domingo, 26 de janeiro de 2014

O meu 25 de Janeiro de 2004

Domingo, 25 de Janeiro de 2004. O Benfica defrontava o Vitória de Guimarães na cidade berço. Lembro-me que havia pressão sobre a equipa então orientada por Camacho. FC Porto e Sporting já tinham feito o trabalho de casa na 19.ª jornada da Liga. Por outras palavras, tinham ganho os respectivos encontros.

Faltava jogar o Benfica que, quando entrou em campo, em Guimarães, estava a 14 pontos do FC Porto de Mourinho e a nove do Sporting, então orientado por Fernando Santos. A conquista do campeonato estava fora de questão, mas os adeptos mais optimistas ainda acalentavam esperanças relativamente à segunda posição.

Como não tinha SportTV, fui ver o jogo à Casa do Benfica cá da terra, ritual que seguia sempre que o meu clube jogava em canal codificado.

Lembro-me desse dia como se tivesse sido ontem. Os dias em que algo de muito negativo se passa têm este efeito em nós. Teimosamente, os sacanas ficam gravados na nossa memória por muitos anos.

Cheguei à Casa do Benfica de Grândola pouco antes do jogo começar. No estabelecimento, havia duas televisões. Uma, maior, no piso da entrada; a outra ficava na cave, onde estava a sala de jogos. Era para ali que os cachopos como eu, então com 15 anos, iam. Víamos a bola, simulávamos relatos e jogávamos snooker.

Naquela noite, o jogo estava a irritar-me solenemente. O Benfica não estava a jogar nada. O relvado, pesado por causa da chuva, não ajudava e o árbitro devia estar a fazer das suas. A arbitragem é base da argumentação de qualquer adolescente quando opina sobre um jogo que o seu clube foi incapaz de ganhar.

Irritado, pouco antes do final do encontro peguei no meu Nokia 3330 (ou já seria o 5210?) e telefonei à minha mãe para me ir buscar. Não valia a pena perder mais tempo a ver aquele jogo. Quando entrei no carro, ainda estava 0-0. Procurei no rádio uma estação que estivesse a passar o relato do jogo (foi isto que ouvi). No caminho até casa, que se percorre em menos de cinco minutos, o improvável Fernando Aguiar apontou o golo que daria a vitória ao Benfica. A história do jogo estava escrita. Já não haveria mudanças. O Benfica tinha ganho e, agora, era só gerir a posse de bola ou, se não fosse possível, pontapeá-la com todas as forças para o meio-campo contrário.

Mas houve mudanças e das grandes. Poucos minutos após o golo do Robocop, à chegada a casa, o relator falava de uma lesão grave de Miklos Fehér. Em desespero, os jogadores deitaram as mãos à cabeça. Um dos comentadores da rádio que estava a ouvir, a Renascença, corrigiu a observação inicial. Não era uma lesão. Era pior, muito pior. Fehér estava inanimado, prostrado no chão.

Quando cheguei a casa, corri para o quarto. Liguei o rádio que lá tinha e escutei atentamente os detalhes da emissão. Fehér pareceu reagir às tentativas de reanimação. Pareceu, apenas.

Pouco tempo depois, já as televisões faziam directos de Guimarães. Fehér estava a lutar pela vida no hospital de Guimarães. Às 23h10 perdeu a batalha. Miklos Fehér teria hoje 34 anos.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Obrigado, Eusébio

Diziam que era ouro aquele menino de 18 anos acabado de chegar a Lisboa naquela noite de Dezembro de 1960. Estava frio e Eusébio, que horas antes tinha deixado o calor de Lourenço Marques, apresentava-se no aeroporto com roupa de Verão. Interpelado ainda na Portela pelo jornalista Cruz dos Santos, lá confessou a sua arte para marcar uns «golinhos». Seis meses depois, o cachopo da Mafalala começou a marcar golos com a camisola do Benfica. Seguiram-se mais. Muitos mais. Ao todo, foram mais de 700 em jogos oficiais. Golos, golinhos e golaços. 

Nunca vi Eusébio jogar a não ser em vídeos. Por isso, Ele, o King, será sempre melhor do que aquilo que eu conceba. Mas desde criança que me habituei a ouvir o meu avô falar sobre os feitos daquele Benfica da década de 60. Do mundial de Inglaterra, das taças dos campeões europeus ganhas, das finais perdidas e da equipa de luxo constituída por Eusébio, Simões, Águas, José Augusto, Coluna, Torres, Costa Pereira, Germano, Cruz, Jaime Graça, entre outros, e que granjeou admiração pelo mundo fora. Nunca precisei que ele me explicasse o que representava o nome de Eusébio para o Benfica e para Portugal. À medida que fui crescendo, ganhei admiração pelos grandes nomes da história do futebol. Curiosamente, não vi jogar os homens que mais admiro neste desporto. Di Stéfano, Puskás, Pelé, Eusébio, Beckenbauer, Johan Cruyff... «Nem sabes o que perdeste», dir-me-ão os mais sortudos. 

Sempre me fascinou muito mais o passado do futebol do que o presente. Não troco uma tertúlia com os senhores de idade que frequentam a tasca do senhor Luciano, ali no Campo Grande, e que tanto puxam à memória acontecimentos com 30, 40 e, até, 50 anos, por uma conversa sobre quem é o melhor ponta-de-lança da selecção portuguesa. O passado é cultura. E a cultura é o que nos transforma nos seres que somos hoje. 

Escrevo (escrevi) este texto no dia em que Eusébio chegou à sua última morada. Estive no Estádio da Luz ontem e hoje. Vi no rosto de centenas de pessoas a profunda tristeza de quem vê partir alguém próximo. Ou de quem sente partir um pedaço de si, como disse António Simões, o seu «irmão branco». Eusébio, o menino da Mafalala que chegou à metrópole há mais de 50 anos, era cultura, por mais que certos tipos que andam por aí lhe chamem inculto. Era um pouco de todos nós. E continuará a ser.

(Texto também disponível neste link)
http://www.zerozero.pt/coluna.php?id=575