O nome dele é Jorge Silveira e está a aplicar o seu know-how na produção artesanal de rebuçados. O conceito é interessante e inspirado no Infante Dom Henrique, o homem que não chegou a rei mas que deu início à febre dos descobrimentos, inspirando nomes como Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e, mais recentemente, Isabel dos Santos e toda uma panóplia de chineses que insistem em tomar-nos de assalto. Parêntesis à parte, a ideia que o Jorge teve foi a de transportar para estas relíquias gastronómicas as especiarias que começaram a chegar às mesas portuguesas ainda no século XV, misturando-as com produtos nacionais.
O projecto ainda está em fase experimental, mas a qualidade do produto já foi certificada por algumas dezenas de gulosos.
Quem gosta de coisas boas não pode deixar de provar estas maravilhas. Para isso, basta entrarem em contacto com o Jorge através de um dos seguintes contactos: 919 44 90 93 ou salsilveira@gmail.com . Vai mesmo valer a pena, como o rebuçado de gengibre que acabei de pôr à boca.
PS: não liguem às toalhas das fotografias.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
A Bola, os observadores e Jorge Coroado
Claro que os observadores não actuam de forma isolada. Se alguns podem ser mesmo incompetentes, outros agem para agradar a outros agentes do futebol. Falo das associações, para quem é importante que os seus árbitros estejam sempre bem cotados. Ora, para as associações também é importante que os (seus) clubes façam boa figura no principal escalão do futebol nacional, nem que para isso precisem de um empurrãozinho.
Alguns árbitros e observadores entram no jogo. Afinal, são formigas quando comparadas a outras classes do universo futebolístico. Alguns, para sobreviverem (porque não são suficientemente bons), entram no sistema, como confirma o ex-observador António Guedes Carvalho, na reportagem que mencionei: "Há observadores que andam lá a fazer fretes."
Para quem conhece minimamente os bastidores do futebol, o conteúdo do trabalho do jornalista Carlos Rias não é assim tão surpreendente. Pelo menos, para mim não foi. Jorge Coroado disse-mo-lo há dois anos numa entrevista que recupero parcialmente:
As classificações dos árbitros eram viciadas?
Eram alteradas devido a interesses que existiam e que ainda existem. Hoje mesmo, ao nível da Federação, há um conluio surdo na atribuição de pontuações aos árbitros e sem responsabilidade do Conselho de Arbitragem. Os árbitros são beneficiados ou prejudicados por observadores, por defesa de interesses, por amizade entre árbitros e observadores, ou por interesses regionais.
Como assim?
Vontades de associações. São punidos árbitros de outras associações para que os que pertencem às suas sejam beneficiados.
Jacinto Paixão disse que o grande problema da arbitragem são os observadores.
Concordo com ele, mas também digo que são os árbitros. Ele nunca foi um bom árbitro e, por isso, pergunto como é que conseguiu chegar à I Divisão. Lá está: a proximidade entre árbitros e observadores faz uma mistura interessantíssima.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Leituras e entrevista
Depois de devorada a biografia do Professor Marcelo, é tempo de passar a outra biografia - a de Robert Enke, o melhor guarda-redes do Benfica neste século. Este é um género pelo qual nutro um manifesto interesse há mais de uma década e que há bem pouco tempo pensava ter iniciado com Lance Armstrong. Agora, sei que o livro do antigo pseudo-ciclista continha dados fictícios.
Voltando à biografia do Professor Marcelo, há a dizer que se trata de um trabalho (sublime) de Vítor Matos, nada mais nada menos do que um jornalista natural de Grândola, um dado que, certamente, estará umbilicalmente ligado à excelência do trabalho.
Para quem quiser saber como se joga nos bastidores perversos da intriga política, onde parecer é (quase) sempre mais importante do que ser, este é um livro de indispensável leitura. Para quem quiser conhecer o Marcelete por detrás do Marcelo e ainda dar umas boas gargalhadas, também.
Tive o prazer de entrevistar o Vítor para a edição de Dezembro do Ecos de Grândola, antes da biografia sair:
Ecos de Grândola – Lembra-se da primeira entrevista que fez a Marcelo Rebelo de Sousa?
Vítor Matos – Foi precisamente no contexto do livro. Como jornalista, já tinha falado com ele várias vezes ao telefone e tinha estado pessoalmente com ele poucas vezes. Conhecia-me mal.
E.G. – E o que o levou a escrever sobre ele?
V.M. – A editora Esfera dos Livros convidou-me para escrever uma biografia no início de 2008 e pôs-me à disposição três nomes de políticos, entre os quais o do professor Marcelo, que eu achei o mais interessante e também o mais trabalhoso.
E.G. – Quais eram os outros nomes?
V.M. – Prefiro não dizer porque há outras pessoas que já estão a trabalhar nisso.
E.G. – Porquê o mais interessante?
V.M. – Porque tem uma vida política que começou no berço e tem-se prolongado até hoje.
E.G. – Esteve ligado a Marcelo Caetano desde muito cedo…
V.M. – O Marcelo Caetano foi quem levou a mãe à maternidade. Tudo começa aí no carro. Toda a gente diz que o Marcelo Caetano é padrinho dele, mas não é: ele não aceitou, mas de facto é como se fosse seu padrinho. Não o sendo, agia como se fosse. Mas era padrinho de casamento dos pais.
E.G. – Voltando atrás, optou pelo professor Marcelo porquê?
V.M. – Por várias razões. Primeiro, porque contar a vida dele é contar a história de Portugal desde os anos 50 até hoje [n.d.r.: Marcelo Rebelo de Sousa nasceu em 1948]. É contar primeiro o ambiente em que ele vivia, numa família ligada ao centro do poder no Estado Novo. E é interessante entender o ambiente em que vivia uma criança como ele. Vai com pai aos eventos e a partir dos seis anos começa a acompanhá-lo nas saídas políticas. Depois, já adolescente começa a ir às reuniões que o grupo dos marcelistas tinha com Marcelo Caetano, num restaurante da Linha chamado “A Choupana”. E ele aí tem contacto com muitas histórias, intrigas. Enfim, com conversas que se passam dentro do regime. A seguir vai para a Faculdade, é aluno de 19 – que é uma coisa absolutamente fantástica, nunca vista – e depois o pai vai para Moçambique e ele começa a ir jantar todas as semanas a casa do Marcelo Caetano quando este se torna Presidente do Conselho. Basicamente, ele sempre esteve no seio da vida política e a ideia é esta: trata-se da única pessoa da sua geração que vive na política desde que nasceu até hoje. E se não está no centro da vida política, está próximo. E depois há um lado excêntrico nele. Não é um político chato, cinzento. Tem muitas histórias engraçadas, hilariantes.
E.G. – Quando começou a trabalhar na biografia?
V.M. – Algum tempo depois da proposta da editora e comecei as entrevistas com o professor Marcelo em Agosto de 2008. Terminei-as no último Verão.
E.G. – Foi a editora que falou com ele a informá-lo de que estava a escrever a sua biografia?
V.M. – Fui eu. Liguei-lhe e disse-lhe: “Vou escrever a sua biografia. Se não quiser participar, vou escrevê-la na mesma. Se quiser participar, óptimo.”
E.G. – O que lhe disse ele?
V.M. – Aceitou participar. Na primeira conversa perguntou-me se ia ser uma biografia autorizada, ao estilo anglo-saxónico. E eu disse-lhe que não: que preferia uma biografia que ele não ia ler antes de ser publicada. Portanto, não autorizada mas que eu chamo de consentida, em que ele dá a informação, onde eu cruzo informações e também onde as versões não são todas dele. É natural que no livro haja coisas que não sejam do seu total agrado. Mas não faço ideia porque ele ainda não leu o livro. Ele disse-me que só o quer ler quando estiver disponível para todos os leitores. [n.d.r.: a entrevista foi realizada antes da biografia chegar às livrarias].
E.G. – Ou seja, tratando-se de uma biografia não autorizada ele não teve qualquer poder na edição da mesma.
V.M. – Não teve qualquer influência no resultado final.
E.G. – Quantas horas de entrevista gravou com ele?
V.M. – Mais ou menos 70 horas. E falei com 86 pessoas. Amigos e inimigos.
E.G. – E como eram as entrevistas com o professor?
V.M. – Demoravam imenso tempo. Eu chegava a casa dele, em Cascais, entre as 9h30 e as 10h00, sentávamo-nos e conversávamos até entre as 02h00 e as 04h00 da manhã. Uma vez eu estava tão cansado – e ele, coitado, é que era suposto cansar-se a falar – que tive de fazer o resto da entrevista em pé. Disse-lhe: “Professor, desculpe lá, mas eu vou fazer o resto da entrevista em pé, ou então adormeço.”
E.G. – E ele mantinha-se fresco?
V.M. – Fresco, fresco, fresco. Sempre a falar. Ficou assim a olhar para mim: “Não aguentas, é?”
E.G. – Lembra-se de algum outro episódio caricato no decorrer dessas entrevistas com o professor?
V.M. – Recordo-me de ele me abrir a porta sempre de telemóvel na mão e com o auricular na orelha. Ele é hipocondríaco e, como está sempre ao telemóvel, usa o auricular porque acha que pode apanhar alguma doença.
E.G. – Quais foram os maiores obstáculos ao longo dos quatro anos?
V.M. – Os obstáculos inerentes a qualquer outro trabalho jornalístico. Houve pessoas que não quiseram falar, outras que eu não consegui contactar. E o natural problema de estar a trabalhar numa revista como a Sábado, onde o trabalho é muito exigente. Isso foi o mais complicado. Aliás, eu ia escrever quase sempre para Grândola.
E.G. – A maior parte do livro foi escrita em Grândola?
V.M. – Sim. Umas vezes ia para Grândola com a minha mulher e os meus filhos e outras vezes ia sozinho. Escrevia em casa dos meus pais. Costumo ir a Grândola pelo menos uma vez por mês e fechava-me num quarto a escrever, tranquilamente. Alguns amigos nem faziam ideia de que eu estava aí.
E.G. – E teve dificuldades na triagem da informação recolhida? Ficou muita coisa de fora?
V.M. – Muita. Podia perfeitamente ter feito dois volumes. Por cada linha que escrevia, podia ter escrito outra. Por cada pessoa com quem falei, podia ter falado com mais uma.
E.G. – Que histórias ficaram de fora?
V.M. – Lembro-me de uma que deixei de fora porque conto lá duas histórias parecidas a esta. Ele fazia cuidados paliativos a vários amigos à cabeceira da morte. E fê-lo a uma amiga, a quem disse que iam fazer uma grande viagem, julgo que a Veneza, e que iam fazer um álbum com fotografias dela. Ele fala com essas pessoas que já estão num estado terminal e consegue animá-las porque olham para ele e não vêem a face da morte. Por norma, quando se olha para outras pessoas doentes há sempre um ar consternado, emocionado. E ele consegue aliviar o ambiente e as pessoas ficam inclusive a sentir-se melhor. Tem esse dom.
E.G. – Esse foi um dos aspectos que mais o surpreendeu ao longo da pesquisa? Essa sua faceta generosa?
V.M. – É engraçado que ele é famoso por dois aspectos: pela sua inteligência e pela sua maldade. Paulo Portas disse que Deus lhe deu a inteligência e o diabo a maldade. Outra das facetas dele que é desconhecida do grande público é precisamente a sua generosidade. Uma coisa que me surpreendeu, e que descobri já com o livro praticamente fechado, é que ele pagou estudos a pelo menos 50 pessoas. Entre pagar estudos e contribuições para quartos a estudantes deslocados.
E.G. – Como descreveria o professor Marcelo em três linhas?
V.M. – É difícil. Mas é uma personagem muito contraditória. Entre as suas qualidades e defeitos, diria que é um católico, [pausa] solitário, egocêntrico, individualista, inteligentíssimo, pérfido, calculista, generoso, hesitante…
E.G. – É curioso, porque transmite a ideia de ser uma pessoa muito confiante.
V.M. – E é, mas é hesitante politicamente. Quando se trata de se atravessar para uma candidatura.
E.G. – Talvez seja por isso que evita falar de uma eventual candidatura à presidência da República?
V.M. – Não sei. Acho que ele está a ponderar isso, mas as probabilidades baixaram desde que ele foi para a Fundação Casa de Bragança. Ele agora também é alentejano. Passa a vida no Alentejo, é engraçado.
E.G. – Acha que dava um bom Presidente da República?
V.M. – Tem a experiência e as qualidades que lhe permitiam ser Presidente da República. Ia ser um Presidente diferente de Cavaco Silva, porque é uma pessoa que fala todas as semanas e que é muito influente e, portanto, seria mais interventivo, quer nos bastidores quer na primeira linha. Mas cabe às pessoas decidirem se querem ter um Presidente interventivo com o perfil dele.
E.G. – O que se segue depois de Marcelo Rebelo de Sousa? Há novos projectos literários na gaveta?
V.M. – Nem pensar. Tão depressa não me meto noutra [risos]. Acabar um livro destes é uma violência. Quando o comecei, o meu filho mais velho tinha três anos e agora já tem sete. Não se lembra do pai sem ser a fazer o livro. Em vez de estar a brincar com ele, o pai estava a escrever o livro…
E.G. – Há alguma outra figura da esfera política sobre a qual gostasse de escrever uma biografia?
V.M. – Não sei. Para já não estou a pensar cultivar o género. Se escrevesse outra coisa, em princípio não seria uma biografia. Mas não tenho nada em mente.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
NY mag II
No início da semana passada disse que iria publicar uma capa semanal da New York Magazine até Abril, mês em que se assinalam os 45 anos da publicação. Esta, sobre a obsessão da medicina com a longevidade humana - e a falta de garantias de condições básicas de saúde - é de 28 de Maio de 2012. Dá, no mínimo, que pensar.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Cavaco, o pé-rapado
Assinala-se amanhã um ano desde que os portugueses ficaram a saber que o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e a sua primeira-dama vivem numa pobreza lastimável e que mal conseguem pagar as contas.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Os super-atletas
Há dias, um responsável de uma equipa do WRC comentava que a saída de Sebastien Loeb era "fantástica" para o campeonato. Quando li as suas declarações, pus-me a matutar sobre outros fenómenos semelhantes no desporto. Aconteceu na Fórmula 1 com Schumacher, no motociclismo com Rossi, no ténis com Federer, no atletismo com Bolt e a Phelps na natação.
Para uns, durante os tempos áureos destes atletas assolou-se sobre as respectivas modalidades uma enorme lassidão. Para quê seguir um desporto onde ganhava quase sempre o mesmo? Onde a palavra competição não era aplicada na prática?
Não alinho por esta tese. Dizer-se que Schumacher, Rossi, Federer ou Loeb não são (ou não foram) bons para a competição, é afirmar-se que os super-atletas não deviam ter lugar no desporto.
Se eles secavam tudo à sua volta - e tendo por garantido que não se tratavam de embustes como Armstrong - era porque trabalhavam para isso.
No entanto, o caso do eneacampeão mundial de ralis (sim, fui investigar e é assim que se diz) é relativamente diferente porque terá beneficiado da passividade que grassou entre outros pilotos e equipas, que se resignaram à supremacia não de dois, três ou quatro anos, mas de quase uma década de Loeb. Pior do que isso, saudaram a sua retirada, o que constitui um claro reconhecido da falta de empenho ou, se preferirem, de incompetência.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Post não aconselhável a religiosos inveterados
"Estou muito orgulhosa e este prémio só me dá força para continuar a trabalhar no duro." A frase poderia pertencer a alguém acabado de receber um Pulitzer, um Nobel ou um Óscar, mas não: trata-se de uma declaração da actriz portuguesa Erica Fontes, proferida instantes depois de receber o prémio XBIZ, o galardão mais importante da indústria pornográfica.
