terça-feira, 21 de maio de 2013

Fontes de inspiração

Já aqui escrevi sobre a falta de criatividade da imprensa em Portugal em matéria de concepção de capas. Tirando dois ou três exemplos, nos quais incluo o jornal i e a revista Sábado, conservadorismo é a palavra de ordem. 
Hoje sou um leitor religioso da revista Sábado. Não deito nenhuma fora e estão todas (bem) arquivadas cá em casa. Apesar de as vendas ainda não o confirmarem - a Visão, muito graças aos seus assinantes e ofertas nos postos de combustível, ainda é líder no segmento - há muito que a Sábado é, na minha opinião, a melhor revista portuguesa. Ali há espaço quer para o bom jornalismo quer para o entretenimento, o que muito provavelmente até choca os paladinos do jornalismo conservador.
A Visão tem, nos últimos tempos, tentado combater a pasmaceira (gráfica e escrita) que tomou conta dos conteúdos da revista, razão essa que me levou a não renovar uma subscrição de dois anos. As capas estão mais apelativas, mas não sei se é justo dizer que estão a tornar-se originais. Porque ir beber a outras fontes não tem de ser necessariamente beber a fonte toda.

domingo, 12 de maio de 2013

Uma lição


Há semanas, um homem bem mais experiente do que eu contou-me como tem educado os dois filhos. Um deles, uma rapariga, está prestes a terminar o ensino secundário. O outro, um rapaz, já entrou na idade adulta. ´Eu não sou aquele tipo de pai que protege demasiado os filhos, sabes porquê?´ Permaneci em silêncio, à espera que ele prosseguisse com a sua explicação. ´Porque quero que eles se preparem para a vida sem condicionamentos. Estás a ver aquele buraco? Há pais que não deixam os filhos aproximarem-se dele, mas eu não sou esse tipo de pai. Se um dos meus filhos tivesse a curiosidade de se aproximar do buraco, dir-lhe-ia simplesmente para ter cuidado. Se caísse lá para dentro, ficaria a saber por que razão lhe tinha dito para ter cuidado. Não foi preciso pensar muito naquilo para chegar à conclusão de que a melhor das aprendizagens, aquela que perdura por mais tempo, é aquela que vivenciamos.
Vou ser sincero. Arrependo-me da última crónica que aqui escrevi, na qual dei o campeonato nacional praticamente entregue ao Benfica. Deixei-me levar não só pela onda de triunfalismo encarnado, mas também pelo desalento portista. Fiz o meu prognóstico. E falhei, como, arrisco dizer, falhou a grande maioria dos adeptos de futebol.
Ao contrário do que muitos possam julgar, não me custa assim tanto ver o Benfica perder campeonatos para o FC Porto. Tenho 24 anos e essa tem sido uma constante desde que vim ao Mundo. Sim, sou um especialista em digestão de perdas de campeonatos. Mas a perda deste é mais difícil de digerir. Pelo empate com o Estoril na Luz, pela derrota no Dragão nos últimos instantes e porque até os portistas mais optimistas já davam este campeonato entregue aos rivais.
Esta época serve de lição, para mim e para todos os benfiquistas. Como o rapaz que cai no buraco mesmo sabendo da sua existência, aprendemos (dolorosamente), que não há vencedores antecipados, ainda que já soubéssemos que os campeonatos só terminam no fim. E é por isso que não felicito já o FC Porto pela conquista de mais um título. Os campeonatos só terminam no fim.

sábado, 4 de maio de 2013

"A culpa não é minha"


É moda em Portugal fugir-se às responsabilidades. Quando em casa partimos um copo, o copo partiu-se. Quando temos alguma coisa chata para fazer, recorremos à procastinação. Na política ninguém assume culpas no cartório. A responsabilidade pela situação insustentável é sempre do anterior Governo e/ou da conjuntura económica.
No futebol, passa-se mais ou menos o mesmo. Em Portugal não há lugar para a assunção de incompetência. Com o aproximar do final da temporada e com o fracasso iminente, culpa-se tudo e todos. A estratégia, usada e gasta por Benfica e Sporting – fruto dos fracassos sucessivos de ambos os clubes – é este ano adoptada pelo FC Porto, o clube que (por ser melhor) mais tem ganho nas últimas três décadas.
Vítor Pereira é o rosto do desespero que grassa nas hostes azuis e brancas. Indignou-se com a arbitragem de João Capela no derby lisboeta como se de um responsável leonino se tratasse e agora desvaloriza a campanha europeia do Benfica, preferindo destacar a proeza que foi a eliminação dos seus pupilos aos pés do "poderosíssimo" Málaga. O técnico portista chega ao cúmulo de dizer que a sua equipa foi a única em Portugal com capacidade para passar a fase de grupos da Champions enquanto o rival está na Liga Europa porque fracassou na Liga Milionária.
Vítor Pereira tem razão. O Benfica está na Liga Europa porque se classificou em terceiro lugar na fase de grupos da Champions, assim como o seu clube chegou à Liga Europa na época transacta porque foi pior do que Zenit e Apoel, duas equipas europeias de topo.
A competição que Vítor Pereira parece agora subestimar é, caso não se recorde, a mesma que ganhou e festejou efusivamente enquanto adjunto de André Villas-Boas e, também, aquela da qual se despediu precocemente, alguns meses depois, com o segundo resultado combinado mais desnivelado dos 1/16 de final.
Apesar de garantir não estar preocupado com o seu futuro, as intervenções do ainda treinador do FC Porto transparecem o contrário. Campeão nacional na última temporada, nem isso o tornou uma figura consensual no seio dos adeptos portistas, mas ganhou crédito junto de Pinto da Costa, o homem com quem aprendeu a produzir e reproduzir discursos inflamados contra o rival lisboeta. Insiste em gabar o futebol dominador praticado pela sua equipa, não obstante o desastre que será a presente temporada, a primeira desde 2005 em que o clube azul e branco não vence qualquer competição (a Supertaça não entra nas contas). Perde o campeonato (está quase), as Taças de Portugal e da Liga e cai na Champions aos pés do sexto classificado da Liga Espanhola e culpa João Capela e outra arbitragens alegadamente tendenciosas a favor do Benfica. Afinal, de quem é mesmo a culpa, Vítor?

(Texto também disponível aqui )