sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pagar mais para viver

Não me considero um gajo de esquerda. Nem de centro. Nem de direita. Raios!
Mas tenho de reconhecer que Portugal evoluiu muito nos últimos dez anos. Muuuuuuuuuuiiiito mesmo... Particularmente no que ao aumento do preço dos bens de consumo diz respeito.
Em 2001, a vida já não estava fácil. Escusado será dizer que nunca o esteve para a grande maioria dos portugueses, mas parece que depois da introdução da moeda única, que fez disparar o custo de vida, tudo se tornou um bocadinho pior.

Ora vejamos:
Nesse ano, o preço de um jornal generalista como o Correio da Manhã era de 100 escudos (50 cêntimos); hoje custa 90 cêntimos. *
O cornetto, gelado da Olá, custava 165 escudos contra os 250 (1,25 €) de hoje. **
Com 80 escudos bebia-se um café; agora, o preço habitual da bica ronda os 60, 70 cêntimos. ***
O preço anual médio do litro de gasolina foi de 91 cêntimos (182 escudos) e o do gasóleo 0,68 € (136 escudos); agora, o litro de gasolina custa 1,65 € e gasóleo está a 1,50 €. ****
O maço de Marlboro era vendido a 2,05 euros (410 escudos); agora custa o dobro. *****
O valor cobrado nas Universidades portuguesas pelas propinas era de 67 mil escudos, segundos despacho do Ministério do Equipamento Social; hoje, a propina máxima no Ensino Superior Público é de 1037 euros. ******

Será que estes valores correspondem à taxa de inflação?
Segundo a Pordata, Base de Dados Portugal Contemporâneo, não.
* 100 escudos em 2001 equivalem hoje a 0,60 €.
** 165 escudos são hoje 0,99 €.
*** 80 escudos equivalem a 0,48 €.
**** 182 escudos a 1,10 €; e 136 escudos a 0,82 €.
***** 410 escudos equivalem hoje a 2,47 €.
****** E 403 € seria o valor ajustado a pagar pelas propinas no Ensino Superior Público face a 2001

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A minha primeira vez

Era bonito, não era?
Agora que captei a tua atenção, vou falar da primeira vez em que entrei no estádio da Luz.
Corria o ano de 1998. Maio, mais concretamente, e o Benfica recebia o Leça no último jogo de uma época sem grande história. O FC Porto tinha festejado o título (o tetra) algumas jornadas antes e o Benfica, então presidido por aquele cujo nome não deve ser pronunciado, garantia o segundo posto, à frente do Guimarães e do Sporting. Quer isto dizer que aquele jogo servia apenas para cumprir calendário.
E lá fui, naquele soalheiro final de manhã, para o Estádio da Luz, na primeira de muitas excursões que integrei pela Casa do Benfica de Grândola, inaugurada dois anos antes pelas mãos de Manuel Damásio e de um tal Donizete.
Não me recordo daquele dia como se fosse ontem, mas, ou não fosse uma primeira vez, consigo descrever quase pormenorizadamente aquelas horas, desde a ansiedade e excitação iniciais, ao êxtase dos golos. E posso prová-lo!
Daquele dia guardo as lembranças de ter andado todo o dia na companhia do meu colega de turma Luís. Naturalmente que não estávamos sozinhos. A Guida, filha do Zé Carlos, dono de um stand automóvel e então presidente da Casa do Benfica, ficou incumbida da hercúlea tarefa de garantir que chegaríamos sãos e salvos a Grândola.
Para Lisboa, julgo ter levado duas notas de dois contos. Não tenho a certeza se levei comida, mas, tendo em conta o comportamento padrão da minha progenitora, é quase certo que sim. Portanto, o objectivo era aplicar aquela massa toda numa camisola do glorioso. Comecei por procurar as verdadeiras, de marca. Semelhantes àquelas que eram envergadas por Nuno Gomes, João Vieira Pinto e Poborsky. Menino fino, eu. Mas fiquei-me pela procura: já naqueles tempos, as camisolas eram vendidas a um preço pornográfico. E a pasta que eu tinha no bolso também não chegava para adquirir uma no mercado da contrafacção, pelo que resolvi investir dois contos numa do Ronaldo. Esse mesmo, o fenómeno, na altura o melhor jogar do Mundo, a léguas de todos os outros (Zidane ainda iria explodir no Mundial de França).
A camisola, com o número 10, ficava-me pelos joelhos e não a levei para a catedral. Era um crime entrar de camisola azul dentro daquele monumento, ainda para mais tratando-se da primeira vez, pelo que aconselhou a prudência que a deixasse no autocarro.
Acabei por entrar no estádio com uma t-shirt amarela da Benetton. Sete foi o número de vezes em que celebrei os golos do Benfica. Cinco (5!) do Nuno Gomes, um do João Pinto e outro do Brian Deane, todos eles festejados ao som de "Vermelho", da Fafá de Belém.
Eram tempos diferentes. Tempos em que Nuno Gomes era um voraz goleador, em que João Pinto brilhava de encarnado, tempos em que a estátua do Eusébio era orgulhosamente exibida na entrada principal do estádio, e tempos em que os jogadores limpavam o rabo aos cotovelos, conforme afirmou recentemente uma testemunha de acusação no julgamento de Vale e Azevedo.
Eram também tempos em que os jogadores seguiam directamente das suas casas para o estádio em dias de jogo. Foi assim que encontrámos, quase por acaso, o Preud'Homme e o Sanchez. Enquanto saíam de um Citroën Xsara (Porsches e Ferraris eram só para quem recebia todos os meses), pedimos-lhes autógrafos. Todos tínhamos papel. Mas ninguém tinha a porra de uma caneta.
Esta foi a minha primeira vez no estádio da Luz. Desastrosa e especial.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