Não chegarei ao cúmulo do altruísmo (ou da hipocrisia), ao dizer que o ofício desta menina de 21 anos é igual a tantos outros, porque, de facto, não é. Aproveito, porém, para usar este meu humilde espaço para a congratular pela recente conquista, fazendo votos para que a este prémio se lhe sucedam muitos outros.
Erica, minha querida, continua a trabalho. No duro, como disseste, porque no mole não te deve dar muito jeito.
Não chegarei ao cúmulo do altruísmo (ou da hipocrisia), ao dizer que o ofício desta menina de 21 anos é igual a tantos outros, porque, de facto, não é. Aproveito, porém, para usar este meu humilde espaço para a congratular pela recente conquista, fazendo votos para que a este prémio se lhe sucedam muitos outros.
Erica, minha querida, continua a trabalho. No duro, como disseste, porque no mole não te deve dar muito jeito.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
NY Magazine I
É uma das revistas de culto dos nova-iorquinos. Podia ter-se tornado numa revista envelhecida, enfadonha, mas não! Continua a reinventar-se e a fugir ao lugar comum, sem medo de chocar. Falo da New York Magazine, uma referência quando se fala em criatividade.
Até Abril, mês em que celebra 45 anos, será publicada uma capa por semana. Esta é a primeira.
Até Abril, mês em que celebra 45 anos, será publicada uma capa por semana. Esta é a primeira.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Virgens ofendidas
A notícia de que a presidente da Câmara de Palmela (PCP) vai reformar-se, no próximo mês, aos 48 anos é, quanto a mim, a prova de que os portugueses se ofendem com pouco. E ofendem-se com pouco porque Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República e substituta de Cavaco Silva em caso de algum badagaio do nosso chefe de Estado, está reformada há 14. Tem 56 anos e, segundo apurou a Sábado, em 2010 "declarou mais de 101 mil euros de rendimentos provenientes de pensões".
Em Grândola é tudo à GRANDE!
A blogger do momento, Pépa Xavier, queria uma mala Chanel. Beato só queria vinho. E do bom! in Correio da Manhã
Os queixumes do Vítor
A proximidade pontual e o equilíbrio de forças sugeria que o mais provável é que no fim dos 90 minutos se registasse um empate. E foi isso que aconteceu, num jogo nem sempre bem jogado, mas onde nunca faltou emoção nem as inalienáveis críticas à equipa de arbitragem, desta vez encabeçadas pelo FC Porto.
Vítor Pereira alegou que foram mal assinalados três foras-de-jogo e que Matic e Maxi Pereira não deviam ter terminado o encontro.
Sou forçado a concordar com ele. Se os árbitros não errassem, Matic devia ter sido expulso e o FC Porto podia ter criado perigo nas três jogadas de que se queixa. Quanto ao lance de Maxi, tendo em conta o critério do árbitro João Ferreira, não me escandaliza o amarelo.
Convém, no entanto, avivar a memória do senhor Vítor Pereira, que terá feito delete ao lance de Fernando sobre Gaitán (esse sim, merecedor de vermelho directo e que João Ferreira transformou em amarelo a Enzo Pérez), não terá explicação para o facto de Mangala ter terminado o jogo sem ser admoestado e para o facto de Moutinho, hoje o jogador mais faltoso e rezingão em campo, ter acumulado uma série de faltas a meio-campo sendo apenas punido já bem perto do final do encontro.
Convém, também, lembrar a Vítor Pereira que, se os árbitros não errassem - como Proença errou no jogo da Luz no ano passado -, muito provavelmente ele não seria hoje treinador do FC Porto.
Quanto ao jogo, esperava mais do Benfica. Entrou melindrado e não conseguiu libertar-se dos fantasmas de um passado recente. Há que reconhecer que o FC Porto foi mais equipa e que neutralizou as principais individualidades dos encarnados. Porém, foi incapaz de traduzir o seu domínio em ocasiões de golo.
Em suma, e pese embora o empate sirva mais ao FC Porto, acho que os benfiquistas não podem dizer que este empate soube a pouco. O que sabe a pouco é ver um quarteto defensivo onde apenas Garay escapa à mediocridade.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Aí vem o FCP
Sete é o número de vezes em que vi jogos entre Benfica e FC Porto no Estádio da Luz. E o saldo desta belicosidade dificilmente podia ser mais negativo para o glorioso. Uma vitória, um empate e cinco derrotas. Por isso, e não obstante a classificação de ambas as equipas ou o futebol praticado, considero que o FC Porto é sempre favorito nestes embates, tenham eles lugar na Invicta, no Jamor, na Conchichina ou no Estádio da Luz.
O Benfica está melhor. Com Ola John ou Gaitán, Rodrigo ou Lima, Cardozo ou Kardec, Enzo Pérez ou André Gomes, joga à bola que se farta, mas o ascendente mental pode superar a capacidade individual e colectiva. Para os jogadores do Benfica, uma vitória sobre o FC Porto na Luz não significa apenas três pontos: é o superar de um trauma. Para eles e para mim, que não vou à bola no Domingo porque estou convencido de que, comigo e com Pedro Proença (que eu considero, a par de Howard Webb, o melhor árbitro do Mundo) fora do clássico, Cardozo e companhia têm via aberta para saírem vitoriosos do jogo.
O Benfica está melhor. Com Ola John ou Gaitán, Rodrigo ou Lima, Cardozo ou Kardec, Enzo Pérez ou André Gomes, joga à bola que se farta, mas o ascendente mental pode superar a capacidade individual e colectiva. Para os jogadores do Benfica, uma vitória sobre o FC Porto na Luz não significa apenas três pontos: é o superar de um trauma. Para eles e para mim, que não vou à bola no Domingo porque estou convencido de que, comigo e com Pedro Proença (que eu considero, a par de Howard Webb, o melhor árbitro do Mundo) fora do clássico, Cardozo e companhia têm via aberta para saírem vitoriosos do jogo.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Focus 640 - a revista post-scriptum
12 de Janeiro de 2012. Era um dia de trabalho igual a tantos outros. Há um dia que estava nas bancas a edição 639 da revista, com "Sociedades secretas" como tema de capa. Portanto, era quinta-feira e estávamos precisamente a meio da nossa semana de trabalho, a preparar a seguinte edição. A Mirce estava, provavelmente, a preparar uma capa ou a escrever artigos sobre famílias de sangue azul, a Carla andaria às voltas com a rubrica "Casos de sucesso", de outros temas sobre sociedade (e sabe Deus o que mais), o Carlos, o Damas e o Tiago (o estagiário que nesse dia até estava ausente) tentavam fechar o destacável, o Barros Costa, com os seus ténis pretos em cima da secretária, lia o jornal e preparava toda a secção de política, o Nelson prosseguia com os seus temas de economia, actualidade e a rubrica "4.ª feira é dia de notas", o Vítor alinhava a edição com a equipa de redacção e os paginadores, o Nelson Vilar desunhava-se para gerir um orçamento de 200 euros para fotografias e a Fátima, entre tantas outras coisas, atendia telefonemas, respondia a e-mails, agendava as viaturas, inseria os nossos trabalhos nos mapas e, não menos importante, aturava-nos.
E eu? Para além de ter a tarefa de entregar uma rubrica chamada perfil - podem também chamar-lhe a rubrica da gaja boa - estava a refazer uma peça sobre um restaurante na Avenida da Liberdade que, na sua primeira versão, começava assim: "Lá fora, os andaimes que abraçam a fachada do edifício de nove andares, sujeita por estes dias a obras de manutenção, (...)". E estava a refazê-la porque afinal o que tinha mesmo de escrever era uma publi-reportagem e não um artigo... digamos... convencional. A juntar a isso, devia estar a redigir uma ou outra peça e desgravava uma entrevista de vida com Manuel Fernandes, o homem que enfiou quatro batatas ao Benfica nos 7-1 de Alvalade, há 26 anos.
Já tinha desgravado mais de metade da entrevista de duas horas, realizada no dia anterior na Academia de Alcochete, quando a administradora, acompanhada pelo Humberto, o director da revista, irrompeu pela sala. Depois de um incipiente circunlóquio introdutório, disse-nos aquilo que já todos estávamos à espera. Que a edição que no dia anterior tinha chegado às bancas era a última da Focus.
Nós, jornalistas sem os vencimentos em dia e carregados de horas extraordinárias que nunca foram pagas, nem tivemos a oportunidade de dizer adeus aos leitores. Em nosso nome e das centenas de pessoas que, desde 1999, por ali tinham passado.
Esta é a entrevista que nunca chegou a sair na Focus. Uma entrevista com algum interesse, cheia de defeitos, enorme, sem cortes editoriais por motivos de espaço. Uma entrevista que fiz há um ano. E que, se a fizesse hoje, seria melhor:
No ano em que ia passar a júnior, o Sarilhense acabou com a equipa daquele escalão.
Manuel Fernandes foi tentar a sorte no seu clube do coração, mas não convenceu o
“violino” Travassos. Pouco depois, um conhecido levou à Luz. Não ficou e até terá
respirado de alívio: “Sinceramente, nunca me senti muito bem lá”, confessa Manuel
Fernandes, o segundo melhor marcador da história do Sporting a seguir a Peyroteo.
Os quatro golos que marcou às águias naquela tarde chuvosa de 14 de Dezembro de
1986 elevaram-no ao patamar dos imortais do Sporting e dos inimigos declarados (se é
que não se encontrava já lá) dos adeptos do Benfica. Sobre essa vitória (7-1), Manuel
Fernandes diz valer mais do que um campeonato. Porquê? “Porque daqui a 50 anos,
quando eu estiver lá em baixo, ainda se vai falar desse jogo e do Manuel Fernandes.”
Durante mais de duas horas – sempre de olho no relógio (sim, porque o Sporting jogava
ao princípio da noite) – o agora assessor da SAD leonina desfiou memórias. Falou da
infância em Sarilhos Pequenos, da profecia concretizada da mãe e até das duas vezes em
que recusou transferir-se para o lado de lá da Segunda Circular.
Como era Sarilhos Pequenos na sua infância?
Era uma aldeia de gente humilde, que vivia à base do mar e que tinha alguma
dificuldade de comunicação com o exterior. Quem chegava a Sarilhos Pequenos tinha
de voltar para trás, porque está rodeada pelo rio Tejo. Na altura não havia saída. Hoje
estamos a 20 minutos de Lisboa mas, naquele tempo, estávamos a três horas. Era uma
diferença abismal.
Quase nunca ia a Lisboa?
Não. Lembro-me de ter ido ao casamento de uma madrinha que lá tinha e de ir ver o
meu pai ao hospital. Da minha infância, só me lembro de ter ido a Lisboa essas vezes.
E o futebol? Quando surgiu?
Desde que me conheço como gente que tive como objectivo ser jogador de futebol. A
minha mãe teve alguma influência porque era louca por futebol. Pelo Sporting, mas
acima de tudo pelo clube da terra.
E o seu pai?
Não ligava muito. Trabalhava no mar. Era fragateiro, fazia os transportes de terra para
os navios e dos navios para terra e vinha de 15 em 15 dias a casa. A minha mãe, não.
Era fanática por futebol.
O que fazia a sua mãe?
Tinha uma taberna e ao mesmo tempo trabalhava no campo, numa grande herdade que
havia lá, de uns ingleses. Quando saía do trabalho no campo, organizava sempre jogos
de futebol mesmo à porta da minha casa. Incutiu-me sempre que eu iria ser um grande
jogador de futebol. Ela sempre disse: "Tu vais jogar primeiro aqui, no Sarilhos, depois
vais jogar para a CUF, que é o clube aqui perto da terra, e depois vais para o Sporting."
E assim foi.
Sim. Ela sentia que eu era diferente dos outros quando era miúdo. Mais talentoso. Com
oito anos já não me deixavam jogar com os miúdos da minha idade. Eu também sentia
que tinha algum jeito para o futebol.
Era filho único?
Somos três ao todo. Houve duas que faleceram em pequeninas. Uma com seis meses e
outra com nove anos, com uma meningite. Eu sou o mais novo de todos. Vi a vida que
os meus pais fizeram, para nos sustentarem.
Muitas dificuldades?
Havia quem passasse por mais do que eu. Sarilhos tinha 700 habitantes e não havia
estradas alcatroadas, era tudo à base de areia. E a luz só apareceu quando eu tinha sete
ou oito anos. As dificuldades foram imensas, mas enquanto a minha mãe foi viva
tivemos sempre uma vida desafogada porque ela tinha muito jeito para o negócio. Foi
ela que me meteu o bicho do futebol. Dos 18 aos 30 anos eu não vivi a minha vida. Vivi
unicamente para o futebol. Só aos 29, 30 anos é que comecei a sentir que o lugar no
Sporting era meu e que já ninguém me tirava dali. Mas continuei a sacrificar-me e a
lutar todos os dias.
Que idade tinha quando a sua mãe morreu?
Dez anos. Depois, fui criado pelas minhas irmãs. O meu pai continuou a vida no mar e
as dificuldades aumentaram um bocado. As minhas irmãs ficaram ligadas à taberna, mas
não tinham a mesma vocação da minha mãe e as coisas começaram a ressentir-se um
bocado. Mas, felizmente, nunca me faltou nada. Sacrificaram-se por mim, que andava a
estudar no Montijo e precisava de dinheiro para os livros. Tive sempre oportunidade de
estudar e não foi por isso que não fui mais longe.
Era bom aluno?
Sempre fui excelente a matemática. Não era bom a português, talvez pela minha
infância. Em Sarilhos tínhamos uma linguagem muito própria da zona. A professora
chateava-nos muito quando falávamos dessa forma. "Vocês não podem utilizar as frases
que usam nas vossas terras." Depois esqueciamo-nos.
Quando deixou de estudar?
Aos 18 anos, quando fui para o profissionalismo de futebol. Comecei a jogar com 16
anos, nos juvenis do Sarilhense.
Muito tarde.
Muito tarde. Hoje, os miúdos começam com cinco, seis anos. A primeira vez em que
calcei umas botas de futebol foi aos 16. Para só agora ter uma noção, foi o primeiro ano
em que o clube da terra meteu uma equipa de juvenis. Tinhamos um grupo tão bom que
passámos todos e fomos ao nacional, a jogar com o Belenenses, Cova da Piedade,
Carcavelos… Passámos três fases, inclusivamente pelo Vitória de Setúbal. Só que no
ano seguinte, quando ia passar a júnior, não houve equipa.
O que fez?
Fui aos treino ao Sporting e ao Benfica. Primeiro, fui ao Sporting. Não me quiseram,
mas tive aí a maior loucura da minha vida, que foi treinar no Estádio José de Alvalade.
Nesse dia, o juniores treinaram no estádio. O Travassos era o treinador e estavam lá
mais de 100 miúdos. Não dava para ver todos.
E no Benfica?
Também não.
Ficou aliviado?
Para ser sincero, nunca me senti muito bem lá.
Regressou ao Sarilhense.
Sim. Mas foi bom na mesma, porque em vez de jogar com o juniores passei logo para os
seniores do Sarilhos, a jogar com jogadores experientes na terceira divisão. Cresci
muito mais depressa e nesse ano fui o melhor marcador do Sarilhos. Depois, um
director da CUF, que vivia na zona, levou-me para a CUF, com 18 anos.
