Faltava jogar o Benfica que, quando entrou em campo, em Guimarães, estava a 14 pontos do FC Porto de Mourinho e a nove do Sporting, então orientado por Fernando Santos. A conquista do campeonato estava fora de questão, mas os adeptos mais optimistas ainda acalentavam esperanças relativamente à segunda posição.
Como não tinha SportTV, fui ver o jogo à Casa do Benfica cá da terra, ritual que seguia sempre que o meu clube jogava em canal codificado.
Lembro-me desse dia como se tivesse sido ontem. Os dias em que algo de muito negativo se passa têm este efeito em nós. Teimosamente, os sacanas ficam gravados na nossa memória por muitos anos.
Cheguei à Casa do Benfica de Grândola pouco antes do jogo começar. No estabelecimento, havia duas televisões. Uma, maior, no piso da entrada; a outra ficava na cave, onde estava a sala de jogos. Era para ali que os cachopos como eu, então com 15 anos, iam. Víamos a bola, simulávamos relatos e jogávamos snooker.
Naquela noite, o jogo estava a irritar-me solenemente. O Benfica não estava a jogar nada. O relvado, pesado por causa da chuva, não ajudava e o árbitro devia estar a fazer das suas. A arbitragem é base da argumentação de qualquer adolescente quando opina sobre um jogo que o seu clube foi incapaz de ganhar.
Irritado, pouco antes do final do encontro peguei no meu Nokia 3330 (ou já seria o 5210?) e telefonei à minha mãe para me ir buscar. Não valia a pena perder mais tempo a ver aquele jogo. Quando entrei no carro, ainda estava 0-0. Procurei no rádio uma estação que estivesse a passar o relato do jogo (foi isto que ouvi). No caminho até casa, que se percorre em menos de cinco minutos, o improvável Fernando Aguiar apontou o golo que daria a vitória ao Benfica. A história do jogo estava escrita. Já não haveria mudanças. O Benfica tinha ganho e, agora, era só gerir a posse de bola ou, se não fosse possível, pontapeá-la com todas as forças para o meio-campo contrário.
Mas houve mudanças e das grandes. Poucos minutos após o golo do Robocop, à chegada a casa, o relator falava de uma lesão grave de Miklos Fehér. Em desespero, os jogadores deitaram as mãos à cabeça. Um dos comentadores da rádio que estava a ouvir, a Renascença, corrigiu a observação inicial. Não era uma lesão. Era pior, muito pior. Fehér estava inanimado, prostrado no chão.
Quando cheguei a casa, corri para o quarto. Liguei o rádio que lá tinha e escutei atentamente os detalhes da emissão. Fehér pareceu reagir às tentativas de reanimação. Pareceu, apenas.
Pouco tempo depois, já as televisões faziam directos de Guimarães. Fehér estava a lutar pela vida no hospital de Guimarães. Às 23h10 perdeu a batalha. Miklos Fehér teria hoje 34 anos.