Nos últimos dias soube-se que o grupo Cofina vai começar a fazer testes de alcoolemia aos seus funcionários. Para o grupo Cofina, detentor de respeitáveis títulos como o Correio da Manhã, a TVGuia e a Flash (a Sábado, o Negócios e o Record ainda vão pertencendo a outro ecossistema), é mais importante saber se um jornalista bebeu ao almoço do que zelar pelo interesse público do jornalismo que é praticado naquele grupo.
Ferreira Fernandes, jornalista conceituado, lembrou esta sexta-feira, no seu espaço de opinião no DN, a capa que o Correio da Manhã (uma referência ética, sem dúvida) fez no dia anterior. Ao que parece, o progenitor do jogador do Sporting, Carlos Mané, é traficante. Por isso, toca de fazer manchete com o Carlos Mané, que é filho de um traficante, à semelhança de muitas outras centenas ou, sabe-se lá (?), de milhares de jovens neste país.
Escreve ainda Ferreira Fernandes que as manchetes deste jornal são alcoólicas e que são produzidas por jornalistas sóbrios. Ora, se os jornalistas estão sóbrios quando fazem este tipo de manchetes, então o caso é mais grave: não se pode culpar a garrafa de tinto que (não) beberam ao almoço nem o mata-bicho de (não) puseram goela-abaixo logo pela manhã pelo jornalismo de sarjeta que ontem teve direito a manchete no jornal mais vendido em Portugal.
Eu cá, continuo a acreditar que só mesmo com um pifo dos antigos em cima é que um jornalista é capaz de esgalhar - mandar fazer ou dar luz verde para publicar - um texto daqueles. É preciso coragem que não se tem quando se está sóbrio.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Um pouco sobre mim
Como a grande maioria das 7 mil milhões de almas que habitam este pedaço de terra e mar tenho dificuldades em lidar com a crítica. Houve tempos em que o sangue me subia à cabeça. Em que cerrava os dentes para evitar que o vernáculo jorrasse sem pedir licença. E às vezes saía.
Com 25 anos (e poucos anos fazem muita diferença quando somos novos), aprendi a domar alguns defeitos de carácter. Do filho da puta do gajo que ousou apontar-me defeitos, passei a questionar-me, embaraçado, por que é que insisto em cometer os mesmos erros. Aquele sujeito continua a ser um filho da puta mas reconheço que, se calhar, é um filho da puta com razão.
Talvez um dia deixe de o considerar como tal.
Com 25 anos (e poucos anos fazem muita diferença quando somos novos), aprendi a domar alguns defeitos de carácter. Do filho da puta do gajo que ousou apontar-me defeitos, passei a questionar-me, embaraçado, por que é que insisto em cometer os mesmos erros. Aquele sujeito continua a ser um filho da puta mas reconheço que, se calhar, é um filho da puta com razão.
Talvez um dia deixe de o considerar como tal.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Senhor Coluna
Tive o privilégio de entrevistar Mário Coluna nos primeiros meses de 2011, algumas semanas antes de se assinalaram os 50 anos da primeira Taça dos Campeões Europeus ganha pelo Benfica. Falei com a sua filha, Lourdes, que me cedeu o contacto do pai, a viver no bairro de Sommerschield, em Maputo. Como a conversa ia ser longa, liguei previamente para o senhor Coluna, para agendar a entrevista. Identifiquei-me ao Monstro Sagrado. Ele, que já era sagrado no Benfica antes de Eusébio se dar a conhecer a Portugal e ao mundo. Combinámos a entrevista para o dia seguinte, às 15 horas de Portugal, mais duas (salvo erro) em Moçambique. «Obrigado, senhor Coluna. E até amanhã.»
Lembro-me que dois colegas de redacção se riram de mim. Da minha reverência para com o senhor Coluna. «Senhor» era a palavra que lhes causava uma certa espécie. Ora, se Eusébio sempre tratou Coluna por «senhor», quem era eu para lhe chamar Mário? Ou simplesmente Coluna?
Durante a entrevista, perguntei ao senhor Coluna como estava de saúde. Respondeu-me que o coração estava bom e que só tinha dores quando havia mudança de tempo.
Desde domingo que o senhor Coluna travava mais uma batalha. Foi a última.