Lembra-se da sua estreia na I Divisão?
Comecei a jogar nas reservas, mas como tinha feito muitos golos, o Costa Pereira – que
era o treinador - convocou-me na 6.ª jornada para um jogo com o Benfica. Foi a minha
estreia, no Estádio Alfredo da Silva, com 18 anos. Perdemos 2-0 com dois golos do
Eusébio. Entrei a 20 minutos do fim e parecia que tinha 100 quilos em cada perna.
Então?
Não era fácil para um miúdo de Sarilhos de repente estar a jogar com o Eusébio, o
Coluna, o Simões. Depois desse jogo voltei à reserva e fui chamado umas sete vezes à
equipa principal. No início da época seguinte, o Costa Pereira foi substituído pelo
Carlos Silva. Lançou-me no primeiro jogo do campeonato.
E?
Ganhámos 7-1 ao Leixões e eu marquei três golos. Nunca mais parei a partir daí.
Li que nos intervalos dos jogos da CUF ia para o balneário a correr para saber o
resultado dos jogos do Sporting.
É verdade, é verdade! Se era fanático pelo Sporting? Era muito. Mais do que sou hoje.
O Fernando Caiado, que era o treinador, ficava chateado comigo. Havia outro jogador
da CUF que era fanático pelo Benfica e nós andávamos sempre na disputa um com o
outro. Se fosse preciso, saíamos a correr para o balneário para perguntar ao roupeiro os
resultados dos jogos.
Qual foi o seu primeiro ordenado?
Foi na CUF, 800 escudos por mês no futebol e mil na fábrica. Mas 800 escudos já dava
para muita coisa!
Todos os jogadores da CUF trabalhavam na fábrica?
Sim, todos os jogadores tinham o seu emprego, mas às vezes não se ia lá...
O que é que fazia na fábrica?
Só fui lá os primeiros dois meses ou três. Era serralheiro mecânico – o meu curso era de
formação serralheira. O chefe não gostava muito de nós, jogadores, porque só
trabalhávamos das 8 às 11 porque tínhamos de ir treinar à tarde.
E foi à tropa?
Fiz a recruta e a especialidade em Leiria. Depois, vim para Lisboa, para uma repartição
do Ministério do Exército. Estava na tropa quando se deu o 25 de abril.
Lembra-se bem da revolução?
Estava em casa. Ouvi na rádio que os soldados tinham de apresentar-se no quartel.
Como eu não tinha quartel, fui à minha repartição. Estava fechada e voltei para casa.
Nem houve problema nenhum. O 25 de abril coincidiu com o fim do meu contrato e da
lei de opção, que existia na altura. Estava livre de escolher o clube onde quisesse jogar,
o que era uma coisa extraordinária. Tive várias oportunidades de ir para outros clubes,
mas...
A premonição da sua mãe já estava a concretizar-se.
Não tenha dúvidas! Disse que tinha de jogar no Sporting, mas não sabia como é que ia
fazer. O FC Porto tinha falado comigo e a Académica e o Belenenses também.
Dialoguei com todos, mas depois tinha de ir para o Brasil participar num jogo que é o
showbol, que é muito divulgado lá. Fazia parte de uma selecção de jogadores da Europa
que ia jogar com uma selecção do Brasil.
E já tinha definido o seu futuro?
Ainda não. Até disse a um amigo que tinha de assinar antes de ir para o Brasil e que o
Sporting nunca mais me telefonava. Não sei se foi esse meu amigo que falou com
alguém, mas o que é facto é que à noite recebo um telefonema do Sporting. Disse-lhes
que ia no dia seguinte à noite para o Brasil e que podia falar com eles durante o dia. Foi
aí que o Dr. Nunes dos Santos [dirigente do clube] foi falar comigo. Não hesitei. Em 72,
o Sporting já tinha mostrado interesse em mim, quando eu fiz a minha melhor época na
CUF. Tanto quanto sei, o engenheiro Jorge de Mello, que era o dono da CUF, disse aos
dirigentes do Sporting o seguinte: "Eu sou muito sportinguista, mas como não preciso
de dinheiro ele não sai daqui enquanto eu estiver cá."
Ficou chateado com ele?
Com ele? Ele não aparecia! Tinha os seus representantes, que falavam em nome dele.
Mas naturalmente que fiquei, porque tinha 21 anos e era uma boa altura para sair.
Depois, só fui para o Sporting com 24 anos.
Quanto foi ganhar?
No primeiro ano, 45 contos e recebi 100 de luvas. Tive uma proposta superior do
Belenenses e não era para ganhar mais. Era para ganhar muito mais. Davam-me um
adiantamento de 300 contos.
Os primeiros tempos no Sporting não foram fáceis. Não marcava e era apontado como o
substituto de Yazalde...
Que ainda hoje tem o recorde de golos num campeonato [46] e vai continuar assim, a
não ser que seja o Cristiano Ronaldo. Mas o problema não foi só esse. Saíram vários
jogadores importantes na estrutura do Sporting: o Dinis, o Manaca. Vários. E houve
uma quebra muito grande. O Sporting foi buscar jogadores a clubes de menor dimensão
e isso transformou um bocado a equipa., tanto que nesse ano o Sporting ficou em quinto
lugar e nem à UEFA foi. Lembro-me que no primeiro jogo que fiz – um particular com a
Académica – fiz logo três golos. Mas no início do campeonato não marquei golos. Se
calhar, marquei o primeiro golo à quinta ou à sexta jornada. Foi aí que cativei os
adeptos.
Chegou a duvidar das suas capacidades?
Não! Na CUF jogava descaído para a direita e ali jogava no centro. Era o Marinho num
lado e o Chico Faria no lado esquerdo. Era uma novidade para mim. Mas quem sabe
jogar à bola, joga bem no centro, na esquerda ou na direita. Senti que um dia os golos
iam aparecer sem problemas nenhum. Nunca senti pressão e fiz 26 golos no
campeonato. Para um miúdo que vinha da CUF e que nem jogava a ponta-de-lança, não
era nada mau. Senti cedo que ia fazer carreira no meu clube.
Foi colega de Jorge Jesus no seu primeiro ano no Sporting. Lembra-se bem dele?
Lembro. Era suplente e entrava de vez em quando. Já era um miúdo com alguma
ambição e traquinas. Era jeitoso apesar de não ter atingido um patamar muito elevado.
Foi um jogador normal e jogou sempre na primeira divisão.
Há uma entrevista que dá ao Record e que é publicada no dia de um jogo com o
FC Porto, em outubro de 1975, em que diz que costumava fazer "coisas giras"
contra o FC Porto quando estava na CUF. Nesse jogo voltou a fazer "coisas giras",
não foi?
Lembro-me desse jogo! Ganhámos 3-2. Foi aquele célebre jogo do golo do nevoeiro,
que a bola não entrou. Não se lembra desse jogo?
Lembrar não, mas já ouvi falar. [Luís Vidigal entra no gabinete sorridente: "É
tudo mentira", solta.]
Foi o golo que não entrou, um em que o jogador estava dez metros fora-de-jogo.
Marquei o segundo golo e fui substituído quando estava 2-2. Quem me foi substituir foi
o Baltasar quem salvo erro marcou o terceiro golo. Nesse instante disse que íamos
ganhar aquele jogo.
O seu primeiro título só chegou na terceira época. Uma finalíssima da Taça de
Portugal ganha ao FC Porto com um golo seu, em 1978.
O Sporting estava com muitas dificuldades em construir uma equipa vencedora?
Estava, sabe porquê?
Não.
O Sporting levou uma transformação total e nos meus primeiros
dois anos tivemos grandes dificuldades. Eu senti isso. No meu segundo ano, quando
tivemos o Hagan como treinador, chegámos à 13.ª jornada com sete pontos de avanço
sobre o segundo, que era o Benfica. Tínhamos eu, o Manoel e o Keita, mas faltavam
substitutos à altura. Tínhamos o Libânio e o Garcês, mas eram miúdos que tremiam
todos quando chegavam jogos importantes.
Mas o que aconteceu à 13.ª jornada?
Antes disso, demos 3-0 ao Benfica na primeira jornada, 3-0 ao FC Porto na 5.ª jornada,
demos cinco em Coimbra, quatro não sei onde. E à 13.ª jornada perdemos 1-0 em
Setúbal a massacrar e com um autogolo no fim. Nem houve descontos. Entretanto, eu
comecei a aleijar-me, o Keita aleijou-se e não tínhamos banco. Acabámos por perder o
campeonato.
Estava no Estádio da Luz no célebre jogo de 1978, quando o Vítor Baptista perdeu
o brinco a festejar um golo.
Lembro-me perfeitamente disso. Ele dominou a bola com o peito e à meia-volta deu um
chuto que passou por cima do Botelho. Os jogadores foram abraçá-lo e ele afastou-os.
Se ajudei a procurar o brinco? Não, não! Eu estava com uma azia do golo, tão chateado,
que nem liguei àquilo. Mas aquilo não era normal.
Ele era um futebolista diferente da maioria…
O Vítor Baptista esteve a dormir no mesmo quarto que eu três semanas na selecção, na
altura em que eu estudava no Montijo à noite a tirar o curso de Educação Física. Foi em
77, na qualificação para o Mundial da Argentina. Uma vez, eu estava no café com os
meus colegas antes de irmos para a escola e entretanto chega o Vítor Baptista. Eu disse:
"Oh Vítor, estás bom?" Eu responde-me assim: "Estou-te a conhecer de qualquer lado."
"Tu está quê, pá?!" "'Tou-te a conhecer de qualquer lado..."
Pensou que ele estava a brincar?
Julgava que ele estava a brincar, mas, se calhar, havia ali outras coisas que... Não sei. Só
depois é que ele me reconheceu. Mas fiquei muito chateado.
E como foi a convivência com ele durante as tais três semanas?
Não me deixava dormir no quarto! Eu tinha de dormir bem para me sentir bem, mas ele
queria era conversar, jogar um bocadinho à carta. Enfim, não tinha sono. Ele era um
jogador talentoso e o sucesso chegou-lhe depressa demais. Ele não estava preparado
para isso e descambou. Penso que foi isso que se passou com ele.
E a rivalidade com o Benfica? Era mais intensa no seu tempo?
É igual. Independentemente das épocas e dos atletas, não há jogo nenhum igual àquele.
Para quem joga no Sporting e no Benfica – e se não for um jogador com medo – o
maior prazer que tem é jogar um jogo desta natureza.
É curioso porque nunca falhou um dérbi nos 12 anos em que foi jogador do
Sporting. Calculo que tenha jogado condicionado num ou noutro jogo.
Sim, mas nesses jogos passava tudo.
Protagonizou um momento quente com o Bento, em 1981/82.
Esse jogo foi muito nervoso. Se ganhássemos ficávamos com sete pontos de avanço
sobre o Benfica. Ainda ficava a faltar a segunda volta, mas matávamos praticamente o
campeonato. O Benfica marcou pelo Carlos Manuel, num canto directo em que ainda
hoje não se sabe se a bola entrou. Depois, houve uma jogada sobre mim, na direita. O
Humbeto Coelho ou o Bastos Lopes – um dos dois – fez-me uma tesoura dentro da área
e nós temos de tirar aproveitamento das situações.
Aproveitamento?
Eu tinha um toque subtil, de dar a bola na frente e deixar o pé. Arriscava-me a magoarme
seriamente, mas preferia deixar o pé para haver contacto.
Há quem diga que era perito em simular penáltis.
Não, não! O que eu fazia não era simulação. Deixava o pé atrás e a bola na frente. Era
mesmo derrubado. Esse penálti contra o Benfica foi transformado pelo Jordão.
E o Bento?
Foi na segunda parte, numa jogada em que eu tabelo com o Lito e ele isola-me. O Bento
sai-me aos pés e eu deixo lá ficar o pé porque ele podia largar a bola. Houve um toque e
talvez estivesse traumatizado com um pontapé na cabeça que tinha levado em
Famalicão, onde tinha levado 18 pontos. Levantou-se e foi em direcção a mim, que
ainda tive o discernimento de lhe dizer: "Oh Bento, o que é que vais fazer? Tem calma
aí, pá!" Ele chega e diz-me: "És sempre a mesma merda!" E dá-me com isto [aponta
para o antebraço] na cara. Eu mandei-me para trás. Não me aleijou, mas era o meu
papel.
O Manuel e os 7-1 do Sporting ao Benfica, em Dezembro de 86, são inalienáveis.
Estava endiabrado.
[Pausa] Já passaram 25 anos e vão-se passar mais 25. E esses 7-1 só vão ser esquecidos
pelos sportinguistas quando voltar a haver um resultado desnivelado. É um jogo que vai
ficar na memória e eu, se calhar, fui a figura principal.
O que explica aquele desmoronamento do Benfica?
Penso que o Benfica quando reduz para 2-1 sente que vai recuperar, mas bloqueia
quando leva o terceiro golo. Se reparar, os movimento que nós fazíamos não eram
acompanhados pelos jogadores do Benfica. Estavam estáticos. Depois, fomos muito
eficazes. Acho que na primeira parte tivemos tantas oportunidades como na segunda.
Mas aí fomos muito mais eficazes.
Foi o melhor jogo da sua carreira?
Não. Nem foi o melhor Sporting – Benfica que eu fiz. O melhor foi quando fomos
campeões, em 79/80. Por acaso, gostava de ter esse jogo e não tenho. Ganhámos 3-1
com dois golos do Jordão e um meu. Nesse é que eu estava mesmo endiabrado. O
penálti que o Jordão marca sou eu que faço um chapéu ao Bento e o Alhinho tira a bola
com a mão dentro da baliza. Tudo me saiu bem nesse jogo, mas para a história ficam os
7-1.
Há adeptos que dizem que não trocariam esses 7-1 por um campeonato. Compreende isso?
Compreendo! Compreendo porque também sou adepto.
O que preferia?
Os 7 a 1. Sabe porquê?
Porquê?
Porque ganhei dois campeonatos. Se ganhasse o terceiro, era mais um. Mas este jogo
vai ser falado por muito tempo. Eu tenho uma filha com nove anos e três netos. Um neto
e duas netas. Não falam disso, mas daqui a seis, sete ou dez anos, se gostarem de
futebol, vão saber que o avô esteve envolvido num jogo que ficou para a história. Isto
vale mais do que um campeonato. As pessoas podem dizer que isto é lírico, mas é a
verdade. O campeonato é mais um ou menos um. Os 7 a 1 houve uma vez na vida e o
futebol tem 100 anos de história. Daqui a 50 anos, quando eu estiver lá em baixo, ainda
se vai falar deste jogo e do Manuel Fernandes.
Depois dessa vitória, o Sporting entrou num período de crise de resultados.
Não foi logo depois desse jogo! Ganhámos em Elvas e depois fomos a Guimarães.
Estávamos a ganhar 1 a 0 com um golo meu e no início da segunda parte o Silvinho vai
isolado para a baliza e um defesa dá-lhe uma porrada por trás. O árbitro – o Veiga Trigo
– não marcou penálti e nós fomos protestar. Com o desnorte acabámos por perder o jogo
por 3 a 1 e as aspirações para ganhar o campeonato. Abrandámos.
E Manuel José foi despedido e substituído pelo inglês Keith Burkinshaw, que a
imprensa elogiava, numa fase inicial, por ser bastante comunicativo…
Não acho que ele fosse muito comunicativo. Aliás: de todos os treinadores ingleses que
eu tive no Sporting, ele era o menos comunicativo. Lembro-me do Allison como se
fosse hoje, o Hagan era… Ui… Um militar daqueles militares [cerra o punho]... Com o
Burkinshaw estive dois meses e lamento que ele não me tivesse deixado acabar a
carreira no Sporting, que era o que eu queria.