"Estes gajos vão-se safando"

Por uma questão de solidariedade não tenho por hábito criticar o trabalho de jornalistas. Até prova em contrário, acredito que um mau trabalho pode ser fruto de um dia menos bom ou da falta de recursos para se fazer melhor. Acrescento ainda que, do alto da minha comiseração por um jornalista que despejou - por incompetência, inexperiência ou infelicidade - uma certa verborreia nas linhas de um jornal, na frequência de uma rádio ou num canal de televisão, chego ao ponto de o defender - eu que, por inexperiência, incompetência e infelicidade, cometi erros quase imperdoáveis - acerrimamente quando é enxovalhado por outros profissionais da classe. E, infelizmente, o grupo dos jornalistas no Facebook, é uma montra cheia de "pseudo-camaradas".
Acontece que, tendo em conta a excelência profissional que é exigida pelos paladinos do bom jornalismo que habitam nesse grupo, estranha-me que não tenha havido qualquer reparo aos desempenhos de António Carneiro Jacinto no programa Bola ao Centro, da SIC Notícias, emitido aos sábados, e que vai na segunda emissão.
Não está em causa o percurso deste senhor no jornalismo português. A minha avó, que tem 80 anos, nem pestanejou na hora de o identificar. Não conheço ao detalhe as suas proezas jornalísticas, mas sei que se trata de alguém com um vasto currículo: entre muitas outras coisas, foi jornalista da TSF, ajudou a fundar a SIC, assessorou ministros e, foi conselheiro para a imprensa, na Embaixada Portuguesa em Washington. Além disso, é licenciado em Direito, mas parece que ninguém sabe muito bem onde (VER AQUI ONDE RELVAS APRENDEU A FORJAR O CURSO).
Não tenho a ousadia de chamar incompetente a António Carneiro Jacinto, mas a sua falta de jeito para conduzir um programa televisivo é demasiado evidente. Má dicção, lê o teleponto como se fosse uma criança de seis anos a ler um texto na aula de português e não conclui os seus raciocínios. Enfim, maior programa de autor do que este não pode haver: tem mesmo o seu cunho pessoal. "Já estava enterrado, mas estes gajos vão-se safando", disse-me um amigo, que percebe infinitamente mais disto do que eu, ao comentar o seu regresso à antena.
No fim do primeiro Bola ao Centro apoderou-se de mim uma certa compaixão pelo senhor, que se despediu dos telespectadores pedindo desculpas pelas suas imprecisões, considerando-as normais em quem não fazia televisão há tanto tempo. Achei bonito e dei-lhe o benefício da dúvida, mas uma semana depois verifiquei que a máquina continua enferrujada. E de que maneira! A prestação manteve-se, para ser simpático, abaixo das expectativas e atingiu o seu clímax quando o vimos a fazer uma reportagem no campo de futebol de Silves, parcialmente destruído pelo tornado de há duas semanas.
Ora, se o programa fosse para a RTP já estava a levar uma ensaboadela. Com que então, vai de Lisboa a Silves só para entrevistar duas pessoas quando tem uma delegação no Algarve que o podia fazer? Isto é gozar com o dinheiro dos contribuintes! Mas não: suspeito que o senhor se tenha deslocado a Silves para rever alguns familiares, o que já é uma justificação plausível. Afinal de contas, Silves é a sua terra natal, tendo inclusive tentado concorrer à liderança do município em 2009.
Hoje deu-me para isto.