Em baixo, a entrevista publicada na edição 606 da revista Focus, resultado de uma conversa de uma hora e meia ao telefone.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
O (des)controlo da vida
O 28 Minutos de Vida, com José Alberto Carvalho e Manuel Forjaz, é um daqueles programas televisivos capazes de arrepiar até o ser mais insensível. Porque, através da imagem daquele homem, aprendemos que a vida não passa de um pórtico. Abre-nos e estorva-nos os caminhos. Baralha-nos os planos. Sacode-nos a qualquer instante. É aí, então, que o que damos por garantido se torna inverossímil. E que tudo adquire um novo sentido nas nossas vidas.
Manuel Forjaz é um homem aparentemente forte. Não fosse o facto de sabermos que é um homem gravemente doente e arriscaríamos dizer que era um indivíduo cheio de saúde. Seguro nas palavras e sem medo do futuro. Nem da morte.
Ao ver o segundo programa, há cerca de duas semanas, fui projectado para uma conversa que mantive em Dezembro com alguém que batalha até ao fim dos seus dias contra uma outra doença, não tão sacana para o corpo, mas altamente impiedosa para a mente. Como o Forjaz, J. não faz planos para o futuro. Já os fez, mas descobriu que é impossível prever onde está o penhasco da vida. O lugar, a data e a hora em que todos vamos cair dele abaixo.
Todos os dias, J. dá mais um passo. Um passo que o aproxima do fim. Que pode chegar amanhã ou dentro de 20 anos. Como Forjaz, também ele vive rodeado de fantasmas. Na impossibilidade de os fechar num baú, ou de os sacudir para bem longe, aprendeu a viver com eles. Convida-os para jantar, abre-lhes a porta de casa e partilha com eles o guarda-chuva. São eles que o lembram do homem que já foi. Do homem que deixou de ser, mas que ainda habita dentro dele. Um alter-ego recalcado, empedernido, sedento de regressar à superfície e retomar o controlo da vida de J.
Mas J. tem armas para o combater. Todos os dias vence uma batalha. Já lá vão sete anos. Mais de 2500 batalhas, portanto.
"Deixei de pensar no futuro. Na viagem que vou fazer daqui a um ano, no próximo carro que vou comprar ou no que vou comer no dia a seguir. Pensar no futuro deixa-me inquieto, em guerra comigo próprio. Não tenho medo do futuro. Sei qual vai ser o meu e vivo bem com essa certeza", disse-me sem pestanejar. Permaneci em silêncio durante a maior parte da conversa, a escutar a aula que aquele homem me estava a dar. Mais valiosa do que todos os neurónios que queimamos a ler livros sobre tudo menos o sentido da vida.
Nesse dia, conversei com ele durante cerca de uma hora. Despedimo-nos com um abraço. Senti que tinha levado um murro no estômago. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. J. deixou-me K.O, embalado pela contagem do juiz. Entrei no carro e conduzi-o, devagar, até Lisboa. Como ele, também eu evito pensar no futuro. Recuso-me a responder quando me perguntam como imagino a minha vida daqui a dez anos. Mas será por coragem?
Manuel Forjaz é um homem aparentemente forte. Não fosse o facto de sabermos que é um homem gravemente doente e arriscaríamos dizer que era um indivíduo cheio de saúde. Seguro nas palavras e sem medo do futuro. Nem da morte.
Ao ver o segundo programa, há cerca de duas semanas, fui projectado para uma conversa que mantive em Dezembro com alguém que batalha até ao fim dos seus dias contra uma outra doença, não tão sacana para o corpo, mas altamente impiedosa para a mente. Como o Forjaz, J. não faz planos para o futuro. Já os fez, mas descobriu que é impossível prever onde está o penhasco da vida. O lugar, a data e a hora em que todos vamos cair dele abaixo.
Todos os dias, J. dá mais um passo. Um passo que o aproxima do fim. Que pode chegar amanhã ou dentro de 20 anos. Como Forjaz, também ele vive rodeado de fantasmas. Na impossibilidade de os fechar num baú, ou de os sacudir para bem longe, aprendeu a viver com eles. Convida-os para jantar, abre-lhes a porta de casa e partilha com eles o guarda-chuva. São eles que o lembram do homem que já foi. Do homem que deixou de ser, mas que ainda habita dentro dele. Um alter-ego recalcado, empedernido, sedento de regressar à superfície e retomar o controlo da vida de J.
Mas J. tem armas para o combater. Todos os dias vence uma batalha. Já lá vão sete anos. Mais de 2500 batalhas, portanto.
