sábado, 4 de maio de 2013

"A culpa não é minha"


É moda em Portugal fugir-se às responsabilidades. Quando em casa partimos um copo, o copo partiu-se. Quando temos alguma coisa chata para fazer, recorremos à procastinação. Na política ninguém assume culpas no cartório. A responsabilidade pela situação insustentável é sempre do anterior Governo e/ou da conjuntura económica.
No futebol, passa-se mais ou menos o mesmo. Em Portugal não há lugar para a assunção de incompetência. Com o aproximar do final da temporada e com o fracasso iminente, culpa-se tudo e todos. A estratégia, usada e gasta por Benfica e Sporting – fruto dos fracassos sucessivos de ambos os clubes – é este ano adoptada pelo FC Porto, o clube que (por ser melhor) mais tem ganho nas últimas três décadas.
Vítor Pereira é o rosto do desespero que grassa nas hostes azuis e brancas. Indignou-se com a arbitragem de João Capela no derby lisboeta como se de um responsável leonino se tratasse e agora desvaloriza a campanha europeia do Benfica, preferindo destacar a proeza que foi a eliminação dos seus pupilos aos pés do "poderosíssimo" Málaga. O técnico portista chega ao cúmulo de dizer que a sua equipa foi a única em Portugal com capacidade para passar a fase de grupos da Champions enquanto o rival está na Liga Europa porque fracassou na Liga Milionária.
Vítor Pereira tem razão. O Benfica está na Liga Europa porque se classificou em terceiro lugar na fase de grupos da Champions, assim como o seu clube chegou à Liga Europa na época transacta porque foi pior do que Zenit e Apoel, duas equipas europeias de topo.
A competição que Vítor Pereira parece agora subestimar é, caso não se recorde, a mesma que ganhou e festejou efusivamente enquanto adjunto de André Villas-Boas e, também, aquela da qual se despediu precocemente, alguns meses depois, com o segundo resultado combinado mais desnivelado dos 1/16 de final.
Apesar de garantir não estar preocupado com o seu futuro, as intervenções do ainda treinador do FC Porto transparecem o contrário. Campeão nacional na última temporada, nem isso o tornou uma figura consensual no seio dos adeptos portistas, mas ganhou crédito junto de Pinto da Costa, o homem com quem aprendeu a produzir e reproduzir discursos inflamados contra o rival lisboeta. Insiste em gabar o futebol dominador praticado pela sua equipa, não obstante o desastre que será a presente temporada, a primeira desde 2005 em que o clube azul e branco não vence qualquer competição (a Supertaça não entra nas contas). Perde o campeonato (está quase), as Taças de Portugal e da Liga e cai na Champions aos pés do sexto classificado da Liga Espanhola e culpa João Capela e outra arbitragens alegadamente tendenciosas a favor do Benfica. Afinal, de quem é mesmo a culpa, Vítor?

(Texto também disponível aqui )

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