sábado, 28 de abril de 2012

Futebol. Um estranho fenómeno social


Já perdi a conta ao número de vezes em que fui à bola ver o Benfica. Não tenho lugar cativo, nem sou daqueles adeptos peregrinos que seguem o clube para todo o lado mas, quando posso, lá estou eu com o cachecol e o boné no Estádio da Luz.
Prefiro ir acompanhado. Bebem-se umas jolas, comem-se uns pregos, fala-se dos atributos da rapariga sentada duas filas abaixo e, ao intervalo, mandam-se piropos às cheerleaders. Não o fazer é paradoxal à essência masculina. Aliás, quem não o fizer arrisca-se a acabar nas páginas do Sol, numa crónica de José António Saraiva sobre a homossexualidade.
Mas não me cai o mundo quando vou sozinho. A jola e o prego antes do jogo – embora em proporções menores – nunca faltam e as conversas sobre os atributos das dançarinas dão lugar a monólogos. Quanto aos comentários às incidências do encontro, esses, não mudam rigorosamente nada. Durante os jogos dou por mim a falar com alguém que nunca vi mais gordo. Discutimos as opções do treinador, criticamos os jogadores e quase detalhamos a nossa vida privada. No último Benfica – FC Porto para o campeonato nacional tinha ao meu lado esquerdo dois indivíduos que dialogavam num idioma imperceptível. Um deles, português, contou-me que estava emigrado na Holanda e que tinha vindo a Portugal propositadamente para o jogo e para ver o Witsel, de quem era fã, jogar. Conversámos durante quase todo o jogo e abraçámo-nos fervorosamente nos dois, mas insuficientes, golos do Benfica. O rapaz da direita, que tinha ido à bola com o pai, também não faltou às celebrações.
Num contexto mais “neutral”, este tipo de comportamento seria intolerável. A demissão de Sócrates despertou em mim uma enorme alegria, mas não ao ponto de partilhar fisicamente emoções com um desconhecido. Aliás, na hipótese de um episódio destes acontecer, pensaria que estava a ser assediado sexualmente ou a ser vítima de uma tentativa de assalto com recurso a técnicas dissuasoras. Como aqueles gajos que andam para aí a tropeçar nas pessoas e lhes levam as carteiras.
Mas o futebol é diferente. Aqui, a excitação é tolerável, não causa alergia e estamo-nos nas tintas para a inclinação sexual daquela pessoa que abraçamos nos festejos do golo. É como se uma embriaguez momentânea nos tivesse possuído. Mas fora daquele contexto é quem nem pensar. Levava logo um banano.

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