal mais animado daquele sítio. Quem não os conhecesse pensaria que eram ordinários. Há uns meses foi diagnosticado um cancro à sua mulher. Vê-la assim é um choque. É a antítese daquilo que era há uns anos. De mulher forte foi definhando até à magreza extrema e ausência de cabelo.
Por diversas vezes tenho-me cruzado com ela naquelas ruas, quase sempre acompanhada pelo senhor J. As conversas de outrora são agora quase monossílabos. "Bom dia", "boa tarde", fico-me por aí. Embora sem a exuberância de outros tempos, ele cumprimenta-me. Ela baixa a cabeça. Acredito que é ele quem lhe dá o alento e a coragem que é necessária para enfrentar os olhares de compaixão e de pena das pessoas.
Anteontem, ao início da noite, encontrei-o a regar o quintal de um vizinho que estava fora. Sem a mulher por perto, meti conversa. Defensivamente, perguntei se estava tudo bem. Senti-me um idiota enquanto fazia aquela pergunta, mas foi a única forma que encontrei na altura para tentar saber alguma coisa sobre a doença. A resposta: "Está tudo bem, pela fresquinha."
Percebi que aquilo que me estava a querer dizer é que não estava interessado em falar sobre o cancro da mulher pela enésima vez e deixei-me ficar por ali.
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