Depois de devorada a biografia do Professor Marcelo, é tempo de passar a outra biografia - a de Robert Enke, o melhor guarda-redes do Benfica neste século. Este é um género pelo qual nutro um manifesto interesse há mais de uma década e que há bem pouco tempo pensava ter iniciado com Lance Armstrong. Agora, sei que o livro do antigo pseudo-ciclista continha dados fictícios.
Voltando à biografia do Professor Marcelo, há a dizer que se trata de um trabalho (sublime) de Vítor Matos, nada mais nada menos do que um jornalista natural de Grândola, um dado que, certamente, estará umbilicalmente ligado à excelência do trabalho.
Para quem quiser saber como se joga nos bastidores perversos da intriga política, onde parecer é (quase) sempre mais importante do que ser, este é um livro de indispensável leitura. Para quem quiser conhecer o Marcelete por detrás do Marcelo e ainda dar umas boas gargalhadas, também.
Tive o prazer de entrevistar o Vítor para a edição de Dezembro do Ecos de Grândola, antes da biografia sair:
Ecos de Grândola – Lembra-se da primeira entrevista que fez a Marcelo Rebelo de Sousa?
Vítor Matos – Foi precisamente no contexto do livro. Como jornalista, já tinha falado com ele várias vezes ao telefone e tinha estado pessoalmente com ele poucas vezes. Conhecia-me mal.
E.G. – E o que o levou a escrever sobre ele?
V.M. – A editora Esfera dos Livros convidou-me para escrever uma biografia no início de 2008 e pôs-me à disposição três nomes de políticos, entre os quais o do professor Marcelo, que eu achei o mais interessante e também o mais trabalhoso.
E.G. – Quais eram os outros nomes?
V.M. – Prefiro não dizer porque há outras pessoas que já estão a trabalhar nisso.
E.G. – Porquê o mais interessante?
V.M. – Porque tem uma vida política que começou no berço e tem-se prolongado até hoje.
E.G. – Esteve ligado a Marcelo Caetano desde muito cedo…
V.M. – O Marcelo Caetano foi quem levou a mãe à maternidade. Tudo começa aí no carro. Toda a gente diz que o Marcelo Caetano é padrinho dele, mas não é: ele não aceitou, mas de facto é como se fosse seu padrinho. Não o sendo, agia como se fosse. Mas era padrinho de casamento dos pais.
E.G. – Voltando atrás, optou pelo professor Marcelo porquê?
V.M. – Por várias razões. Primeiro, porque contar a vida dele é contar a história de Portugal desde os anos 50 até hoje [n.d.r.: Marcelo Rebelo de Sousa nasceu em 1948]. É contar primeiro o ambiente em que ele vivia, numa família ligada ao centro do poder no Estado Novo. E é interessante entender o ambiente em que vivia uma criança como ele. Vai com pai aos eventos e a partir dos seis anos começa a acompanhá-lo nas saídas políticas. Depois, já adolescente começa a ir às reuniões que o grupo dos marcelistas tinha com Marcelo Caetano, num restaurante da Linha chamado “A Choupana”. E ele aí tem contacto com muitas histórias, intrigas. Enfim, com conversas que se passam dentro do regime. A seguir vai para a Faculdade, é aluno de 19 – que é uma coisa absolutamente fantástica, nunca vista – e depois o pai vai para Moçambique e ele começa a ir jantar todas as semanas a casa do Marcelo Caetano quando este se torna Presidente do Conselho. Basicamente, ele sempre esteve no seio da vida política e a ideia é esta: trata-se da única pessoa da sua geração que vive na política desde que nasceu até hoje. E se não está no centro da vida política, está próximo. E depois há um lado excêntrico nele. Não é um político chato, cinzento. Tem muitas histórias engraçadas, hilariantes.
E.G. – Quando começou a trabalhar na biografia?
V.M. – Algum tempo depois da proposta da editora e comecei as entrevistas com o professor Marcelo em Agosto de 2008. Terminei-as no último Verão.
E.G. – Foi a editora que falou com ele a informá-lo de que estava a escrever a sua biografia?
V.M. – Fui eu. Liguei-lhe e disse-lhe: “Vou escrever a sua biografia. Se não quiser participar, vou escrevê-la na mesma. Se quiser participar, óptimo.”
E.G. – O que lhe disse ele?
V.M. – Aceitou participar. Na primeira conversa perguntou-me se ia ser uma biografia autorizada, ao estilo anglo-saxónico. E eu disse-lhe que não: que preferia uma biografia que ele não ia ler antes de ser publicada. Portanto, não autorizada mas que eu chamo de consentida, em que ele dá a informação, onde eu cruzo informações e também onde as versões não são todas dele. É natural que no livro haja coisas que não sejam do seu total agrado. Mas não faço ideia porque ele ainda não leu o livro. Ele disse-me que só o quer ler quando estiver disponível para todos os leitores. [n.d.r.: a entrevista foi realizada antes da biografia chegar às livrarias].
E.G. – Ou seja, tratando-se de uma biografia não autorizada ele não teve qualquer poder na edição da mesma.
V.M. – Não teve qualquer influência no resultado final.
E.G. – Quantas horas de entrevista gravou com ele?
V.M. – Mais ou menos 70 horas. E falei com 86 pessoas. Amigos e inimigos.
E.G. – E como eram as entrevistas com o professor?
