Dia 19 de Junho. Do bar da praia começo a ver um rapaz com uns vinte e muitos anos com o nariz carcomido pelo sol apoiando-se numa vara de escuteiro para galgar terreno. Areal acima, vem na minha direcção, sorridente. Depois de cravar um cigarro a um banhista, mete conversa comigo. É eslovaco e dá uns toques no português. "O básico para me ir safando", diz já em inglês. Viajado pelo velho continente, conta-me que está em Portugal desde o dia 28 de Dezembro e que esteve vários meses no Porto. Foi um dos ocupas despejados sem dó nem piedade da Escola da Fontinha, em Abril.
Depois disso, aguentou-se pela Invicta durante mais duas semanas. "Já não sabia o que é que estava lá a fazer e fiz-me à estrada", conta. Quase sempre a pé, tem descido o país com uma mochila de campismo às costas e uma flauta. Toca para comprar comida, cigarros e café. Por incrível que pareça, é nas cidades mais pequenas que consegue fazer mais dinheiro. Tomar foi bom, Lisboa não rendeu.
Dorme onde calha. Na Costa da Caparica passou a noite numas casas rústicas abandonadas no fundo de um desfiladeiro. "Senti que estava num western. Só se ouvia o vento." Na noite anterior, tinha dormido na Comporta, de onde seguiu, pelo areal, até o encontrar na Galé. Tinha um mapa com as praias de Portugal e perguntou-me onde estava. Apontei-lhe o local e respondi que já devia ter feito, pelo menos, uns 20 quilómetros só naquele dia. "O meu recorde é 40. Mas há dias em que só faço dez. Depende dos sítios e das pessoas que encontro no caminho", justificou-se.
Os planos dele passavam por seguir até Santo André e arranjar um sítio abrigado para dormir. Talvez estabelecesse novo recorde, mas não lhe quis dizer que, às seis da tarde, era altamente improvável pernoitar em Santo André. Talvez se ficasse por Melides. No dia seguinte, queria visitar Santiago do Cacém e, pelas suas contas, devia estar a pisar as praias do Algarve em menos de duas semanas. Ele, a vara de escuteiro e a flauta. Para a comida, os cigarros e o café.
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