Diziam que era ouro aquele menino de 18 anos acabado de chegar a Lisboa naquela noite de Dezembro de 1960. Estava frio e Eusébio, que horas antes tinha deixado o calor de Lourenço Marques, apresentava-se no aeroporto com roupa de Verão. Interpelado ainda na Portela pelo jornalista Cruz dos Santos, lá confessou a sua arte para marcar uns «golinhos». Seis meses depois, o cachopo da Mafalala começou a marcar golos com a camisola do Benfica. Seguiram-se mais. Muitos mais. Ao todo, foram mais de 700 em jogos oficiais. Golos, golinhos e golaços.
Nunca vi Eusébio jogar a não ser em vídeos. Por isso, Ele, o King, será sempre melhor do que aquilo que eu conceba. Mas desde criança que me habituei a ouvir o meu avô falar sobre os feitos daquele Benfica da década de 60. Do mundial de Inglaterra, das taças dos campeões europeus ganhas, das finais perdidas e da equipa de luxo constituída por Eusébio, Simões, Águas, José Augusto, Coluna, Torres, Costa Pereira, Germano, Cruz, Jaime Graça, entre outros, e que granjeou admiração pelo mundo fora. Nunca precisei que ele me explicasse o que representava o nome de Eusébio para o Benfica e para Portugal. À medida que fui crescendo, ganhei admiração pelos grandes nomes da história do futebol. Curiosamente, não vi jogar os homens que mais admiro neste desporto. Di Stéfano, Puskás, Pelé, Eusébio, Beckenbauer, Johan Cruyff... «Nem sabes o que perdeste», dir-me-ão os mais sortudos.
Sempre me fascinou muito mais o passado do futebol do que o presente. Não troco uma tertúlia com os senhores de idade que frequentam a tasca do senhor Luciano, ali no Campo Grande, e que tanto puxam à memória acontecimentos com 30, 40 e, até, 50 anos, por uma conversa sobre quem é o melhor ponta-de-lança da selecção portuguesa. O passado é cultura. E a cultura é o que nos transforma nos seres que somos hoje.
Escrevo (escrevi) este texto no dia em que Eusébio chegou à sua última morada. Estive no Estádio da Luz ontem e hoje. Vi no rosto de centenas de pessoas a profunda tristeza de quem vê partir alguém próximo. Ou de quem sente partir um pedaço de si, como disse António Simões, o seu «irmão branco». Eusébio, o menino da Mafalala que chegou à metrópole há mais de 50 anos, era cultura, por mais que certos tipos que andam por aí lhe chamem inculto. Era um pouco de todos nós. E continuará a ser.
(Texto também disponível neste link)
http://www.zerozero.pt/coluna.php?id=575
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