V.M. – Demoravam imenso tempo. Eu chegava a casa dele, em Cascais, entre as 9h30 e as 10h00, sentávamo-nos e conversávamos até entre as 02h00 e as 04h00 da manhã. Uma vez eu estava tão cansado – e ele, coitado, é que era suposto cansar-se a falar – que tive de fazer o resto da entrevista em pé. Disse-lhe: “Professor, desculpe lá, mas eu vou fazer o resto da entrevista em pé, ou então adormeço.”
E.G. – E ele mantinha-se fresco?
V.M. – Fresco, fresco, fresco. Sempre a falar. Ficou assim a olhar para mim: “Não aguentas, é?”
E.G. – Lembra-se de algum outro episódio caricato no decorrer dessas entrevistas com o professor?
V.M. – Recordo-me de ele me abrir a porta sempre de telemóvel na mão e com o auricular na orelha. Ele é hipocondríaco e, como está sempre ao telemóvel, usa o auricular porque acha que pode apanhar alguma doença.
E.G. – Quais foram os maiores obstáculos ao longo dos quatro anos?
V.M. – Os obstáculos inerentes a qualquer outro trabalho jornalístico. Houve pessoas que não quiseram falar, outras que eu não consegui contactar. E o natural problema de estar a trabalhar numa revista como a Sábado, onde o trabalho é muito exigente. Isso foi o mais complicado. Aliás, eu ia escrever quase sempre para Grândola.
E.G. – A maior parte do livro foi escrita em Grândola?
V.M. – Sim. Umas vezes ia para Grândola com a minha mulher e os meus filhos e outras vezes ia sozinho. Escrevia em casa dos meus pais. Costumo ir a Grândola pelo menos uma vez por mês e fechava-me num quarto a escrever, tranquilamente. Alguns amigos nem faziam ideia de que eu estava aí.
E.G. – E teve dificuldades na triagem da informação recolhida? Ficou muita coisa de fora?
V.M. – Muita. Podia perfeitamente ter feito dois volumes. Por cada linha que escrevia, podia ter escrito outra. Por cada pessoa com quem falei, podia ter falado com mais uma.
E.G. – Que histórias ficaram de fora?
V.M. – Lembro-me de uma que deixei de fora porque conto lá duas histórias parecidas a esta. Ele fazia cuidados paliativos a vários amigos à cabeceira da morte. E fê-lo a uma amiga, a quem disse que iam fazer uma grande viagem, julgo que a Veneza, e que iam fazer um álbum com fotografias dela. Ele fala com essas pessoas que já estão num estado terminal e consegue animá-las porque olham para ele e não vêem a face da morte. Por norma, quando se olha para outras pessoas doentes há sempre um ar consternado, emocionado. E ele consegue aliviar o ambiente e as pessoas ficam inclusive a sentir-se melhor. Tem esse dom.
E.G. – Esse foi um dos aspectos que mais o surpreendeu ao longo da pesquisa? Essa sua faceta generosa?
V.M. – É engraçado que ele é famoso por dois aspectos: pela sua inteligência e pela sua maldade. Paulo Portas disse que Deus lhe deu a inteligência e o diabo a maldade. Outra das facetas dele que é desconhecida do grande público é precisamente a sua generosidade. Uma coisa que me surpreendeu, e que descobri já com o livro praticamente fechado, é que ele pagou estudos a pelo menos 50 pessoas. Entre pagar estudos e contribuições para quartos a estudantes deslocados.
E.G. – Como descreveria o professor Marcelo em três linhas?
V.M. – É difícil. Mas é uma personagem muito contraditória. Entre as suas qualidades e defeitos, diria que é um católico, [pausa] solitário, egocêntrico, individualista, inteligentíssimo, pérfido, calculista, generoso, hesitante…
E.G. – É curioso, porque transmite a ideia de ser uma pessoa muito confiante.
V.M. – E é, mas é hesitante politicamente. Quando se trata de se atravessar para uma candidatura.
E.G. – Talvez seja por isso que evita falar de uma eventual candidatura à presidência da República?
V.M. – Não sei. Acho que ele está a ponderar isso, mas as probabilidades baixaram desde que ele foi para a Fundação Casa de Bragança. Ele agora também é alentejano. Passa a vida no Alentejo, é engraçado.
E.G. – Acha que dava um bom Presidente da República?
V.M. – Tem a experiência e as qualidades que lhe permitiam ser Presidente da República. Ia ser um Presidente diferente de Cavaco Silva, porque é uma pessoa que fala todas as semanas e que é muito influente e, portanto, seria mais interventivo, quer nos bastidores quer na primeira linha. Mas cabe às pessoas decidirem se querem ter um Presidente interventivo com o perfil dele.
E.G. – O que se segue depois de Marcelo Rebelo de Sousa? Há novos projectos literários na gaveta?
V.M. – Nem pensar. Tão depressa não me meto noutra [risos]. Acabar um livro destes é uma violência. Quando o comecei, o meu filho mais velho tinha três anos e agora já tem sete. Não se lembra do pai sem ser a fazer o livro. Em vez de estar a brincar com ele, o pai estava a escrever o livro…
E.G. – Há alguma outra figura da esfera política sobre a qual gostasse de escrever uma biografia?
V.M. – Não sei. Para já não estou a pensar cultivar o género. Se escrevesse outra coisa, em princípio não seria uma biografia. Mas não tenho nada em mente.
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