Quando soube que não ia continuar no Sporting para a temporada de 1987/88?
Estava de férias no Algarve, descansado, a pensar que ia começar a próxima época
quando li no jornal: “Burkinshaw: ‘Na próxima época o Manuel Fernandes vai jogar
pouco.’” Basicamente, já estava a dizer que não contava comigo. O que era aquilo?
Estava logo a inferiorizar-me perante os outros!
E depois?
Liguei para alguém do Sporting que me disse para não me preocupar. Passados oito dias
ainda deu uma pior.
A dizer?
“Manuel Fernandes, para o ano não conto com ele.”
Aí é que foi mesmo…
E eu disse que era um desgosto muito grande não acabar a minha carreira no Sporting.
Disse-o a ele?
A ele não. Com ele nunca mais falei. Falei com os dirigentes do Sporting, que depois
queriam a todo o custo que eu ficasse, mas eu disse que não ficava porque se amanhã as
coisas corressem mal, quem ia pagar tudo era o Manuel Fernandes, que já tinha 12 anos
de casa. Disse que me ia embora mas que ainda ia jogar mais um ano e que lhe ia
mostrar que ainda tinha capacidade para jogar.
E foi para o Vitória de Setúbal.
Após a segunda entrevista do Burkinshaw, o Fernando Oliveira [Presidente do V.
Setúbal] falou comigo: “Já viste o que ele disse outra vez?” “Já vi e podes contar
comigo.” Foi assim mesmo a conversa.
E ainda marcou ao Sporting.
E apontei o dedo para ele [Burkinshaw]. “Toma que é para saberes que eu ainda era útil
ao Sporting.” Festejei o golo, de raiva a ele. Ganhámos 2-1 e eu fui parar ao hospital por
causa de uma cabeçada do Virgílio. Nessa época marquei 22 golos no Vitória de Setúbal
e não joguei quase metade da época. Fui operado ao malar, tive duas roturas musculares.
Fiz 16 golos para o campeonato e seis para a Taça de Portugal.
No Vitória reencontrou Malcom Allison, com quem foi campeão em 1982. Como
era ele?
Não era nada táctico! Uma das virtudes dele era fazer com que um jogador vulgar
pensasse que era um grande jogador. Acabava por se superar. O Allison também nos
ensinou que para além do futebol também há uma vida e que, com regras, pode-se
conciliar as duas coisas. Quando estava no Sporting, ele treinava de manhã no dia a
seguir ao jogo e depois dava-nos folga. Nesse treino que antecedia a folga dizia-nos
para almoçarmos juntos, jantarmos juntos, cear juntos e até para irmos para a discoteca
juntos. Mas sempre com regras. Foi o treinador que mais me marcou.
Apesar disso, ele foi despedido do Sporting no início da época de 1982/83…
Sabe que o João Rocha foi um grande presidente! Tenho uma grande estima por ele e
um grande orgulho por ter sido meu presidente mas, como toda a gente, cometeu erros.
E penso que esse foi um dos erros que ele cometeu.
Em 1982 viveu-se um impasse directivo. O Sporting praticamente não tinha
presidente… Lembro-me que houve uma comissão de gestão e que quem esteve perto de nós foram o
Manolo Vidal e o José Manuel Torcato.
Foi no final dessa época que recebeu uma proposta do Benfica?
Foi. Houve duas vezes em que o Benfica me contactou. Uma foi através do Gaspar
Ramos e outra – a primeira – através do Romão Martins, que depois foi presidente da
Federação. Nós tínhamos sido campeões e como ele não queria que ninguém soubesse,
encontrou-me em Coina, num pinhal. Fui ter com ele e depois levou-me no carro dele.
Quando me disse o dinheiro que o Benfica me dava, tremi todo mas não vacilei.
Qual era a proposta?
Davam-me 30 mil contos na mão e um contrato de três anos. Era uma proposta
irrecusável, mas nunca aceitaria.
Então porque foi a esse encontro?
Por uma questão de princípio. Quando me convidam, vou sempre mesmo que seja para
dizer que não. Sempre fiz isso. Dessa vez perdi muito dinheiro. Ganhava muito menos e
não sei se ganhei aquilo nos anos todos em que joguei no Sporting. Não me estava a ver
com a camisola do Benfica. Disse-lhe que não ia mudar a minha vida…
Como acha que reagiriam os adeptos do Sporting se tivesse ido para o Benfica?
Acho que isso apagava tudo o que eu tinha feito pelo Sporting. E o que eu fiz é uma
coisa que vale mais do que dinheiro. Ser idolatrado por todos os sócios do Sporting e até
por jovens é uma grande recompensa.
Se fosse hoje, voltaria a recusar?
Voltava. Na altura também tive convites do estrangeiro. O Saragoça quis que eu fosse
para lá, nos Estados Unidos também me queriam quando o Cruijff e o Beckenbauer
foram para lá, mas o João Rocha nunca me deixou ir. E felizmente, até porque eu
também nunca tive espírito de aventureiro.
Só foi uma vez para o estrangeiro e como treinador.
Foi. Para a Angola. E enquanto puder não saio do meu país, porque sou uma pessoa de
família, com sentimentos e se puder estar no meu país com a minha família, estou. Mas
quando tive a proposta dos Estados Unidos, até cheguei a ir lá com o presidente João
Rocha. Quando o Keita e o Artur foram vendidos para o Tea Men, eu e o Jordão também
fomos lá para ser negociados. Só que o João Rocha, como bom negociante, conseguiu
vendê-los e trouxe-me a mim e ao Jordão. Depois é que me apercebi da coisa: nós
fomos como isco. O João Rocha não nos queria vender.
Como era a sua relação com Jordão e António Oliveira? Comentava-se que havia
uma luta de egos.
Era excelente. Dava-me bem com toda a gente. O Oliveira era um talento puro: nasceu
para jogar futebol e tudo tinha de ser à maneira dele e isso nem sempre cai bem num
grupo de trabalho. Ele, como era um talento por natureza, achava que não precisava de
treinar, mas do que foi dito na altura, muitas coisas não correspondiam minimamente à
verdade. Eu sou amigo do Jordão e conheço bem o Oliveira. São pessoas com
personalidades totalmente distintas e eu estava ali no meio. Mas nunca houve assim
nada do que se dizia.
Dizia-se…
Que não passávamos a bola uns aos outros e isso era tudo mentira. Todos passávamos a
bola e todos gostávamos de ganhar. Tínhamos equipa para ganhar três ou quatro
campeonatos seguidos, mas no ano seguinte a termos ganho o campeonato com o
Allison as coisas já não foram iguais. Tanto que o Oliveira foi para treinador/jogador.
Concordou com esse acumular de funções dele?
Olhe, já depois das coisas estarem consumadas houve uma pessoa que me perguntou se
eu concordava com isso. Disse-lhe que não tinha de dizer se concordava ou não. Se me
tivessem perguntado antes de decidirem, até teria dado a opinião. Depois disso, não
valia a pena. O que se passou foi que perdemos um jogador da qualidade do Oliveira.
Mas também jogava.
Mas um jogador dentro de campo não consegue pensar no que tem de fazer como
treinador. Há coisas que não têm sentido.
Qual foi o defesa mais complicado que defrontou?
Foram vários. Sabe que hoje o jogador de futebol é muito defendido. Antigamente, nós
não éramos nada defendidos. O pai do Bruno Alves [Washington Alves] era terrível. O
Bruno Alves ao pé dele é um santo! Devia ver o que era o pai do Bruno Alves a marcar
um avançado.
Que explicações encontra para nunca ter sido opção regular na selecção nacional?
Na época em que eu fui mais utilizado foi no apuramento para o Mundial da Argentina
[1978]. Joguei todos os seis jogos e só fui suplente num. Fiz seis golos nessa fase de
apuramento.
Devia ser suficiente para agarrar o lugar, não?
Pois, mas não foi. Havia outros jogadores e seleccionadores que gostavam mais de outro
tipo de jogadores. Hoje, analisando bem as coisas, também havia outros interesses,
porque o Benfica na altura tinha muita força. Mas havia grandes jogadores lá na frente:
o Nené, o Vítor Baptista, eu, o Gomes. Eram muitos jogadores com muita qualidade.
Mas havia jogadores que quando sabiam que iam ficar a suplentes, arranjavam uma
lesão. E isso eu nunca fiz! Fui sempre patriota.
Que jogadores eram? Do FC Porto e do Benfica?
De todos. Quando sentiam que não eram opção, arranjavam uma lesãozinha. Se calhar,
isso ainda acontece.
Sente que a actual selecção precisava de um Manuel Fernandes?
[Pausa] Neste momento, se analisarmos que o Hugo Almeida está a suplente no
Besiktas, que o Nuno Gomes não joga no Braga, que o Hélder Postiga está no Saragoça
e não tem grande rendimento, estou convencido que qualquer um dos jogadores que
mencionei fazia falta agora.
Em 1980 deixou de falar à imprensa depois de uma entrevista em que ‘cortou’ no
seleccionador, Mário Wilson. Achava que ele protegia muito os jogadores do
Benfica?
Sim, não tenho dúvidas nenhumas que ele protegia mais os jogadores do Benfica. Não é
que não tivessem valor, mas em caso de dúvida ele optava muito pelos jogadores do
Benfica. Nessa altura, em 79/80, estranhei que eu e o Jordão, que fazíamos muitos golos
no Sporting, nunca tivéssemos jogado juntos na selecção.
E em 1986 foi o melhor marcador do campeonato e, ainda assim, isso não foi
suficiente para ser seleccionado para o Mundial do México.
Quem fez isso [José Torres] já não está entre nós. Era uma pessoa divertida, que eu
estimava muito. Mas pronto. Se calhar eu fui culpado pela minha sinceridade por uma
frase que disse na televisão depois do primeiro jogo do campeonato contra o Penafiel,
em que eu marquei cinco golos [vitória do Sporting em Alvalade por 6-0]. Lembro-me
que a última pergunta que o jornalista da RTP me fez foi se eu ainda estava a pensar na
selecção. Não sei se ingenuamente ou se com muita sinceridade, disse que tinha 35 anos
e que, se calhar, o seleccionador estava a pensar chamar jogadores mais jovens e que,
por isso, não estava a pensar voltar a ser chamado. Mas nunca recusei ir à selecção!
Houve um aproveitamento?
Houve um aproveitamento e isso é que me chateou. Mas, para além desse jogo, levei o
ano todo a marcar golos e era mais que justo ter ido à selecção.
Deu graças a Deus por não ter ido ao Mundial e, por isso, ter sido poupado ao que
se passou em Saltillo?
Não, porque ir ao Mundial é sempre uma coisa única. Mas depois de tudo o que
aconteceu, se calhar, muitas das pessoas que lá estavam ficaram marcadas para o futuro
da selecção.
Terminou a carreira de futebolista no V. Setúbal, em 1988, e foi lá que iniciou uma
outra, como treinador. Também foi lá que conheceu José Mourinho.
Sim. O José Mourinho estava a treinar os juniores do Vitória no período em que eu
ainda era jogador. Depois, passei a treinador. Antigamente, havia um campeonato de
reservas e metade dos jogadores que jogavam nesse campeonato eram juniores.
Tínhamos reuniões juntos e eu observava-o a treinar. Foi aí que comecei a ver o trabalho
dele.
Já era o Mourinho que conhecemos?
Já via coisas extraordinárias nele, sim. A abordagem que ele tinha com os jovens, a
forma como treinava. Vi coisas interessantes nele. Depois, fui convidado para ir para o
Estrela da Amadora e comecei a pensar que precisava de um gajo para trabalhar comigo
e pensei naquele puto de 26 anos. Ainda era muito novo, mas depois fui falar com ele:
“Oh Zé! Eu vou para o Estrela e quero convidar-te para seres meu adjunto. O que é que
tu achas?” A resposta dele foi: “É para já!” Assim mesmo, sem hesitações. Depois,
saímos da Amadora. No princípio da época não tínhamos clube e em Novembro eu fui
para a Ovarense. E disse-lhe a ele que ia comigo, mas ele estava a dar aulas em Alhos
Vedros e não podia anular a matrícula. Eu disse-lhe para ir de 15 em 15 dias ver os meus
adversários a Viseu e a Castelo Branco. Ele disse que não havia problema e foi por ele
ter feito isso que, quando o Cintra me convidou para adjunto do Sporting, eu prometi ao
Mourinho que o levava comigo para o Sporting.
Já com o consentimento de Bobby Robson?
Já lhe tinha prometido antes. Depois de irmos contratar o Robson à Holanda, disse ao
presidente que tinha uma pessoa para trabalhar connosco e que era uma exigência
minha.
Sousa Cintra aceitava exigências facilmente?
Ele acreditava muito em mim. Quando lhe falei do José Mourinho, ele disse-me que eu
é que era o responsável se alguma coisa corresse mal. Aí, eu disse ao Zé para se
preparar e aí é que ele conheceu o Robson, que gostou do trabalho dele.
Em Dezembro de 1993, Bobby Robson é despedido depois de uma derrota para a
UEFA, por 3-0, com o Casino Salzburgo.
Sim. O presidente pediu ao comandante do avião para falar no micro e quando o avião
levantou fez um discurso. Quando o Robson ouviu o nome dele, disse-me assim:
“What?” “Calma mister, eu já lhe explico.” Eu não falo muito bem inglês, mas depois
do discurso disse-lhe: “Tomorrow, you, I, José…out!” “What? No.” O homem não
acreditava, até porque estávamos em primeiro no campeonato! Eu ainda continuei mais
oito dias, mas depois vim-me embora. Já não estava com cabeça para estar lá. Isso
meteu o Queiroz e nem vale a pena falar.
Sousa Cintra era um presidente com o coração perto da boca? É que ele já
assumiu por diversas vezes que um dos maiores erros que cometeu foi ter demitido
Bobby Robson.
Foi um bom presidente, mas ao redor do Sousa Cintra havia pessoas que pensavam que
sabiam muito de futebol. E isso levou-o a tomar algumas decisões das quais se
arrepende hoje.
Depois do Sporting foi para o Campomaiorense. Como era aquele clube?
Um espectáculo! Campo Maior foi um sítio onde eu me senti como se estivesse em
casa. No meio de uma família. Terra pequena, de gente humilde, trabalhadora e que
gosta de futebol e do clube da terra. Lembro-me como se fosse da minha ida para o
Campomaiorense: o presidente João Nabeiro telefonou-me a dizer que queria jantar
comigo em Évora para me fazer uma proposta para treinar o clube. O Campomaiorense
estava em último na Liga de Honra.
E como é que descobriu o Jimmy [Hasselbaink, ponta-de-lança holandês que mais
tarde viria a notabilizar-se em Inglaterra, ao serviço de Leeds e Chelsea]?
Quando subimos à I Divisão, eu precisava de um bom avançado de área. Entretanto,
uma semana antes do campeonato começar um empresário que estava na Holanda disseme
que tinha um holandês forte. Eu disse-lhe: “Nem é tarde, nem é cedo. Amanhã, levao
ao Estoril para ele jogar às 3 da tarde num jogo-treino.” Quando chegámos ao Estoril
eu até disse ao chauffer da camioneta para ver se via o holandês grande de brincos e
cabelo comprido loiro. Ele não viu ninguém. Depois, o meu adjunto disse que estava lá
um gajo forte com uma mala. Era ele!