sábado, 24 de novembro de 2012

O que farias se o Mundo acabasse daqui a um mês?

Segundo o calendário da civilização maia, o Mundo acaba a 21 de Dezembro. Portanto, dentro de menos de um mês.

Uma conversa num café sobre essa possibilidade:

- O que farias se o Mundo tivesse os dias contados?

- Juntava as pessoas que me são mais próximas e tentava passar o máximo de tempo com elas. Também gostava de ter um filho. Queria ver se era parecido comigo.

- Isso não era egoísta? Meteres um puto no Mundo só para isso, mesmo sabendo que ele nem ia ter tempo de saber quem era?

- [Risos] E tu? O que é que fazias?

- Ao contrário de ti, não passava os meus últimos tempos perto da família.

- Então?

- Ia para o pior sítio do Mundo. Um sítio tão mau, tão mau, onde quem lá habita anseia pelo fim dos seus dias. Aí, o fim do Mundo deve ser uma bênção de Deus.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Escapar do revisor no intercidades

Tem sido notório o desinvestimento do Governo nas regiões rurais. Fecham-se escolas, centros de saúde, serviços de urgência, bem como muitos outros serviços de atendimento ao público. Suprimem-se milhares de postos de trabalho com o argumento de que é imperativo cortar-se nas gorduras.
Nesta linha, também em tempos cada estação ferroviária dispunha de funcionários que procediam à venda de bilhetes. Ninguém entrava num intercidades ou regional sem antes adquirir bilhete. Tentar passar despercebido ao revisor era demasiado arriscado.
Há uns anos a CP - operadora do Estado - suprimiu os vendedores de bilhetes em algumas estações que não as de origem e de chegada. Quer isto dizer que em cada viagem podem entrar numa composição dezenas de pessoas não portadoras de lugar.
Quem anda neste meio de transporte, com maior ou menor regularidade, sabe disso e são muitos os que tentam capitalizar o facto de lá entrarem (note-se, legalmente) sem pagar. E eu não sou excepção. Confesso que também eu tenho contribuído para o défice monstruoso das contas da CP. E com muito agrado!
No meio primeiro ano de Universidade, em Lisboa, apurei a minha arte nesta matéria. Aproveitava-me da falibilidade da memória visual de alguns revisores. Num ano, devo ter poupado perto de uma centena de euros, o que, tendo em conta que as viagens com cartão jovem entre Grândola e a capital custavam 8,5 euros, perfaz mais de dez viagens à pala.
Nos últimos anos tenho andado menos de comboio. No entanto, com o preço pornográfico da gasolina, voltei a recorrer a este meio de transporte para deslocações maiores. Porque é mais barato e porque podemos beneficiar de descontos entre os 20 (cartão jovem ou de estudante) e os 100 por cento, no caso passarmos despercebidos.
Nas duas últimas viagens que fiz até Faro e Lisboa, ambas desde Grândola, consegui safar-me. Não quero com isto dizer que sou portador de um truque infalível para escapar à dolorosa cobrança do revisor, no entanto acredito que é possível não se depender da mera sorte.

