Tinha uns 11 anos quando comecei a vê-lo. Ele, que dois ou três anos antes tinha vencido um cancro com metástases por quase todo o corpo, galgava montanhas e arrebatava contra-relógios. Não havia Zulle, Ullrich, Beloki, ou Pantani que lhe fizesse frente. Depois da primeira, em 1999, seguiram-se seis: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005. Ficou-se pelas sete (7!) Voltas a França consecutivas e, aos 33 anos, resolveu sair pela porta grande, para dedicar-se à sua fundação criada com o intuito de apoiar pessoas com cancro.Lance Armstrong foi um exemplo para milhões de pessoas. Uma fonte de inspiração. Para jovens como eu, para quem lutava contra a mesma doença que ele havia vencido e para com quem ele pedalava pelas estradas gaulesas. Ele, um milagre, impressionou o mundo com a sua história de vida. Lançou livros, ganhou milhões e granjeou da admiração de todos. Até Eddy Merckx, considerado o melhor de todos os tempos, chegou a dizer-se impressionado com os feitos do norte-americano. Foi ele, aliás, um dos grandes defensores de Armstrong, quando a USADA (agência norte-americana de antidopagem) lhe retirou, no Verão, os sete triunfos no Tour, baseando-se para isso em testemunhos de antigos companheiros. ´Merckx chegou mesmo a mostrar-se revoltado com a "perseguição" movida a Armstrong: "Foi controlado mais de 500 vezes desde 2000 e nunca acusou positivo. Todo o processo é baseado em depoimentos de testemunhas. É totalmente injusto", disse antes da USADA divulgar o teor de um dossiê com mais de mil páginas onde é denunciado o esquema que Armstrong terá montado para dominar Alpes e Pirinéus durante sete anos a fio. Ele, com a ajuda de médicos, farmacêuticos, directores e colegas, desenvolveu aquele que se acredita ser o mais sofisticado e bem sucedido programa de doping da história do desporto profissional, e que lhe permitiu nunca acusar positivo nas centenas de controlos a que foi sujeito.
Para já, Armstrong remete-se ao silêncio. Desconhece-se se estará a preparar a sua defesa ou se, por outro lado, já terá desistido de contrariar a acusação.
Aconteça o que acontecer, Armstrong não deixará de ser um exemplo. Mas, de agora em diante, deixará de ser o homem que sobreviveu a um cancro com metástases no cérebro para, depois disso, vencer o Tour entre 1999 e 2005. Passará, sim, a ser um ser humano que venceu o cancro e que, depois disso, perdeu a dignidade.
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