É moda em Portugal
fugir-se às responsabilidades. Quando em casa partimos um copo, o
copo partiu-se. Quando temos alguma coisa chata para fazer,
recorremos à procastinação. Na política ninguém assume culpas no
cartório. A responsabilidade pela situação insustentável é
sempre do anterior Governo e/ou da conjuntura económica.
No futebol, passa-se mais
ou menos o mesmo. Em Portugal não há lugar para a assunção de
incompetência. Com o aproximar do final da temporada e com o
fracasso iminente, culpa-se tudo e todos. A estratégia, usada e
gasta por Benfica e Sporting – fruto dos fracassos sucessivos de
ambos os clubes – é este ano adoptada pelo FC Porto, o clube que
(por ser melhor) mais tem ganho nas últimas três décadas.
Vítor Pereira é o rosto
do desespero que grassa nas hostes azuis e brancas. Indignou-se com a
arbitragem de João Capela no derby lisboeta como se de um
responsável leonino se tratasse e agora desvaloriza a campanha
europeia do Benfica, preferindo destacar a proeza que foi a
eliminação dos seus pupilos aos pés do "poderosíssimo"
Málaga. O técnico portista chega ao cúmulo de dizer que a sua
equipa foi a única em Portugal com capacidade para passar a fase de
grupos da Champions enquanto o rival está na Liga Europa porque
fracassou na Liga Milionária.
Vítor Pereira tem razão.
O Benfica está na Liga Europa porque se classificou em terceiro
lugar na fase de grupos da Champions, assim como o seu clube chegou à
Liga Europa na época transacta porque foi pior do que Zenit e Apoel,
duas equipas europeias de topo.
A competição que Vítor
Pereira parece agora subestimar é, caso não se recorde, a mesma que
ganhou e festejou efusivamente enquanto adjunto de André Villas-Boas
e, também, aquela da qual se despediu precocemente, alguns meses
depois, com o segundo resultado combinado mais desnivelado dos 1/16
de final.
Apesar de garantir não
estar preocupado com o seu futuro, as intervenções do ainda
treinador do FC Porto transparecem o contrário. Campeão nacional na
última temporada, nem isso o tornou uma figura consensual no seio
dos adeptos portistas, mas ganhou crédito junto de Pinto da Costa, o
homem com quem aprendeu a produzir e reproduzir discursos inflamados
contra o rival lisboeta. Insiste em gabar o futebol dominador
praticado pela sua equipa, não obstante o desastre que será a
presente temporada, a primeira desde 2005 em que o clube azul e
branco não vence qualquer competição (a Supertaça não entra nas
contas). Perde o campeonato (está quase), as Taças de Portugal e da
Liga e cai na Champions aos pés do sexto classificado da Liga
Espanhola e culpa João Capela e outra arbitragens alegadamente
tendenciosas a favor do Benfica. Afinal, de quem é mesmo a culpa,
Vítor?
(Texto também disponível
aqui )