"Deixei de pensar no futuro. Na viagem que vou fazer daqui a um ano, no próximo carro que vou comprar ou no que vou comer no dia a seguir. Pensar no futuro deixa-me inquieto, em guerra comigo próprio. Não tenho medo do futuro. Sei qual vai ser o meu e vivo bem com essa certeza", disse-me sem pestanejar. Permaneci em silêncio durante a maior parte da conversa, a escutar a aula que aquele homem me estava a dar. Mais valiosa do que todos os neurónios que queimamos a ler livros sobre tudo menos o sentido da vida.
Nesse dia, conversei com ele durante cerca de uma hora. Despedimo-nos com um abraço. Senti que tinha levado um murro no estômago. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. J. deixou-me K.O, embalado pela contagem do juiz. Entrei no carro e conduzi-o, devagar, até Lisboa. Como ele, também eu evito pensar no futuro. Recuso-me a responder quando me perguntam como imagino a minha vida daqui a dez anos. Mas será por coragem?
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Luciano, o sportinguista (?) inveterado
Luciano está um homem diferente. Hoje não houve notícias durante o dia. "Ao almoço tinha a televisão na SIC Mulher", conta um freguês. São 6 da tarde e a azia continua. Trocou o balcão, onde se movimenta como poucos, pela cozinha, onde finge estar ocupado, a pôr, lentamente, sobremesas em taças. Na sua ausência, é Caetano, o cozinheiro, quem avia a clientela.
Timidamente, Luciano sai da toca. "Parabéns, ganharam bem!", diz, sem tempo de lhe vermos o semblante. Começa a falar-se do dérbi do dia anterior. Ainda que combalido pela lição da noite anterior, Luciano junta-se à discussão. Afinal, a paixão pela bola fala sempre mais alto. Atira a toalha ao chão. Reconhece que o campeonato está perdido. Foi bom enquanto durou, alega.
- E agora, senhor Luciano? Como é que vai ser?
- Agora? Agora vou torcer pelo Porto.
- Então e quando o Sporting os receber para o campeonato?
- Vou torcer pelo Porto.
- Então mas você não é do Sporting?
- Sou, mas não sou de Lisboa. Sou do Norte.
Timidamente, Luciano sai da toca. "Parabéns, ganharam bem!", diz, sem tempo de lhe vermos o semblante. Começa a falar-se do dérbi do dia anterior. Ainda que combalido pela lição da noite anterior, Luciano junta-se à discussão. Afinal, a paixão pela bola fala sempre mais alto. Atira a toalha ao chão. Reconhece que o campeonato está perdido. Foi bom enquanto durou, alega.
- E agora, senhor Luciano? Como é que vai ser?
- Agora? Agora vou torcer pelo Porto.
- Então e quando o Sporting os receber para o campeonato?
- Vou torcer pelo Porto.
- Então mas você não é do Sporting?
- Sou, mas não sou de Lisboa. Sou do Norte.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Ser jornalista
A minha experiência como jornalista é tão curta que ainda hoje (com carteira profissional há cerca de três anos) sinto algum pejo em considerar-me jornalista. Sei, também, que há muita gente por aí que se considera jornalista à boca-cheia, não obstante o facto de as suas funções se limitarem a pescar notícias já redigidas em sites ou agências internacionais e pouco mais.
Ser jornalista é fazer coisas de raiz; andar numa corda-bamba sem rede por baixo, correndo o risco de ferir outros e, também, de se ferir a si mesmo. É espreitar aquele beco recôndito mesmo quando todos nos dizem que o que procuramos é impossível ali estar.
É tentar evitar clichés, frases-feitas e metáforas batidas como esta da corda-bamba sem rede por baixo.
É tentar que as nossas frases um dia venham a resistir entre aquelas que ficaram. Na história.
PS: Ser jornalista é muito mais do que isto. Vou tentando descobrir.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Adicções (parte 1)
"Adicto: Que ou quem depende de algo."
Esta definição está no dicionário priberam. É simplista, mas será a definição curta que mais se aproxima da realidade.
Faz parte da nossa natureza criticarmos o que não compreendemos. Muitas vezes, nem nos esforçamos para nos adaptarmos. Requer alguma paciência, cedências até. Dá trabalho, portanto.
A nossa tolerância para com as adicções dos outros depende da nossa abertura de espírito. Muitas vezes, a predisposição para lidarmos com a diferença gera-se bem cedo. É-nos incutida pelo núcleo familiar e lapidada através das nossas experiências em sociedade.
Em muitos casos, só compreendemos a diferença no mais difícil dos contextos: quando entramos por esse terreno. Ninguém escolhe ser dependente de algo/alguém por opção. É assim no tabaco, no álcool, no jogo, no sexo ou no amor.
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