Deixo algumas sugestões, inclusive as mais paranóicas:
- Casa de banho? Não! Fechares-te na casa de banho não me parece boa ideia. É uma táctica antiga, gasta e que, julgo, já não trás grandes resultados;
- Tenta escolher uma carruagem que não esteja perto do bar. Por norma, é onde o revisor se encontra quando o comboio pára numa estação. Se não te cruzares com ele à entrada, as probabilidades de poupares uns bons euros sobem consideravelmente;
- Opta por um lugar que fique de costas para o bar, de onde o revisor possivelmente virá, de modo a que ele não estabeleça contacto visual contigo durante muito tempo. É certo que ele retomará o caminho contrário, mas aí já não serás uma cara totalmente estranha para ele;
- Não olhes fixamente para o revisor, embora não devas esforçar-te por evitá-lo ao máximo. Pode denotar nervosismo;
- Abre um livro ou uma revista e teatraliza algum desconforto fruto da "longa viagem". O calor é comum quando estamos dentro de espaços fechados durante muito tempo, pelo que não será de todo descabido ficares em t-shirt;
- Leva roupa ocasional e com cores comuns, nunca berrantes;
- Se fores rapariga, convém que não sejas muito vistosa. Por norma os revisores são homens, logo, por natureza apreciadores do sexo oposto.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Space Cake

Não deviam ser mais do que quatro da tarde. Depois de eu e mais dois amigos andarmos às voltas pelas ruas de Amesterdão e de termos visitado a casa da Anne Frank, resolvemos fazer uma paragem numa das 200 coffeeshops espalhadas pela cidade. Numa das vitrinas encontravam-se os famosos Spaces Cakes. Uns assemelhavam-se a bolos de mármore e outros a brownies de chocolate. Optámos pelos segundos, a oito euros cada.
Quem me conhece sabe que não sou dado a substâncias alucinogénas, mas, estando eu em Amesterdão, não podia perder a oportunidade de experimentar uma ou outra coisa. Alguns segundos após concluir o lanche - o tal Space Cake e uma lata de Dr Pepper - manifestei o meu desagrado. Não estava à espera de que o que tinha acabado de ingerir fosse altamente alucinogéno, mas aquilo soube-me a bolo da avó.
Depois disso, demos mais uma volta pela cidade, seguindo à posteriori para o hotel, onde iríamos descansar cerca de duas horas para sairmos, frescos, à noite. Pouco depois de cair na cama, o D já ressonava. Eu tentava dormir e o R estava sentado na cama, encostado à parede. Alguns minutos depois, nervoso, disse-me que tinha de sair do hotel e andar um pouco: tinha o coração acelerado. Voltei a vestir-me e acompanhei-o numa volta ao quarteirão e regressei ao quarto sozinho - o R. continuava a não se sentir bem e continuou na rua. Quando ao D, encontrava-se impávido e sereno, imerso no seu sono pesado.
Alguns minutos depois, o R entrou no quarto. Estava cada vez pior e queria ir ao hospital. Tirei o D da cama e galgámos, estrada acima, os três, em passo acelerado. Durante mais de um quilómetro, o D seguiu alguns metros atrás: julguei tratar-se de uma reacção ao facto de ter acordado há pouco tempo (já veremos como estava enganado), mas, uns minutos depois, perdemo-lo.
Esperámos durante alguns instantes, mas não havia sinais dele. Senti-me entre dois pratos da balança: seguia com o R ao hospital, num arrabalde qualquer de Amesterdão, ou voltava para trás à procura do D? Não tive dúvidas de qual seria o caminho a seguir quando o R me disse não sentir a parte esquerda do corpo.
Metemos a quinta e chegámos ao hospital alguns minutos depois. Na recepção, o R fez a sua ficha, falou dos seus sintomas e da substância que tinha ingerido: o Space Cake.
Pretendia apenas acompanhá-lo, mas constatei que também eu tinha os batimentos cardíacos acelerados. Por via das dúvidas, pedi também para ser visto por um médico.
Na sala de triagem mediram-nos a pulsação. Não sei a quanto estava a minha, mas o R disse-me que os seus batimentos cardíacos estavam a 120 ou 130 por minuto.
Depois da triagem, fomos encaminhados para um corredor onde teríamos de aguardar até sermos vistos por um médico. Ensonados, ligámos um sem número de vezes para o D, que continuava incontactável. Ter-se-ia deixado dormir numa das ruas de Amesterdão enquanto seguia atrás de nós para o hospital?
Não sei quanto tempo estivemos à espera de ser vistos por um médico. Sei que, depois do R ser encaminhado para uma sala, ainda fiquei sozinho durante uma meia-hora, até que o meu nome foi chamado por uma enfermeira que me entregou aos cuidados de uma médica, com quem conversei durante uns cinco minutos. Numa sala onde estavam outros pacientes, explicou-me que todas as reacções do meu organismo eram normais - batimentos cardíacos acelerados, sonolência, etc. - e avisou-me de que os efeitos do Space Cake poderiam durar até 12 horas, pelo que recomendou descanso. Deixei a sala e encaminhei-me para a saída do hospital, onde, cogitei, o R. já estaria à minha espera.
Mas não estava. Dirigi-me a um funcionário e perguntei-lhe onde o poderia encontrar. Atencioso, encaminhou-me para uma outra sala onde o encontrei, sozinho, sentado numa cadeira. Aparentemente, o seu caso clínico era um tanto ou quanto mais delicado do que o meu. Estava à espera do resultado de um electrocardiograma a que se tinha submetido. Aguardámos enquanto escutávamos um espanhol a ter uma acesa discussão com um médico que o aconselhava a procurar um psiquiatra.
Quando o médico chegou, procedeu a uma breve dissertação sobre a história recente dos Space Cakes. Ora, parece que há quatro ou cinco anos o consumo deste bolo alucinogéno registou uma queda abrupta. Mas desde a há dois anos para cá que se tem vindo a registar uma recuperação. Porquê? Pela simples razão de que os Space Cakes de hoje contêm mais droga do que há uns anos.
Depois de alguns minutos à conversa com o médico, abandonámos o hospital. À saída, já restabelecido, contei ao R tudo o que tinha sentido durante aquela "bad trip", para além dos batimentos cardíacos acelerados e do sono. Conseguia escutar conversas a 20 metros de distância como se tivessem lugar dentro do meu cérebro e, melhor do que isso, traduzia todos os diálogos - em holandês, em ucraniano ou em chinês - para português. Escusado será dizer que a tradução era pobrezinha, nada literal e recheada de delírios. No meio de tudo isto, o engraçado é que o mesmo se tinha verificado com o R.
Agora, só faltava encontrarmos o D. Em vão, continuámos a telefonar-lhe e regressámos ao hotel. Não estava no quarto e optámos por ir a um bar, onde esperaríamos até ele dar sinais de vida, o que deve ter acontecido por volta das 11 da noite. O problema é que ele não sabia onde estava. Tinha andado às voltas pela cidade, a pé e de eléctrico. Disse que me voltaria a ligar quando soubesse onde estava ou quando encontrasse o hotel. Demorou umas horas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hefner aplaude