E conseguiu convencê-lo a ficar no plantel.
No primeiro minuto falhou logo um golo em cima da linha.
Não foi um bom cartão-de-visita.
Mas não é por aí que eu vejo os jogadores. Depois, teve ali três ou quatro bons
pormenores e perguntei ao presidente se ele podia ir uma semaninha para Campo Maior.
Foi e na terça-feira fomos fazer um jogo a Beja. Bem… vi-o fazer com cada coisa que
pedi ao presidente para assinar logo com ele. Só jogou um ano em Campo Maior e daí
foi sempre a subir.
A meio da época 2000/01 substituiu Augusto Inácio no Sporting, mas Mourinho foi
a primeira escolha. O que se passou?
Eu estava no Santa Clara. Íamos em primeiro na Divisão de Honra com cinco ou seis
pontos de avanço sobre o segundo. O doutor Luís Duque ligou-me a dizer que tinha de
ir para o Sporting imediatamente. Eu disse-lhe que tinha de falar primeiro com as
pessoas do Santa Clara, que estavam a tratar-me como um príncipe. Nem lhes conseguia
explicar o que se tinha passado, mas perceberam logo o que se estava a passar. Viram
logo que era o Sporting. Eu disse que só ia se me dessem autorização.
Mas para ser tão urgente, já teria falhado o negócio com Mourinho?
Isso aí não sei. É possível que já tivesse falhado. Eu fui para o Sporting às cegas. Sem
contrato, sem nada. Porque era o Sporting. Nunca fiz contrato com o Sporting e a seguir
a um jogo em que nós ganhámos 3-0 ao Benfica vim a saber que não ficava.
Quando chegou ao Sporting sentiu que era um treinador a prazo?
Não. Quando cheguei, o doutor Luís Duque garantiu-me que ficava uma época e meia.
Mas duas semanas depois de eu chegar ele foi-se embora.
Nessa vitória por 3-0 sobre o Benfica, o Sporting esbanjou muitas oportunidades
de golo.
Era um jogo histórico!
Chegou a sentir que o resultado de 1986 podia repetir-se?
À vontade!
Ao longo da sua carreira de treinador subiu de divisão o Campomaiorense, o Santa
Clara, o Penafiel e a U.Leiria.
E o Santa Clara não foi só uma vez…
Certo. Mas a que sabe uma subida de divisão? É tão bom como ganhar um
campeonato?
É uma vitória, um objectivo atingido. E esses feitos dão ainda mais gozo quando são
atingidos quando não esperamos. Foi o caso da U. Leiria, que eu peguei abaixo da linha
de água e acabámos por subir. Isto dá ainda mais gozo, percebe?
Sim.
Eu quando vou para um clube entrego-me de alma e coração e em Campo Maior tive
um sentimento, nos Açores tive outro sentimento…
E em Setúbal, de onde saiu de um modo pouco amigável?
Em Setúbal, o que mais me entristeceu não foi o ter saído, mas a forma como saí.
Havia adeptos à porta do estádio a pedir a sua demissão.
As pessoas que lá estavam não são adeptos do Vitória. As pessoas do Vitória estimam o
Manuel Fernandes. As pessoas sabem quem é aquele tipo de adeptos. São adeptos de
ocasião. Eu fiz sempre trabalhos excelentes no Vitória e na minha última passagem safei
o clube de descer de divisão num ano que tínhamos aquela que era considerada a pior
equipa do século. O Vitória é passado…
Ambiciona voltar a treinar?
Não. Para já, tenho como objectivo terminar a minha carreira no Sporting.
O que faz, concretamente, no Sporting?
Neste momento sou um assessor da SAD, ligado ao doutor Luís Duque e estou a
analisar a competência daqueles jogadores que estão emprestados pelo Sporting a outras
equipas.
São muitos.
Muitos. Já fui ver o Renato Neto à Bélgica.
Foi você que deu o aval para o seu regresso?
Falei com as pessoas com quem tinha que falar, mas não passa só por um. Dei a minha
opinião sobre o jogador. Fui um conselheiro. Também já fui ver o Salomão, o Juary…
Daqui a um mês ou dois tenho um relatório para entregar.
Teve algum peso na construção da equipa para esta época?
Não, não. Foi o Carlos Freitas, o Domingos e o doutor Luís Duque.
A época está a corresponder às expectativas? É que já se esperava que fosse um
ano de transição, devido ao elevado número de novos jogadores.
Este era um ano em que nós pensávamos que as coisas iam ser difíceis. Havia muito
vícios montados e, então, esta mudança era necessária, mas as coisas não podiam ser
feitas do pé para a mão. Esta equipa está em formação e temos jovens que amanhã serão
muito melhores jogadores do que aquilo que são hoje. Vão conhecer melhor o futebol
português e o estilo de jogo que o treinador defende. Para o ano o Sporting não precisa
de fazer aquilo que fez este ano. Penso que o Domingos sabe aquilo que é preciso. Basta
contratar bem dois ou três jogadores e o Sporting poderá equiparar-se aos dois que estão
à nossa frente.
Este ano é que já será tarde…
O Sporting tem de pensar sempre no título, mas tem naturalmente menos probabilidades
do que os rivais. Já sabíamos isso desde o princípio.
Godinho Lopes é o homem certo para recolocar o clube na senda das vitórias?
Penso que sim. Foi uma surpresa para mim, até porque não o conhecia. O Discurso dele
cativou-me. Foi um discurso sério e nada utópico. Não tive dúvidas em apoiá-lo porque
foi logo a minha primeira opção quando ouvi outros candidatos. Falei com alguns, mas
o engenheiro Godinho Lopes teve um discurso honesto, transparente e realista. Penso
que vai fazer um grande trabalho no Sporting.
O que acha das críticas recentes do candidato derrotado, Bruno de Carvalho?
Há muita gente que está à espera que o Sporting tenha insucesso para tentar
desestabilizar. Mas não têm conseguido, porque estamos num bom caminho. Era
importante ganharmos a Taça de Portugal este ano e irmos à Liga dos Campeões.
Sei que é contra a ida de jogadores do Sporting para emblemas rivais. Viu alguns
colegas partirem e chegarem para / de clubes rivais.
São opções que se tomam. Se analisarmos as coisas, ninguém fica mais rico por mudar
de clube. Se for para o estrangeiro, é outra coisa. Aí, uma pessoa vai orientar-se
financeiramente. Aqui, as diferenças entre Benfica, Sporting e FC Porto são pequenas e
mais tarde vai-se ver que não valia a pena. Tenho uma opinião muito vincada em
relação à ida de figuras de clubes para rivais. Eu hoje tenho orgulho em ser uma figura
do Sporting, mas só o sou porque fiquei. Porque se tenho ido, não o seria.
O João Moutinho era uma figura do Sporting. Talvez a principal figura.
Lá está. Foi uma opção que ele tomou. Penso que mais tarde é que verá se valeu ou não
a pena. Naturalmente que o João Moutinho foi ganhar mais para o FC Porto e pode
argumentar que já ganhou o campeonato. Mas terá de lidar com as consequências da
opção que tomou.
O que quer dizer com isso?
Que não pode ser figura do Sporting e figura do FC Porto em simultâneo. Até pode nem
vir a ser de nenhum. Do Sporting não vai ser porque os sportinguistas estão
naturalmente chateados com ele. É um miúdo extraordinário, mas tomou uma opção que
daqui a uns anos terá as suas consequências em relação ao Sporting.
E eu? Para além de ter a tarefa de entregar uma rubrica chamada perfil - podem também chamar-lhe a rubrica da gaja boa - estava a refazer uma peça sobre um restaurante na Avenida da Liberdade que, na sua primeira versão, começava assim: "Lá fora, os andaimes que abraçam a fachada do edifício de nove andares, sujeita por estes dias a obras de manutenção, (...)". E estava a refazê-la porque afinal o que tinha mesmo de escrever era uma publi-reportagem e não um artigo... digamos... convencional. A juntar a isso, devia estar a redigir uma ou outra peça e desgravava uma entrevista de vida com Manuel Fernandes, o homem que enfiou quatro batatas ao Benfica nos 7-1 de Alvalade, há 26 anos.
Já tinha desgravado mais de metade da entrevista de duas horas, realizada no dia anterior na Academia de Alcochete, quando a administradora, acompanhada pelo Humberto, o director da revista, irrompeu pela sala. Depois de um incipiente circunlóquio introdutório, disse-nos aquilo que já todos estávamos à espera. Que a edição que no dia anterior tinha chegado às bancas era a última da Focus.
Nós, jornalistas sem os vencimentos em dia e carregados de horas extraordinárias que nunca foram pagas, nem tivemos a oportunidade de dizer adeus aos leitores. Em nosso nome e das centenas de pessoas que, desde 1999, por ali tinham passado.
Esta é a entrevista que nunca chegou a sair na Focus. Uma entrevista com algum interesse, cheia de defeitos, enorme, sem cortes editoriais por motivos de espaço. Uma entrevista que fiz há um ano. E que, se a fizesse hoje, seria melhor:
No ano em que ia passar a júnior, o Sarilhense acabou com a equipa daquele escalão.
Manuel Fernandes foi tentar a sorte no seu clube do coração, mas não convenceu o
“violino” Travassos. Pouco depois, um conhecido levou à Luz. Não ficou e até terá
respirado de alívio: “Sinceramente, nunca me senti muito bem lá”, confessa Manuel
Fernandes, o segundo melhor marcador da história do Sporting a seguir a Peyroteo.
Os quatro golos que marcou às águias naquela tarde chuvosa de 14 de Dezembro de
1986 elevaram-no ao patamar dos imortais do Sporting e dos inimigos declarados (se é
que não se encontrava já lá) dos adeptos do Benfica. Sobre essa vitória (7-1), Manuel
Fernandes diz valer mais do que um campeonato. Porquê? “Porque daqui a 50 anos,
quando eu estiver lá em baixo, ainda se vai falar desse jogo e do Manuel Fernandes.”
Durante mais de duas horas – sempre de olho no relógio (sim, porque o Sporting jogava
ao princípio da noite) – o agora assessor da SAD leonina desfiou memórias. Falou da
infância em Sarilhos Pequenos, da profecia concretizada da mãe e até das duas vezes em
que recusou transferir-se para o lado de lá da Segunda Circular.
Como era Sarilhos Pequenos na sua infância?
Era uma aldeia de gente humilde, que vivia à base do mar e que tinha alguma
dificuldade de comunicação com o exterior. Quem chegava a Sarilhos Pequenos tinha
de voltar para trás, porque está rodeada pelo rio Tejo. Na altura não havia saída. Hoje
estamos a 20 minutos de Lisboa mas, naquele tempo, estávamos a três horas. Era uma
diferença abismal.
Quase nunca ia a Lisboa?
Não. Lembro-me de ter ido ao casamento de uma madrinha que lá tinha e de ir ver o
meu pai ao hospital. Da minha infância, só me lembro de ter ido a Lisboa essas vezes.
E o futebol? Quando surgiu?
Desde que me conheço como gente que tive como objectivo ser jogador de futebol. A
minha mãe teve alguma influência porque era louca por futebol. Pelo Sporting, mas
acima de tudo pelo clube da terra.
E o seu pai?
Não ligava muito. Trabalhava no mar. Era fragateiro, fazia os transportes de terra para
os navios e dos navios para terra e vinha de 15 em 15 dias a casa. A minha mãe, não.
Era fanática por futebol.
O que fazia a sua mãe?
Tinha uma taberna e ao mesmo tempo trabalhava no campo, numa grande herdade que
havia lá, de uns ingleses. Quando saía do trabalho no campo, organizava sempre jogos
de futebol mesmo à porta da minha casa. Incutiu-me sempre que eu iria ser um grande
jogador de futebol. Ela sempre disse: "Tu vais jogar primeiro aqui, no Sarilhos, depois
vais jogar para a CUF, que é o clube aqui perto da terra, e depois vais para o Sporting."
E assim foi.
Sim. Ela sentia que eu era diferente dos outros quando era miúdo. Mais talentoso. Com
oito anos já não me deixavam jogar com os miúdos da minha idade. Eu também sentia
que tinha algum jeito para o futebol.
Era filho único?
Somos três ao todo. Houve duas que faleceram em pequeninas. Uma com seis meses e
outra com nove anos, com uma meningite. Eu sou o mais novo de todos. Vi a vida que
os meus pais fizeram, para nos sustentarem.
Muitas dificuldades?
Havia quem passasse por mais do que eu. Sarilhos tinha 700 habitantes e não havia
estradas alcatroadas, era tudo à base de areia. E a luz só apareceu quando eu tinha sete
ou oito anos. As dificuldades foram imensas, mas enquanto a minha mãe foi viva
tivemos sempre uma vida desafogada porque ela tinha muito jeito para o negócio. Foi
ela que me meteu o bicho do futebol. Dos 18 aos 30 anos eu não vivi a minha vida. Vivi
unicamente para o futebol. Só aos 29, 30 anos é que comecei a sentir que o lugar no
Sporting era meu e que já ninguém me tirava dali. Mas continuei a sacrificar-me e a
lutar todos os dias.
Que idade tinha quando a sua mãe morreu?
Dez anos. Depois, fui criado pelas minhas irmãs. O meu pai continuou a vida no mar e
as dificuldades aumentaram um bocado. As minhas irmãs ficaram ligadas à taberna, mas
não tinham a mesma vocação da minha mãe e as coisas começaram a ressentir-se um
bocado. Mas, felizmente, nunca me faltou nada. Sacrificaram-se por mim, que andava a
estudar no Montijo e precisava de dinheiro para os livros. Tive sempre oportunidade de
estudar e não foi por isso que não fui mais longe.
Era bom aluno?
Sempre fui excelente a matemática. Não era bom a português, talvez pela minha
infância. Em Sarilhos tínhamos uma linguagem muito própria da zona. A professora
chateava-nos muito quando falávamos dessa forma. "Vocês não podem utilizar as frases
que usam nas vossas terras." Depois esqueciamo-nos.
Quando deixou de estudar?
Aos 18 anos, quando fui para o profissionalismo de futebol. Comecei a jogar com 16
anos, nos juvenis do Sarilhense.
Muito tarde.
Muito tarde. Hoje, os miúdos começam com cinco, seis anos. A primeira vez em que
calcei umas botas de futebol foi aos 16. Para só agora ter uma noção, foi o primeiro ano
em que o clube da terra meteu uma equipa de juvenis. Tinhamos um grupo tão bom que
passámos todos e fomos ao nacional, a jogar com o Belenenses, Cova da Piedade,
Carcavelos… Passámos três fases, inclusivamente pelo Vitória de Setúbal. Só que no
ano seguinte, quando ia passar a júnior, não houve equipa.
O que fez?
Fui aos treino ao Sporting e ao Benfica. Primeiro, fui ao Sporting. Não me quiseram,
mas tive aí a maior loucura da minha vida, que foi treinar no Estádio José de Alvalade.
Nesse dia, o juniores treinaram no estádio. O Travassos era o treinador e estavam lá
mais de 100 miúdos. Não dava para ver todos.
E no Benfica?
Também não.
Ficou aliviado?
Para ser sincero, nunca me senti muito bem lá.
Regressou ao Sarilhense.
Sim. Mas foi bom na mesma, porque em vez de jogar com o juniores passei logo para os
seniores do Sarilhos, a jogar com jogadores experientes na terceira divisão. Cresci
muito mais depressa e nesse ano fui o melhor marcador do Sarilhos. Depois, um
director da CUF, que vivia na zona, levou-me para a CUF, com 18 anos.
