quinta-feira, 28 de março de 2013

Sócrates

A entrevista de José Sócrates à RTP mostrou uma vez mais as razões pelas quais a sua relação com a classe jornalística esteve sempre longe de ser saudável. Para além das tentativas que empreendeu, enquanto primeiro-ministro, no sentido de limitar aquilo que os OCS traziam a público, sempre foi insuportável para qualquer entrevistador. Sócrates é um manipulador nato. Manipulou os portugueses em duas eleições (não pretendo alongar-me sobre este assunto) e manipula qualquer entrevista. Não é por acaso que Judite Sousa disse recentemente que o antigo PM foi o político mais difícil que teve pela frente ou que Paulo Ferreira e Vítor Gonçalves, dois grandes jornalistas, foram incapazes de conduzir a conversa. Também estes foram batidos aos pontos por um Sócrates ardiloso e sagaz. Como sempre.

Uma entrevista de José Sócrates é mais ou menos assim:

- Senhor engenheiro, não acha que...
- Deixe-me terminar o meu raciocínio anterior...

- Não acha que cometeu erros graves durante a sua governação?
- Antes de lhe responder a essa pergunta, deixe-me frisar alguns aspectos que considero relevantes...

- Os erros graves, senhor engenheiro.
- Vamos lá a ver [e ele usa esta expressão muuuuuuuiitas vezes]. Há assuntos muito mais importantes do que isso. Como por exemplo, ...

E nisto passam-se 90 minutos.

Sócrates é um tacticista por excelência. Mestre na arte de queimar tempo. Sabia que durante uma hora e meia lhe seriam feitas muitas perguntas, algumas inconvenientes, que o encostariam à parede. Mas ele escapa-se por entre os dedos de qualquer jornalista. Não se recusa a responder a nenhuma pergunta. Finta-as uma, duas, enfim, as vezes que forem necessárias para vencer dois jornalistas - que têm o tempo contado e, portanto, a missão de colocar outras perguntas - pelo cansaço. E ele sabe gerir como ninguém as diversas fases de uma maratona.

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