Toda a gente se lembra da primeira edição da regressada Playboy portuguesa. E não propriamente pelas melhores razões. Em Maio passado, alguns meses depois de ter sido fotografada em topless para a capa da TV Guia, Rita Pereira aparecia mais vestida do que muitas mulheres que saem à rua na Sibéria durante o Inverno e, naturalmente, choveram críticas.
Fazendo de advogada do diabo, a direcção da publicação apressou-se a dizer que estava interessada em mudar o conceito da revista, criando um estilo que a diferenciasse das suas semelhantes. Esqueceram-se de um pormenor: tratando-se de um franchise, deviam respeitar o conceito norte-americano.
Se alguém achava que a explicação para a falta de ousadia da Ritinha residia num desacordo de verbas entre ambas as partes, a edição do mês seguinte da revista (com Dânia Neto) tratou de mostrar que o novo estilo editorial tinha vindo para ficar: a nova Playboy concorria agora com catálogos da Intimissimi e da Calzedonia.
À data, das 40 mil revistas que foram imprimidas, menos de metade chegou às mãos dos leitores. E não se pense que assistimos imediatamente a uma reconfiguração drástica da estratégia. Primeiro, cortou-se nas tiragens. O resultado: maior percentagem de publicações escoadas, mas menos vendas em banca.
Seguiram-se bons nomes na capa da Playboy. De mulheres que todos os homens (bem, a maioria deles) gostariam de ver despidas de preconceitos. E de roupa. Primeiro, a apresentadora Liliana Campos; depois, a actriz Joana Duarte. Mas o desperdício de recursos manteve-se até Outubro.
Não sei se os responsáveis da edição portuguesa entenderam finalmente qual deve ser o conceito da revista que têm em mãos, ou se Hugh Hefner ou algum dos seus assessores lhes apertou os tomates. A verdade é que no mês passado a populaça tuga foi, finalmente, brindada com uma verdadeira Playboy. A cota Marta Pereira foi a primeira capa digna de ser apresentada a amigos estrangeiros, ou não ficassem eles a pensar, pelo registo das anteriores, que somos mais pudicos que o papa Bento XVI. E a tendência manteve-se com a Raquel Henriques.
Confesso que tive um certo receio quando soube que era ela a capa deste mês. Afinal de contas, há uns meses andava a concorrer a um concurso de culturismo feminino com um corpo semelhante ao do Arnold Swarzenegger nas décadas de 70 e 80. Não sei se largou as bombas e as gemadas, mas está de parabéns. Voltou a ter um corpo feminino - e que corpo! - e é capaz de ter garantido a sustentabilidade da nossa Playboy. Que mais há a dizer?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Crónica de um regresso a Faro