Lembra-se da sua estreia na I Divisão?
Comecei a jogar nas reservas, mas como tinha feito muitos golos, o Costa Pereira – que
era o treinador - convocou-me na 6.ª jornada para um jogo com o Benfica. Foi a minha
estreia, no Estádio Alfredo da Silva, com 18 anos. Perdemos 2-0 com dois golos do
Eusébio. Entrei a 20 minutos do fim e parecia que tinha 100 quilos em cada perna.
Então?
Não era fácil para um miúdo de Sarilhos de repente estar a jogar com o Eusébio, o
Coluna, o Simões. Depois desse jogo voltei à reserva e fui chamado umas sete vezes à
equipa principal. No início da época seguinte, o Costa Pereira foi substituído pelo
Carlos Silva. Lançou-me no primeiro jogo do campeonato.
E?
Ganhámos 7-1 ao Leixões e eu marquei três golos. Nunca mais parei a partir daí.
Li que nos intervalos dos jogos da CUF ia para o balneário a correr para saber o
resultado dos jogos do Sporting.
É verdade, é verdade! Se era fanático pelo Sporting? Era muito. Mais do que sou hoje.
O Fernando Caiado, que era o treinador, ficava chateado comigo. Havia outro jogador
da CUF que era fanático pelo Benfica e nós andávamos sempre na disputa um com o
outro. Se fosse preciso, saíamos a correr para o balneário para perguntar ao roupeiro os
resultados dos jogos.
Qual foi o seu primeiro ordenado?
Foi na CUF, 800 escudos por mês no futebol e mil na fábrica. Mas 800 escudos já dava
para muita coisa!
Todos os jogadores da CUF trabalhavam na fábrica?
Sim, todos os jogadores tinham o seu emprego, mas às vezes não se ia lá...
O que é que fazia na fábrica?
Só fui lá os primeiros dois meses ou três. Era serralheiro mecânico – o meu curso era de
formação serralheira. O chefe não gostava muito de nós, jogadores, porque só
trabalhávamos das 8 às 11 porque tínhamos de ir treinar à tarde.
E foi à tropa?
Fiz a recruta e a especialidade em Leiria. Depois, vim para Lisboa, para uma repartição
do Ministério do Exército. Estava na tropa quando se deu o 25 de abril.
Lembra-se bem da revolução?
Estava em casa. Ouvi na rádio que os soldados tinham de apresentar-se no quartel.
Como eu não tinha quartel, fui à minha repartição. Estava fechada e voltei para casa.
Nem houve problema nenhum. O 25 de abril coincidiu com o fim do meu contrato e da
lei de opção, que existia na altura. Estava livre de escolher o clube onde quisesse jogar,
o que era uma coisa extraordinária. Tive várias oportunidades de ir para outros clubes,
mas...
A premonição da sua mãe já estava a concretizar-se.
Não tenha dúvidas! Disse que tinha de jogar no Sporting, mas não sabia como é que ia
fazer. O FC Porto tinha falado comigo e a Académica e o Belenenses também.
Dialoguei com todos, mas depois tinha de ir para o Brasil participar num jogo que é o
showbol, que é muito divulgado lá. Fazia parte de uma selecção de jogadores da Europa
que ia jogar com uma selecção do Brasil.
E já tinha definido o seu futuro?
Ainda não. Até disse a um amigo que tinha de assinar antes de ir para o Brasil e que o
Sporting nunca mais me telefonava. Não sei se foi esse meu amigo que falou com
alguém, mas o que é facto é que à noite recebo um telefonema do Sporting. Disse-lhes
que ia no dia seguinte à noite para o Brasil e que podia falar com eles durante o dia. Foi
aí que o Dr. Nunes dos Santos [dirigente do clube] foi falar comigo. Não hesitei. Em 72,
o Sporting já tinha mostrado interesse em mim, quando eu fiz a minha melhor época na
CUF. Tanto quanto sei, o engenheiro Jorge de Mello, que era o dono da CUF, disse aos
dirigentes do Sporting o seguinte: "Eu sou muito sportinguista, mas como não preciso
de dinheiro ele não sai daqui enquanto eu estiver cá."
Ficou chateado com ele?
Com ele? Ele não aparecia! Tinha os seus representantes, que falavam em nome dele.
Mas naturalmente que fiquei, porque tinha 21 anos e era uma boa altura para sair.
Depois, só fui para o Sporting com 24 anos.
Quanto foi ganhar?
No primeiro ano, 45 contos e recebi 100 de luvas. Tive uma proposta superior do
Belenenses e não era para ganhar mais. Era para ganhar muito mais. Davam-me um
adiantamento de 300 contos.
Os primeiros tempos no Sporting não foram fáceis. Não marcava e era apontado como o
substituto de Yazalde...
Que ainda hoje tem o recorde de golos num campeonato [46] e vai continuar assim, a
não ser que seja o Cristiano Ronaldo. Mas o problema não foi só esse. Saíram vários
jogadores importantes na estrutura do Sporting: o Dinis, o Manaca. Vários. E houve
uma quebra muito grande. O Sporting foi buscar jogadores a clubes de menor dimensão
e isso transformou um bocado a equipa., tanto que nesse ano o Sporting ficou em quinto
lugar e nem à UEFA foi. Lembro-me que no primeiro jogo que fiz – um particular com a
Académica – fiz logo três golos. Mas no início do campeonato não marquei golos. Se
calhar, marquei o primeiro golo à quinta ou à sexta jornada. Foi aí que cativei os
adeptos.
Chegou a duvidar das suas capacidades?
Não! Na CUF jogava descaído para a direita e ali jogava no centro. Era o Marinho num
lado e o Chico Faria no lado esquerdo. Era uma novidade para mim. Mas quem sabe
jogar à bola, joga bem no centro, na esquerda ou na direita. Senti que um dia os golos
iam aparecer sem problemas nenhum. Nunca senti pressão e fiz 26 golos no
campeonato. Para um miúdo que vinha da CUF e que nem jogava a ponta-de-lança, não
era nada mau. Senti cedo que ia fazer carreira no meu clube.
Foi colega de Jorge Jesus no seu primeiro ano no Sporting. Lembra-se bem dele?
Lembro. Era suplente e entrava de vez em quando. Já era um miúdo com alguma
ambição e traquinas. Era jeitoso apesar de não ter atingido um patamar muito elevado.
Foi um jogador normal e jogou sempre na primeira divisão.
Há uma entrevista que dá ao Record e que é publicada no dia de um jogo com o
FC Porto, em outubro de 1975, em que diz que costumava fazer "coisas giras"
contra o FC Porto quando estava na CUF. Nesse jogo voltou a fazer "coisas giras",
não foi?
Lembro-me desse jogo! Ganhámos 3-2. Foi aquele célebre jogo do golo do nevoeiro,
que a bola não entrou. Não se lembra desse jogo?
Lembrar não, mas já ouvi falar. [Luís Vidigal entra no gabinete sorridente: "É
tudo mentira", solta.]
Foi o golo que não entrou, um em que o jogador estava dez metros fora-de-jogo.
Marquei o segundo golo e fui substituído quando estava 2-2. Quem me foi substituir foi
o Baltasar quem salvo erro marcou o terceiro golo. Nesse instante disse que íamos
ganhar aquele jogo.
O seu primeiro título só chegou na terceira época. Uma finalíssima da Taça de
Portugal ganha ao FC Porto com um golo seu, em 1978.
O Sporting estava com muitas dificuldades em construir uma equipa vencedora?
Estava, sabe porquê?
Não.
O Sporting levou uma transformação total e nos meus primeiros
dois anos tivemos grandes dificuldades. Eu senti isso. No meu segundo ano, quando
tivemos o Hagan como treinador, chegámos à 13.ª jornada com sete pontos de avanço
sobre o segundo, que era o Benfica. Tínhamos eu, o Manoel e o Keita, mas faltavam
substitutos à altura. Tínhamos o Libânio e o Garcês, mas eram miúdos que tremiam
todos quando chegavam jogos importantes.
Mas o que aconteceu à 13.ª jornada?
Antes disso, demos 3-0 ao Benfica na primeira jornada, 3-0 ao FC Porto na 5.ª jornada,
demos cinco em Coimbra, quatro não sei onde. E à 13.ª jornada perdemos 1-0 em
Setúbal a massacrar e com um autogolo no fim. Nem houve descontos. Entretanto, eu
comecei a aleijar-me, o Keita aleijou-se e não tínhamos banco. Acabámos por perder o
campeonato.
Estava no Estádio da Luz no célebre jogo de 1978, quando o Vítor Baptista perdeu
o brinco a festejar um golo.
Lembro-me perfeitamente disso. Ele dominou a bola com o peito e à meia-volta deu um
chuto que passou por cima do Botelho. Os jogadores foram abraçá-lo e ele afastou-os.
Se ajudei a procurar o brinco? Não, não! Eu estava com uma azia do golo, tão chateado,
que nem liguei àquilo. Mas aquilo não era normal.
Ele era um futebolista diferente da maioria…
O Vítor Baptista esteve a dormir no mesmo quarto que eu três semanas na selecção, na
altura em que eu estudava no Montijo à noite a tirar o curso de Educação Física. Foi em
77, na qualificação para o Mundial da Argentina. Uma vez, eu estava no café com os
meus colegas antes de irmos para a escola e entretanto chega o Vítor Baptista. Eu disse:
"Oh Vítor, estás bom?" Eu responde-me assim: "Estou-te a conhecer de qualquer lado."
"Tu está quê, pá?!" "'Tou-te a conhecer de qualquer lado..."
Pensou que ele estava a brincar?
Julgava que ele estava a brincar, mas, se calhar, havia ali outras coisas que... Não sei. Só
depois é que ele me reconheceu. Mas fiquei muito chateado.
E como foi a convivência com ele durante as tais três semanas?
Não me deixava dormir no quarto! Eu tinha de dormir bem para me sentir bem, mas ele
queria era conversar, jogar um bocadinho à carta. Enfim, não tinha sono. Ele era um
jogador talentoso e o sucesso chegou-lhe depressa demais. Ele não estava preparado
para isso e descambou. Penso que foi isso que se passou com ele.
E a rivalidade com o Benfica? Era mais intensa no seu tempo?
É igual. Independentemente das épocas e dos atletas, não há jogo nenhum igual àquele.
Para quem joga no Sporting e no Benfica – e se não for um jogador com medo – o
maior prazer que tem é jogar um jogo desta natureza.
É curioso porque nunca falhou um dérbi nos 12 anos em que foi jogador do
Sporting. Calculo que tenha jogado condicionado num ou noutro jogo.
Sim, mas nesses jogos passava tudo.
Protagonizou um momento quente com o Bento, em 1981/82.
Esse jogo foi muito nervoso. Se ganhássemos ficávamos com sete pontos de avanço
sobre o Benfica. Ainda ficava a faltar a segunda volta, mas matávamos praticamente o
campeonato. O Benfica marcou pelo Carlos Manuel, num canto directo em que ainda
hoje não se sabe se a bola entrou. Depois, houve uma jogada sobre mim, na direita. O
Humbeto Coelho ou o Bastos Lopes – um dos dois – fez-me uma tesoura dentro da área
e nós temos de tirar aproveitamento das situações.
Aproveitamento?
Eu tinha um toque subtil, de dar a bola na frente e deixar o pé. Arriscava-me a magoarme
seriamente, mas preferia deixar o pé para haver contacto.
Há quem diga que era perito em simular penáltis.
Não, não! O que eu fazia não era simulação. Deixava o pé atrás e a bola na frente. Era
mesmo derrubado. Esse penálti contra o Benfica foi transformado pelo Jordão.
E o Bento?
Foi na segunda parte, numa jogada em que eu tabelo com o Lito e ele isola-me. O Bento
sai-me aos pés e eu deixo lá ficar o pé porque ele podia largar a bola. Houve um toque e
talvez estivesse traumatizado com um pontapé na cabeça que tinha levado em
Famalicão, onde tinha levado 18 pontos. Levantou-se e foi em direcção a mim, que
ainda tive o discernimento de lhe dizer: "Oh Bento, o que é que vais fazer? Tem calma
aí, pá!" Ele chega e diz-me: "És sempre a mesma merda!" E dá-me com isto [aponta
para o antebraço] na cara. Eu mandei-me para trás. Não me aleijou, mas era o meu
papel.
O Manuel e os 7-1 do Sporting ao Benfica, em Dezembro de 86, são inalienáveis.
Estava endiabrado.
[Pausa] Já passaram 25 anos e vão-se passar mais 25. E esses 7-1 só vão ser esquecidos
pelos sportinguistas quando voltar a haver um resultado desnivelado. É um jogo que vai
ficar na memória e eu, se calhar, fui a figura principal.
O que explica aquele desmoronamento do Benfica?
Penso que o Benfica quando reduz para 2-1 sente que vai recuperar, mas bloqueia
quando leva o terceiro golo. Se reparar, os movimento que nós fazíamos não eram
acompanhados pelos jogadores do Benfica. Estavam estáticos. Depois, fomos muito
eficazes. Acho que na primeira parte tivemos tantas oportunidades como na segunda.
Mas aí fomos muito mais eficazes.
Foi o melhor jogo da sua carreira?
Não. Nem foi o melhor Sporting – Benfica que eu fiz. O melhor foi quando fomos
campeões, em 79/80. Por acaso, gostava de ter esse jogo e não tenho. Ganhámos 3-1
com dois golos do Jordão e um meu. Nesse é que eu estava mesmo endiabrado. O
penálti que o Jordão marca sou eu que faço um chapéu ao Bento e o Alhinho tira a bola
com a mão dentro da baliza. Tudo me saiu bem nesse jogo, mas para a história ficam os
7-1.
Há adeptos que dizem que não trocariam esses 7-1 por um campeonato. Compreende isso?
Compreendo! Compreendo porque também sou adepto.
O que preferia?
Os 7 a 1. Sabe porquê?
Porquê?
Porque ganhei dois campeonatos. Se ganhasse o terceiro, era mais um. Mas este jogo
vai ser falado por muito tempo. Eu tenho uma filha com nove anos e três netos. Um neto
e duas netas. Não falam disso, mas daqui a seis, sete ou dez anos, se gostarem de
futebol, vão saber que o avô esteve envolvido num jogo que ficou para a história. Isto
vale mais do que um campeonato. As pessoas podem dizer que isto é lírico, mas é a
verdade. O campeonato é mais um ou menos um. Os 7 a 1 houve uma vez na vida e o
futebol tem 100 anos de história. Daqui a 50 anos, quando eu estiver lá em baixo, ainda
se vai falar deste jogo e do Manuel Fernandes.
Depois dessa vitória, o Sporting entrou num período de crise de resultados.
Não foi logo depois desse jogo! Ganhámos em Elvas e depois fomos a Guimarães.
Estávamos a ganhar 1 a 0 com um golo meu e no início da segunda parte o Silvinho vai
isolado para a baliza e um defesa dá-lhe uma porrada por trás. O árbitro – o Veiga Trigo
– não marcou penálti e nós fomos protestar. Com o desnorte acabámos por perder o jogo
por 3 a 1 e as aspirações para ganhar o campeonato. Abrandámos.
