terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O (des)controlo da vida

O 28 Minutos de Vida, com José Alberto Carvalho e Manuel Forjaz, é um daqueles programas televisivos capazes de arrepiar até o ser mais insensível. Porque, através da imagem daquele homem, aprendemos que a vida não passa de um pórtico. Abre-nos e estorva-nos os caminhos. Baralha-nos os planos. Sacode-nos a qualquer instante. É aí, então, que o que damos por garantido se torna inverossímil. E que tudo adquire um novo sentido nas nossas vidas.

Manuel Forjaz é um homem aparentemente forte. Não fosse o facto de sabermos que é um homem gravemente doente e arriscaríamos dizer que era um indivíduo cheio de saúde. Seguro nas palavras e sem medo do futuro. Nem da morte.

Ao ver o segundo programa, há cerca de duas semanas, fui projectado para uma conversa que mantive em Dezembro com alguém que batalha até ao fim dos seus dias contra uma outra doença, não tão sacana para o corpo, mas altamente impiedosa para a mente. Como o Forjaz, J. não faz planos para o futuro. Já os fez, mas descobriu que é impossível prever onde está o penhasco da vida. O lugar, a data e a hora em que todos vamos cair dele abaixo.

Todos os dias, J. dá mais um passo. Um passo que o aproxima do fim. Que pode chegar amanhã ou dentro de 20 anos. Como Forjaz, também ele vive rodeado de fantasmas. Na impossibilidade de os fechar num baú, ou de os sacudir para bem longe, aprendeu a viver com eles. Convida-os para jantar, abre-lhes a porta de casa e partilha com eles o guarda-chuva. São eles que o lembram do homem que já foi. Do homem que deixou de ser, mas que ainda habita dentro dele. Um alter-ego recalcado, empedernido, sedento de regressar à superfície e retomar o controlo da vida de J.

Mas J. tem armas para o combater. Todos os dias vence uma batalha. Já lá vão sete anos. Mais de 2500 batalhas, portanto.

"Deixei de pensar no futuro. Na viagem que vou fazer daqui a um ano, no próximo carro que vou comprar ou no que vou comer no dia a seguir. Pensar no futuro deixa-me inquieto, em guerra comigo próprio. Não tenho medo do futuro. Sei qual vai ser o meu e vivo bem com essa certeza", disse-me sem pestanejar. Permaneci em silêncio durante a maior parte da conversa, a escutar a aula que aquele homem me estava a dar. Mais valiosa do que todos os neurónios que queimamos a ler livros sobre tudo menos o sentido da vida.

Nesse dia, conversei com ele durante cerca de uma hora. Despedimo-nos com um abraço. Senti que tinha levado um murro no estômago. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. J. deixou-me K.O, embalado pela contagem do juiz. Entrei no carro e conduzi-o, devagar, até Lisboa. Como ele, também eu evito pensar no futuro. Recuso-me a responder quando me perguntam como imagino a minha vida daqui a dez anos. Mas será por coragem?

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