quinta-feira, 7 de março de 2013

Insólitos no futebol

A Sábado desta semana traz um artigo com histórias de jogadores e treinadores portugueses que se fazem à vida naqueles que muitos consideram países terceiro-mundistas em termos futebolísticas. Os episódios são caricatos e vão desde o jogador que foi apanhado a cortar as unhas no banco de suplentes ao que perdeu o avião e passou dez horas num autocarro com galinhas.
Ao ler o artigo, lembrei-me de um trabalho, não muito diferente, que fiz há cerca de ano e meio. As diferenças: optei por reunir histórias insólitas de treinadores (só treinadores) portugueses na Ásia (só na Ásia). Falei com Ricardo Formosinho, José Rachão, Rui Almeida, Henrique Calisto, Helena Costa e com o grande Toni. As histórias, insólitas, espelham bem as diferenças - culturais, religiosas, organizacionais, etc. - entre esses países e o Ocidente. 
Helena Costa (no Qatar) foi confundida com a modelo e actriz com o mesmo nome e correu sérios riscos de ser despedida logo no primeiro dia, Formosinho ficou a saber que os jogadores não comiam banana em dias de jogo - caso o fizessem, parece que os espíritos se encarregariam de os fazer escorregar em campo -, Rui Almeida, numa Síria em estado de sítio, chegou a esperar três dias pelos jogadores no local de estágio e Calisto comeu rã, escorpião, rato, bebeu shots com sangue de cobra e só podia comparecer a funerais - que duravam até cinco dias - se levasse fruta ou vinho.
Apesar de o artigo ter uma abordagem leve, com traços vincados de comédia, houve quem recusasse partilhar uma das suas histórias. Aconteceu com um treinador por quem nutro uma forte estima. Não pela pessoa que é - porque não o conheço -, mas pelo futebol positivo que incute às equipas por onde passa, mesmo que o sucesso desportivo seja posto em causa. Receava que fosse mal interpretado pelos árabes, um povo conservador. Não sei dizer se foi prudente ou medroso, mas dou-lhe o benefício da dúvida. Só ele, que hoje treina a equipa a equipa portuguesa que mais nos tem surpreendido nos últimos cinco anos, saberá o que viveu no Médio-Oriente.


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