E Manuel José foi despedido e substituído pelo inglês Keith Burkinshaw, que a
imprensa elogiava, numa fase inicial, por ser bastante comunicativo…
Não acho que ele fosse muito comunicativo. Aliás: de todos os treinadores ingleses que
eu tive no Sporting, ele era o menos comunicativo. Lembro-me do Allison como se
fosse hoje, o Hagan era… Ui… Um militar daqueles militares [cerra o punho]... Com o
Burkinshaw estive dois meses e lamento que ele não me tivesse deixado acabar a
carreira no Sporting, que era o que eu queria.
Quando soube que não ia continuar no Sporting para a temporada de 1987/88?
Estava de férias no Algarve, descansado, a pensar que ia começar a próxima época
quando li no jornal: “Burkinshaw: ‘Na próxima época o Manuel Fernandes vai jogar
pouco.’” Basicamente, já estava a dizer que não contava comigo. O que era aquilo?
Estava logo a inferiorizar-me perante os outros!
E depois?
Liguei para alguém do Sporting que me disse para não me preocupar. Passados oito dias
ainda deu uma pior.
A dizer?
“Manuel Fernandes, para o ano não conto com ele.”
Aí é que foi mesmo…
E eu disse que era um desgosto muito grande não acabar a minha carreira no Sporting.
Disse-o a ele?
A ele não. Com ele nunca mais falei. Falei com os dirigentes do Sporting, que depois
queriam a todo o custo que eu ficasse, mas eu disse que não ficava porque se amanhã as
coisas corressem mal, quem ia pagar tudo era o Manuel Fernandes, que já tinha 12 anos
de casa. Disse que me ia embora mas que ainda ia jogar mais um ano e que lhe ia
mostrar que ainda tinha capacidade para jogar.
E foi para o Vitória de Setúbal.
Após a segunda entrevista do Burkinshaw, o Fernando Oliveira [Presidente do V.
Setúbal] falou comigo: “Já viste o que ele disse outra vez?” “Já vi e podes contar
comigo.” Foi assim mesmo a conversa.
E ainda marcou ao Sporting.
E apontei o dedo para ele [Burkinshaw]. “Toma que é para saberes que eu ainda era útil
ao Sporting.” Festejei o golo, de raiva a ele. Ganhámos 2-1 e eu fui parar ao hospital por
causa de uma cabeçada do Virgílio. Nessa época marquei 22 golos no Vitória de Setúbal
e não joguei quase metade da época. Fui operado ao malar, tive duas roturas musculares.
Fiz 16 golos para o campeonato e seis para a Taça de Portugal.
No Vitória reencontrou Malcom Allison, com quem foi campeão em 1982. Como
era ele?
Não era nada táctico! Uma das virtudes dele era fazer com que um jogador vulgar
pensasse que era um grande jogador. Acabava por se superar. O Allison também nos
ensinou que para além do futebol também há uma vida e que, com regras, pode-se
conciliar as duas coisas. Quando estava no Sporting, ele treinava de manhã no dia a
seguir ao jogo e depois dava-nos folga. Nesse treino que antecedia a folga dizia-nos
para almoçarmos juntos, jantarmos juntos, cear juntos e até para irmos para a discoteca
juntos. Mas sempre com regras. Foi o treinador que mais me marcou.
Apesar disso, ele foi despedido do Sporting no início da época de 1982/83…
Sabe que o João Rocha foi um grande presidente! Tenho uma grande estima por ele e
um grande orgulho por ter sido meu presidente mas, como toda a gente, cometeu erros.
E penso que esse foi um dos erros que ele cometeu.
Em 1982 viveu-se um impasse directivo. O Sporting praticamente não tinha
presidente… Lembro-me que houve uma comissão de gestão e que quem esteve perto de nós foram o
Manolo Vidal e o José Manuel Torcato.
Foi no final dessa época que recebeu uma proposta do Benfica?
Foi. Houve duas vezes em que o Benfica me contactou. Uma foi através do Gaspar
Ramos e outra – a primeira – através do Romão Martins, que depois foi presidente da
Federação. Nós tínhamos sido campeões e como ele não queria que ninguém soubesse,
encontrou-me em Coina, num pinhal. Fui ter com ele e depois levou-me no carro dele.
Quando me disse o dinheiro que o Benfica me dava, tremi todo mas não vacilei.
Qual era a proposta?
Davam-me 30 mil contos na mão e um contrato de três anos. Era uma proposta
irrecusável, mas nunca aceitaria.
Então porque foi a esse encontro?
Por uma questão de princípio. Quando me convidam, vou sempre mesmo que seja para
dizer que não. Sempre fiz isso. Dessa vez perdi muito dinheiro. Ganhava muito menos e
não sei se ganhei aquilo nos anos todos em que joguei no Sporting. Não me estava a ver
com a camisola do Benfica. Disse-lhe que não ia mudar a minha vida…
Como acha que reagiriam os adeptos do Sporting se tivesse ido para o Benfica?
Acho que isso apagava tudo o que eu tinha feito pelo Sporting. E o que eu fiz é uma
coisa que vale mais do que dinheiro. Ser idolatrado por todos os sócios do Sporting e até
por jovens é uma grande recompensa.
Se fosse hoje, voltaria a recusar?
Voltava. Na altura também tive convites do estrangeiro. O Saragoça quis que eu fosse
para lá, nos Estados Unidos também me queriam quando o Cruijff e o Beckenbauer
foram para lá, mas o João Rocha nunca me deixou ir. E felizmente, até porque eu
também nunca tive espírito de aventureiro.
Só foi uma vez para o estrangeiro e como treinador.
Foi. Para a Angola. E enquanto puder não saio do meu país, porque sou uma pessoa de
família, com sentimentos e se puder estar no meu país com a minha família, estou. Mas
quando tive a proposta dos Estados Unidos, até cheguei a ir lá com o presidente João
Rocha. Quando o Keita e o Artur foram vendidos para o Tea Men, eu e o Jordão também
fomos lá para ser negociados. Só que o João Rocha, como bom negociante, conseguiu
vendê-los e trouxe-me a mim e ao Jordão. Depois é que me apercebi da coisa: nós
fomos como isco. O João Rocha não nos queria vender.
Como era a sua relação com Jordão e António Oliveira? Comentava-se que havia
uma luta de egos.
Era excelente. Dava-me bem com toda a gente. O Oliveira era um talento puro: nasceu
para jogar futebol e tudo tinha de ser à maneira dele e isso nem sempre cai bem num
grupo de trabalho. Ele, como era um talento por natureza, achava que não precisava de
treinar, mas do que foi dito na altura, muitas coisas não correspondiam minimamente à
verdade. Eu sou amigo do Jordão e conheço bem o Oliveira. São pessoas com
personalidades totalmente distintas e eu estava ali no meio. Mas nunca houve assim
nada do que se dizia.
Dizia-se…
Que não passávamos a bola uns aos outros e isso era tudo mentira. Todos passávamos a
bola e todos gostávamos de ganhar. Tínhamos equipa para ganhar três ou quatro
campeonatos seguidos, mas no ano seguinte a termos ganho o campeonato com o
Allison as coisas já não foram iguais. Tanto que o Oliveira foi para treinador/jogador.
Concordou com esse acumular de funções dele?
Olhe, já depois das coisas estarem consumadas houve uma pessoa que me perguntou se
eu concordava com isso. Disse-lhe que não tinha de dizer se concordava ou não. Se me
tivessem perguntado antes de decidirem, até teria dado a opinião. Depois disso, não
valia a pena. O que se passou foi que perdemos um jogador da qualidade do Oliveira.
Mas também jogava.
Mas um jogador dentro de campo não consegue pensar no que tem de fazer como
treinador. Há coisas que não têm sentido.
Qual foi o defesa mais complicado que defrontou?
Foram vários. Sabe que hoje o jogador de futebol é muito defendido. Antigamente, nós
não éramos nada defendidos. O pai do Bruno Alves [Washington Alves] era terrível. O
Bruno Alves ao pé dele é um santo! Devia ver o que era o pai do Bruno Alves a marcar
um avançado.
Que explicações encontra para nunca ter sido opção regular na selecção nacional?
Na época em que eu fui mais utilizado foi no apuramento para o Mundial da Argentina
[1978]. Joguei todos os seis jogos e só fui suplente num. Fiz seis golos nessa fase de
apuramento.
Devia ser suficiente para agarrar o lugar, não?
Pois, mas não foi. Havia outros jogadores e seleccionadores que gostavam mais de outro
tipo de jogadores. Hoje, analisando bem as coisas, também havia outros interesses,
porque o Benfica na altura tinha muita força. Mas havia grandes jogadores lá na frente:
o Nené, o Vítor Baptista, eu, o Gomes. Eram muitos jogadores com muita qualidade.
Mas havia jogadores que quando sabiam que iam ficar a suplentes, arranjavam uma
lesão. E isso eu nunca fiz! Fui sempre patriota.
Que jogadores eram? Do FC Porto e do Benfica?
De todos. Quando sentiam que não eram opção, arranjavam uma lesãozinha. Se calhar,
isso ainda acontece.
Sente que a actual selecção precisava de um Manuel Fernandes?
[Pausa] Neste momento, se analisarmos que o Hugo Almeida está a suplente no
Besiktas, que o Nuno Gomes não joga no Braga, que o Hélder Postiga está no Saragoça
e não tem grande rendimento, estou convencido que qualquer um dos jogadores que
mencionei fazia falta agora.
Em 1980 deixou de falar à imprensa depois de uma entrevista em que ‘cortou’ no
seleccionador, Mário Wilson. Achava que ele protegia muito os jogadores do
Benfica?
Sim, não tenho dúvidas nenhumas que ele protegia mais os jogadores do Benfica. Não é
que não tivessem valor, mas em caso de dúvida ele optava muito pelos jogadores do
Benfica. Nessa altura, em 79/80, estranhei que eu e o Jordão, que fazíamos muitos golos
no Sporting, nunca tivéssemos jogado juntos na selecção.
E em 1986 foi o melhor marcador do campeonato e, ainda assim, isso não foi
suficiente para ser seleccionado para o Mundial do México.
Quem fez isso [José Torres] já não está entre nós. Era uma pessoa divertida, que eu
estimava muito. Mas pronto. Se calhar eu fui culpado pela minha sinceridade por uma
frase que disse na televisão depois do primeiro jogo do campeonato contra o Penafiel,
em que eu marquei cinco golos [vitória do Sporting em Alvalade por 6-0]. Lembro-me
que a última pergunta que o jornalista da RTP me fez foi se eu ainda estava a pensar na
selecção. Não sei se ingenuamente ou se com muita sinceridade, disse que tinha 35 anos
e que, se calhar, o seleccionador estava a pensar chamar jogadores mais jovens e que,
por isso, não estava a pensar voltar a ser chamado. Mas nunca recusei ir à selecção!
Houve um aproveitamento?
Houve um aproveitamento e isso é que me chateou. Mas, para além desse jogo, levei o
ano todo a marcar golos e era mais que justo ter ido à selecção.
Deu graças a Deus por não ter ido ao Mundial e, por isso, ter sido poupado ao que
se passou em Saltillo?
Não, porque ir ao Mundial é sempre uma coisa única. Mas depois de tudo o que
aconteceu, se calhar, muitas das pessoas que lá estavam ficaram marcadas para o futuro
da selecção.
Terminou a carreira de futebolista no V. Setúbal, em 1988, e foi lá que iniciou uma
outra, como treinador. Também foi lá que conheceu José Mourinho.
Sim. O José Mourinho estava a treinar os juniores do Vitória no período em que eu
ainda era jogador. Depois, passei a treinador. Antigamente, havia um campeonato de
reservas e metade dos jogadores que jogavam nesse campeonato eram juniores.
Tínhamos reuniões juntos e eu observava-o a treinar. Foi aí que comecei a ver o trabalho
dele.
Já era o Mourinho que conhecemos?
Já via coisas extraordinárias nele, sim. A abordagem que ele tinha com os jovens, a
forma como treinava. Vi coisas interessantes nele. Depois, fui convidado para ir para o
Estrela da Amadora e comecei a pensar que precisava de um gajo para trabalhar comigo
e pensei naquele puto de 26 anos. Ainda era muito novo, mas depois fui falar com ele:
“Oh Zé! Eu vou para o Estrela e quero convidar-te para seres meu adjunto. O que é que
tu achas?” A resposta dele foi: “É para já!” Assim mesmo, sem hesitações. Depois,
saímos da Amadora. No princípio da época não tínhamos clube e em Novembro eu fui
para a Ovarense. E disse-lhe a ele que ia comigo, mas ele estava a dar aulas em Alhos
Vedros e não podia anular a matrícula. Eu disse-lhe para ir de 15 em 15 dias ver os meus
adversários a Viseu e a Castelo Branco. Ele disse que não havia problema e foi por ele
ter feito isso que, quando o Cintra me convidou para adjunto do Sporting, eu prometi ao
Mourinho que o levava comigo para o Sporting.
Já com o consentimento de Bobby Robson?
Já lhe tinha prometido antes. Depois de irmos contratar o Robson à Holanda, disse ao
presidente que tinha uma pessoa para trabalhar connosco e que era uma exigência
minha.
Sousa Cintra aceitava exigências facilmente?
Ele acreditava muito em mim. Quando lhe falei do José Mourinho, ele disse-me que eu
é que era o responsável se alguma coisa corresse mal. Aí, eu disse ao Zé para se
preparar e aí é que ele conheceu o Robson, que gostou do trabalho dele.
Em Dezembro de 1993, Bobby Robson é despedido depois de uma derrota para a
UEFA, por 3-0, com o Casino Salzburgo.
Sim. O presidente pediu ao comandante do avião para falar no micro e quando o avião
levantou fez um discurso. Quando o Robson ouviu o nome dele, disse-me assim:
“What?” “Calma mister, eu já lhe explico.” Eu não falo muito bem inglês, mas depois
do discurso disse-lhe: “Tomorrow, you, I, José…out!” “What? No.” O homem não
acreditava, até porque estávamos em primeiro no campeonato! Eu ainda continuei mais
oito dias, mas depois vim-me embora. Já não estava com cabeça para estar lá. Isso
meteu o Queiroz e nem vale a pena falar.
Sousa Cintra era um presidente com o coração perto da boca? É que ele já
assumiu por diversas vezes que um dos maiores erros que cometeu foi ter demitido
Bobby Robson.
Foi um bom presidente, mas ao redor do Sousa Cintra havia pessoas que pensavam que
sabiam muito de futebol. E isso levou-o a tomar algumas decisões das quais se
arrepende hoje.
Depois do Sporting foi para o Campomaiorense. Como era aquele clube?
Um espectáculo! Campo Maior foi um sítio onde eu me senti como se estivesse em
casa. No meio de uma família. Terra pequena, de gente humilde, trabalhadora e que
gosta de futebol e do clube da terra. Lembro-me como se fosse da minha ida para o
Campomaiorense: o presidente João Nabeiro telefonou-me a dizer que queria jantar
comigo em Évora para me fazer uma proposta para treinar o clube. O Campomaiorense
estava em último na Liga de Honra.
E como é que descobriu o Jimmy [Hasselbaink, ponta-de-lança holandês que mais
tarde viria a notabilizar-se em Inglaterra, ao serviço de Leeds e Chelsea]?
Quando subimos à I Divisão, eu precisava de um bom avançado de área. Entretanto,
uma semana antes do campeonato começar um empresário que estava na Holanda disseme
que tinha um holandês forte. Eu disse-lhe: “Nem é tarde, nem é cedo. Amanhã, levao
ao Estoril para ele jogar às 3 da tarde num jogo-treino.” Quando chegámos ao Estoril
eu até disse ao chauffer da camioneta para ver se via o holandês grande de brincos e
cabelo comprido loiro. Ele não viu ninguém. Depois, o meu adjunto disse que estava lá
um gajo forte com uma mala. Era ele!