Durante os três anos que passei na Universidade do Algarve conheci muita gente. Gente espectacular, gente boa, gente assim-assim e gente que Deus coloca no nosso apenas como forma de pagamento pela dádiva que Ele nos concedeu: viver.
Sexta-feira meti-me no comboio para Faro. Os planos? Passar uma noite com duas das pessoas que mais me marcaram até hoje. A I., uma rapariga cheia de garra. Estudiosa e determinada, já foi convidada para dar aulas na universidade, acaba de completar um mestrado, já ganhou prémios literários, editou livros e ajudou uma ou outra pessoa a acabarem os seus cursos. Tudo isto com 23 anos.
Nunca conheci ninguém que considerasse muito parecido comigo. Aliás, se conhecesse, acredito que não seria um dos seus grandes amigos. Gosto de pessoas diferentes: que me completam, de quem bebo as virtudes, e os defeitos. Todos esses ingredientes vão construindo um bolo. Um bolo que ainda está a ser concebido e cuja única certeza é a de que nunca agradará a todos: e esse bolo sou eu.
O A. é outro bolo. É daquelas pessoas de quem é impossível não se gostar. Toda a gente tem defeitos. Ora, ele também os tem, mas menos. Está no top das pessoas que conheci até hoje, talvez por o considerar tão diferente de mim. Não partilhamos os gostos pelo desporto, pela nicotina ou poesia e não lemos o mesmo tipo de livros. Mas sempre nos entendemos. Fomos ouvintes um do outro e vivemos grandes momentos naqueles três anos em Faro. Uma vez, uma colega nossa tentou, num jantar de curso, resumir a nossa relação de cumplicidade: parecíamos namorados, disse ela. Nada disso: ambos estávamos (e estamos) bem comprometidos e somos muito machos. 
Foi com satisfação que o vi quando desci do inter-cidades na estação de Faro e por confirmar que, apesar do pouco contacto que temos tido nos últimos tempos, a confiança que sempre tivemos um no outro mantém-se.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

F*** you, maquinistas!

Hoje, os maquinistas da CP avançaram para a 125.ª greve do ano. Devo dizer que nada tenho contra as greves. Sou, naturalmente, a favor delas quando estão em causa direitos fundamentais dos trabalhadores.
Mas estas paralisações já irritam. Primeiro, porque são sempre os mesmos (CP, METRO, CARRIS, etc), depois porque está mais do que visto que, seja lá o que andam a reivindicar estes senhores, a entidade patronal não cede e, enquanto isso, centenas de milhares de portugueses vêem as suas vidas serem afectadas (hoje fui eu e foi muito chato).
Acontece que o vencimento médio de um maquinista da CP rondará os 2200 euros mensais - o Sindicato do Maquinistas (SMAQ) nega. Acreditando ser verdade, em média um profissional dos carris da CP aufere mais 400 euros do que o vencimento médio praticado em Portugal, de acordo com dados do INE referentes ao Verão de 2011. Valores que atingem outra dimensão (arrisco-me a dizer, quase pornográfica) se tivermos em conta que dez por cento dos trabalhadores portugueses não ganham mais do que o salário mínimo e que a taxa de desemprego no país já supera os 15 por cento. Vão apanhar sabonetes, maquinistas!