E conseguiu convencê-lo a ficar no plantel.
No primeiro minuto falhou logo um golo em cima da linha.
Não foi um bom cartão-de-visita.
Mas não é por aí que eu vejo os jogadores. Depois, teve ali três ou quatro bons
pormenores e perguntei ao presidente se ele podia ir uma semaninha para Campo Maior.
Foi e na terça-feira fomos fazer um jogo a Beja. Bem… vi-o fazer com cada coisa que
pedi ao presidente para assinar logo com ele. Só jogou um ano em Campo Maior e daí
foi sempre a subir.
A meio da época 2000/01 substituiu Augusto Inácio no Sporting, mas Mourinho foi
a primeira escolha. O que se passou?
Eu estava no Santa Clara. Íamos em primeiro na Divisão de Honra com cinco ou seis
pontos de avanço sobre o segundo. O doutor Luís Duque ligou-me a dizer que tinha de
ir para o Sporting imediatamente. Eu disse-lhe que tinha de falar primeiro com as
pessoas do Santa Clara, que estavam a tratar-me como um príncipe. Nem lhes conseguia
explicar o que se tinha passado, mas perceberam logo o que se estava a passar. Viram
logo que era o Sporting. Eu disse que só ia se me dessem autorização.
Mas para ser tão urgente, já teria falhado o negócio com Mourinho?
Isso aí não sei. É possível que já tivesse falhado. Eu fui para o Sporting às cegas. Sem
contrato, sem nada. Porque era o Sporting. Nunca fiz contrato com o Sporting e a seguir
a um jogo em que nós ganhámos 3-0 ao Benfica vim a saber que não ficava.
Quando chegou ao Sporting sentiu que era um treinador a prazo?
Não. Quando cheguei, o doutor Luís Duque garantiu-me que ficava uma época e meia.
Mas duas semanas depois de eu chegar ele foi-se embora.
Nessa vitória por 3-0 sobre o Benfica, o Sporting esbanjou muitas oportunidades
de golo.
Era um jogo histórico!
Chegou a sentir que o resultado de 1986 podia repetir-se?
À vontade!
Ao longo da sua carreira de treinador subiu de divisão o Campomaiorense, o Santa
Clara, o Penafiel e a U.Leiria.
E o Santa Clara não foi só uma vez…
Certo. Mas a que sabe uma subida de divisão? É tão bom como ganhar um
campeonato?
É uma vitória, um objectivo atingido. E esses feitos dão ainda mais gozo quando são
atingidos quando não esperamos. Foi o caso da U. Leiria, que eu peguei abaixo da linha
de água e acabámos por subir. Isto dá ainda mais gozo, percebe?
Sim.
Eu quando vou para um clube entrego-me de alma e coração e em Campo Maior tive
um sentimento, nos Açores tive outro sentimento…
E em Setúbal, de onde saiu de um modo pouco amigável?
Em Setúbal, o que mais me entristeceu não foi o ter saído, mas a forma como saí.
Havia adeptos à porta do estádio a pedir a sua demissão.
As pessoas que lá estavam não são adeptos do Vitória. As pessoas do Vitória estimam o
Manuel Fernandes. As pessoas sabem quem é aquele tipo de adeptos. São adeptos de
ocasião. Eu fiz sempre trabalhos excelentes no Vitória e na minha última passagem safei
o clube de descer de divisão num ano que tínhamos aquela que era considerada a pior
equipa do século. O Vitória é passado…
Ambiciona voltar a treinar?
Não. Para já, tenho como objectivo terminar a minha carreira no Sporting.
O que faz, concretamente, no Sporting?
Neste momento sou um assessor da SAD, ligado ao doutor Luís Duque e estou a
analisar a competência daqueles jogadores que estão emprestados pelo Sporting a outras
equipas.
São muitos.
Muitos. Já fui ver o Renato Neto à Bélgica.
Foi você que deu o aval para o seu regresso?
Falei com as pessoas com quem tinha que falar, mas não passa só por um. Dei a minha
opinião sobre o jogador. Fui um conselheiro. Também já fui ver o Salomão, o Juary…
Daqui a um mês ou dois tenho um relatório para entregar.
Teve algum peso na construção da equipa para esta época?
Não, não. Foi o Carlos Freitas, o Domingos e o doutor Luís Duque.
A época está a corresponder às expectativas? É que já se esperava que fosse um
ano de transição, devido ao elevado número de novos jogadores.
Este era um ano em que nós pensávamos que as coisas iam ser difíceis. Havia muito
vícios montados e, então, esta mudança era necessária, mas as coisas não podiam ser
feitas do pé para a mão. Esta equipa está em formação e temos jovens que amanhã serão
muito melhores jogadores do que aquilo que são hoje. Vão conhecer melhor o futebol
português e o estilo de jogo que o treinador defende. Para o ano o Sporting não precisa
de fazer aquilo que fez este ano. Penso que o Domingos sabe aquilo que é preciso. Basta
contratar bem dois ou três jogadores e o Sporting poderá equiparar-se aos dois que estão
à nossa frente.
Este ano é que já será tarde…
O Sporting tem de pensar sempre no título, mas tem naturalmente menos probabilidades
do que os rivais. Já sabíamos isso desde o princípio.
Godinho Lopes é o homem certo para recolocar o clube na senda das vitórias?
Penso que sim. Foi uma surpresa para mim, até porque não o conhecia. O Discurso dele
cativou-me. Foi um discurso sério e nada utópico. Não tive dúvidas em apoiá-lo porque
foi logo a minha primeira opção quando ouvi outros candidatos. Falei com alguns, mas
o engenheiro Godinho Lopes teve um discurso honesto, transparente e realista. Penso
que vai fazer um grande trabalho no Sporting.
O que acha das críticas recentes do candidato derrotado, Bruno de Carvalho?
Há muita gente que está à espera que o Sporting tenha insucesso para tentar
desestabilizar. Mas não têm conseguido, porque estamos num bom caminho. Era
importante ganharmos a Taça de Portugal este ano e irmos à Liga dos Campeões.
Sei que é contra a ida de jogadores do Sporting para emblemas rivais. Viu alguns
colegas partirem e chegarem para / de clubes rivais.
São opções que se tomam. Se analisarmos as coisas, ninguém fica mais rico por mudar
de clube. Se for para o estrangeiro, é outra coisa. Aí, uma pessoa vai orientar-se
financeiramente. Aqui, as diferenças entre Benfica, Sporting e FC Porto são pequenas e
mais tarde vai-se ver que não valia a pena. Tenho uma opinião muito vincada em
relação à ida de figuras de clubes para rivais. Eu hoje tenho orgulho em ser uma figura
do Sporting, mas só o sou porque fiquei. Porque se tenho ido, não o seria.
O João Moutinho era uma figura do Sporting. Talvez a principal figura.
Lá está. Foi uma opção que ele tomou. Penso que mais tarde é que verá se valeu ou não
a pena. Naturalmente que o João Moutinho foi ganhar mais para o FC Porto e pode
argumentar que já ganhou o campeonato. Mas terá de lidar com as consequências da
opção que tomou.
O que quer dizer com isso?
Que não pode ser figura do Sporting e figura do FC Porto em simultâneo. Até pode nem
vir a ser de nenhum. Do Sporting não vai ser porque os sportinguistas estão
naturalmente chateados com ele. É um miúdo extraordinário, mas tomou uma opção que
daqui a uns anos terá as suas consequências em relação ao Sporting.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Izmaquê?
Bem sei que a fotografia da esquerda pode ferir susceptibilidades, contudo não é isso que me trás aqui. O que eu gostava mesmo de saber é como é que se escreve o raio do nome do russo que agora veste de azul e branco, porra!
E será que é izma ou Izma?
Uma espécie de barba e cabelo
No Facebook, dois indivíduos comentam o primeiro jogo de Jesualdo Ferreira à frente dos leões, que culminou numa vitória diante do Paços de Ferreira para a Taça da Liga.
- Já marcam e tudo.
- O Sporting?
- Sim senhor.
- Quem marcou?
- O Lobo (Wolfswinkel)
- O do costume.
- Mas os locutores dizem que o jogo foi uma merda.
- Também é o do costume...
- Já marcam e tudo.
- O Sporting?
- Sim senhor.
- Quem marcou?
- O Lobo (Wolfswinkel)
- O do costume.
- Mas os locutores dizem que o jogo foi uma merda.
- Também é o do costume...
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Onde te foste meter, Jesualdo!
Nada tenho a dizer sobre a crise no Sporting. Não é notícia. Jesualdo Ferreira, pese embora todo o peso que o seu nome tem no futebol português, é apenas o novo treinador do Sporting, o quarto em menos de meia época. Resta saber até quando.
Sim, porque desengane-se quem pensa que o professor vai recolocar o Sporting na senda dos triunfos. Porque nunca teve sucesso em grandes instáveis (ex.: Benfica e Panathinaikos) e porque a génese da crise no reino do leão não é puramente futebolística.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Gravidez
Assunção Cristas, a ministra mais bonita do Executivo (é escolher entre ela e Paula Teixeira da Cruz) está à espera do quarto filho. O nosso Governo tanto se fartou de f.... os portugueses que acabou por engravidar.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
A espiral recessiva
Pode soar a ridículo dito por um puto de 24 anos, mas eu "ainda sou do tempo" em que muitos leitores se davam ao trabalho de enviar e-mails para as redacções das revistar apenas com o propósito de reclamar do excesso de páginas de publicidade.
Nas revistas masculinas, então, era o pão nosso de cada dia. Para o provar, e sem páginas coladas, tenho à minha frente uma Maxmen de Abril de 2008 (capa de Joana Duarte). Nessa altura, os tempos já não eram os melhores, mas, ainda assim, 37 das 148 páginas da revista não traziam outra coisa que não publicidade. Refira-se ainda que nesta breve consulta resolvi não contabilizar 'pubs' de 1/3 de página ou de meia página, que não eram assim tão poucas para merecerem o meu desprezo.
Ora, dediquei-me a comparar essa revista com a mais recente que tenho nos meus arquivos - a Maxim de Abril de 2012 - sim, confesso que as revistas masculinas não têm ganho muito dinheiro à minha pala. Tirando as publicidades travestidas de artigos, a edição, com 132 páginas e Bárbara Norton de Matos na capa, tem apenas nove (9) páginas de publicidade.
Que o mercado da publicidade está a definhar, já toda a gente sabe. E não está a definhar apenas na redução de páginas com anúncios, mas também no preço pago por página.
Portanto, menos fontes de receita levam a despedimentos; despedimentos significa redução do número de jornalistas; redução do número de jornalistas conduz ao aumento do volume de trabalho per capita; aumento do volume de trabalho tem reflexos na qualidade jornalística; qualidade jornalística mais baixa provoca quebras de vendas; quebras de vendas obrigam ao fecho de edições.
Será que a isto se pode chamar "espiral recessiva", senhor Presidente?
Nas revistas masculinas, então, era o pão nosso de cada dia. Para o provar, e sem páginas coladas, tenho à minha frente uma Maxmen de Abril de 2008 (capa de Joana Duarte). Nessa altura, os tempos já não eram os melhores, mas, ainda assim, 37 das 148 páginas da revista não traziam outra coisa que não publicidade. Refira-se ainda que nesta breve consulta resolvi não contabilizar 'pubs' de 1/3 de página ou de meia página, que não eram assim tão poucas para merecerem o meu desprezo.
Ora, dediquei-me a comparar essa revista com a mais recente que tenho nos meus arquivos - a Maxim de Abril de 2012 - sim, confesso que as revistas masculinas não têm ganho muito dinheiro à minha pala. Tirando as publicidades travestidas de artigos, a edição, com 132 páginas e Bárbara Norton de Matos na capa, tem apenas nove (9) páginas de publicidade.
Que o mercado da publicidade está a definhar, já toda a gente sabe. E não está a definhar apenas na redução de páginas com anúncios, mas também no preço pago por página.
Portanto, menos fontes de receita levam a despedimentos; despedimentos significa redução do número de jornalistas; redução do número de jornalistas conduz ao aumento do volume de trabalho per capita; aumento do volume de trabalho tem reflexos na qualidade jornalística; qualidade jornalística mais baixa provoca quebras de vendas; quebras de vendas obrigam ao fecho de edições.
Será que a isto se pode chamar "espiral recessiva", senhor Presidente?
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Chávez e o Magalhães
No preciso momento em que redijo este texto, a vida de Hugo Chávez, Presidente da Venezuela, está dependente de uma falha de luz. Informa o jornal espanhol ABC que Chávez, de 58 anos, está em coma induzido. Portanto, ligado a uma máquina para sobreviver.
A confirmar-se o seu desaparecimento, a recessão da economia portuguesa pode acentuar-se em 2013. Afinal, trata-se do maior fã - e cliente - do portuguesinho portátil Magalhães.
Ironias à parte, faço votos para que Chávez ganhe esta luta e que tenha feito a Deus a promessa de instaurar uma democracia a sério na República Bolívariana da Venezuela. Faz falta gente que tenha os cojones no sítio quando se trata de enfrentar os poderosos do Mundo.
A confirmar-se o seu desaparecimento, a recessão da economia portuguesa pode acentuar-se em 2013. Afinal, trata-se do maior fã - e cliente - do portuguesinho portátil Magalhães.
Ironias à parte, faço votos para que Chávez ganhe esta luta e que tenha feito a Deus a promessa de instaurar uma democracia a sério na República Bolívariana da Venezuela. Faz falta gente que tenha os cojones no sítio quando se trata de enfrentar os poderosos do Mundo.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Meteoritos caem em Grândola
Fotografias de crateras na estrada e uma mensagem, toda ela em caixa alta. Aquele outdoor na saída Norte da vila estava a intrigar-me há umas semanas. Parece que a Câmara de Grândola vai processar a Estradas de Portugal (EP) por não ter cumprido o acordo que celebrou com a autarquia aquando das obras para a realização de um dos troços (Lanço A) do IP8/A26. A EP comprometia-se a repor as condições das vias que fossem danificadas devido aos trabalhos naquele troço - só não sei é se o faria quando a obra fosse acabada, porque está visto que, muito possivelmente, esse cenário não se verificará.
A suspensão dos trabalhos, atribuídos à Estradas da Planície, sub-concessionária da EP, foi anunciada há alguns meses. No comunicado, que pode ser consultado no portal da Estradas de Portugal, a empresa frisa que a decisão permitirá poupar mais de 300 milhões de euros.
Esqueceu-se, porém, de endereçar um pedido de desculpas às famílias expropriadas e aos utentes que circulam (ou circulavam) regularmente numa das estradas que liga Azinheira dos Barros (e outras localidades) a Grândola.
Hoje, dia 1 de Janeiro, resolvi ver in loco aquilo que já tinha observado em fotografias. A seguir aos Mosqueirões, uma trepidação anormal apoderou-se do automóvel. No entroncamento para os Barros, e enquanto prosseguia o meu ziguezagueado constante, encontrei um outdoor igual ao que referi acima. Aí, o pavimento é digno de fazer frente às piores estradas dos países terceiro mundistas. É como se o fim do Mundo tivesse ali começado para ser, pouco depois, abortado. Por falta de verbas.
Depois de ler uma placa que indicava que a estrada se encontrava danificada numa extensão de dez quilómetros, aconselhou a prudência que procedesse a uma inversão de marcha e me pusesse na alheta.
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